Pois não

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Cruzou toda apressada o saguão da portaria. Até ouvir fechar o portão as suas costas e lembrar que esquecera em casa a bolsinha de mão.  Daí em diante, o jeito era pegar novamente o elevador e fazer o caminho inverso até a sala. Mas, primeiro, teria que entrar no prédio. Por isso, tocou. E o porteiro, atencioso, prontamente atendeu.

_Pois não.

_Abra, por favor.

_Vai onde?

_Sou eu. A Bruna, do cento e dois.

_Um instantinho só – pra retornar com a negativa _ Dona Bruna não está.

_Escute aqui – insistiu ela_ Sou eu. A Bruna. Do décimo.

Ao que ele replicou, meio sem paciência.

_Dona Bruna num tá! E aqui não mora nenhum Décio.

_É dé-ci-mo! Décimo andar.

_Pois é. Não conheço. E a dona Bruna, também, não – enfatizando_ Solteirona como é…

_Divorciada –  corrigiu ela.

_Encalhada, quis dizer, né? E longe de mim ficar falando da vida dos outros, mas, nesse caso, sou obrigado a concordar com a senhora. Tristeza, né, colega? Ainda mais na idade dela. Cinquentona…

_Tá doido, é? Mal fiz quarenta…

_A senhora pode ser. Mas tô falando dela. Da dona Bruna. Tão descuidada, pobrezinha. Raiz por retocar. Unha por fazer. Cheia daquelas ruguinhas de canto d’olho…

_Ruguinhas? – interpelou a própria, indignada até.

Ele, pra evitar mal-entendidos, decidiu exemplificar.

_Sabe alface crespa? Aquela de folha miudinha. Então…

Chega!, irritou-se ela, Aqui, em pé, não fico nem mais um segundo. Te juro! Dou minha palavra de honra…

Foi quando sacou do celular e ligou. Pra portaria. E ele atendeu.

_Pois não.

_Seu João? É a Bruna. Do décimo.

_A senhora não morre tão cedo, sabia? Acredita que tem uma amiga sua lhe esperando?

_Pois faça-me a gentileza de abrir esse portão, A-GO-RA!

E ele obedeceu. Deixando a mulher passar. Aquela. Que cuspia fogo pelas ventas. Vermelha que nem groselha. Azeda que nem limão.

Nem cumprimentou. Subiu direto. Pra casa do síndico.

Na recepção, seu João, perspicaz como nenhum outro, comentou com o colega de balcão.

_Viu só aquela mulher? Cara da dona Bruna. Pode isso?

Ao que o outro, apoiado nas vassouras, devolveu.

_Irmã dela. Tenho certeza.

_Será?

_Aposto minha marmita contra a sua. E olhe que minha mulher fez macaxeira …

Bastou pro homem ficar bem bravo.

_Diacho! Custava avisar? Era subir e pronto. Mas, não. Tinha que ficar me empatando. Num trelelê furado, sem eira nem beira. Caso sério, viu? Caso sério…

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