Quer Apostar?

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Sempre chorava em casamentos. E disso não fazia o menor mistério. Nas bodas de ouro de seus pais, então, soluçara e suspirara a festa inteira. Até que se assoando num lencinho, achegou-se a sua mãe, confidenciando:

_ Bom demais isso tudo de casar e ter família, né?

_Nem brinca, filhinha – comemorou a doce senhora _ E quer saber? Foi amor à primeira vista. Culpa dum diacho de pastel de pizza. Pode isso?

_Verdade?

_Por Deus –  e pôs-se a explicar_ Tava eu lá: esquina da Manoel Guedes com a Pedrosa Alvarenga. Esperando a chuva passar. Quando dei de cara com seu pai. Vindo em minha direção. Todo garboso. Abanando e assoprando um pastelão de todo o tamanho.

_E daí?

_Daí que me ofereceu. E eu não só aceitei, como comi tudinho – ainda fez graça_  O melhor pastel da minha vida. Uhhhhhh….

_E depois?

_Depois? Nada. Que a gente nunca mais se viu. Até que no ano seguinte, mesmo dia e mesma hora, trombei com ele de novo. Plantadinho na esquina a esperar por mim.

_Tá brincando…

_Seríssimo. Incrível, né? O resultado você conhece– suspiraram e despediram-se.

A moça, durante uns dez ou quinze minutos, deixou-se ficar ali. Entregue a magnitude daquele amor incontestável e grandioso. Segura de que não existia no mundo casal igual, nem parecido. Únicos em adoração, fascínio e cumplicidade.

Mas a verdade é que, no fundo, experimentava uma surda irritação, Bolas! E agora? Como é que eu fico? Onde vou achar alguém que chegue aos pés do meu pai, hein? Raios! Casar, eu? Im-pos-sí-vel. Quer apostar?…

Saiu triste e cabisbaixa. Ao passar pelo buffet, topou com o pai petiscando numa grande mesa. E resolver ajudar

_No duro: tudo divino, viu? De comer ajoelhada _ e piscou, cheia de intimidade_  Só  não tem pastel. Mas o enroladinho é de pizza. Sendo assim, bom proveito…

_ Eca, menina! Tomate me dá colite, esqueceu? Misturado com queijo, então, no mínimo, três dias de desarranjo garantido, se não for pior. Fora aquele orégano todo encalacrando nos dentes. Ui! Gosto nem de pensar….

_ Não parecia tão preocupado no dia em que se conheceram… – cutucou ela

_Eu pedi carne. Mas o pasteleiro se enganou e ainda cobrou dobrado. Ah, se fosse hoje…

_O recheio pouco importa. O que conta é que dentre todas as meninas da cidade, foi a mamãe quem você escolheu pra partilhar… –  emendou ela, tremendamente emocionada .

_Acha que é fácil repassar um pastel encharcado debaixo de chuva? Eu bem que ofereci, mas até o velhinho do realejo pulou fora. Só a sua mãe aceitou. Aquela esfomeada…

_Morta de fome, ou não, fato é que você se apaixonou por ela.  Perdidamente. E viveu um ano na mais platônica e cruel veneração – foi quando teve pena_ Deve ter sofrido horrores nesse período de solidão…

_Bom. Sofri e não sofri – desconversou o outro_ Acontece que naqueles tempos eu andava de enrosco com uma tal de Nice. Mas a mulher era uma encrenca, tanto que encerrei com ela e engatei num chamego com uma conhecida do escritório, a Dete. Sem falar na finada dona Dulce. E numa secretária que tive, a Sra. Olga. Se bem que a essa quase nem conta, já que era casada e tinha três filhos…

_Cruzes, pai! – ralhou a moça, decidida a remediar_ O importante é que você voltou. Um ano mais tarde estava lá. Aguardando por ela outra vez.

_Pra que remexer o passado, não é verdade? – resistiu ele, em sua ilimitada boa-fé.

Mas não deu jeito. Acabou tendo que confessar.

_Valcimar… Voltei por conta do Valcimar…

_Oi?

_O goleiro do Arapiraca do Norte, time onde eu era centroavante – relembrando o caso todo_ Era final de campeonato e marcamos de encontrar, bem ali, na viradinha da esquina. Mas aí a sua mãe apareceu, colando em mim, que nem molusco arribado em pedra…

_Putz…

_Nem me fale: faltei ao jogo, meu Arapiraquinha perdeu e foi mofar lá na sétima divisão. Até hoje o pessoal do clube me culpa por isso

_Veja pelo lado bom: pelo menos o senhor nunca se esqueceu da data do aniversário de vocês…

_Como se o Valcimar deixasse…- baixando de vez o tom de voz_ Entra ano e sai ano e esse homem ainda me azucrina. Se não liga, manda e-mail, whatsapp, o diabo a quatro. Também, pudera, né? Tadinho do meu Arapiraca, gente. Ai que dó…

Era tudo que ela precisava ouvir. Sendo assim, deu-lhe um beijo demorado, agradeceu de novo e, em seguida, foi pra pista. Prospectar. Aliviada e comemorando, Valeu, paizão! Assim, ficou fácil. Se ele pôde, eu posso, também. Uhuuuuuuu! Casar, eu? Mo-le-zi-nha. Quer apostar?…

Quer apostar

Queridinha

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No cestão abarrotado de ofertas, um único top preto chamava a atenção. E duas moças brigavam por ele.

_Desculpe, mas essa peça é minha.

_Sinto muito, queridinha. Eu vi primeiro.

_Acontece que esse tomara que caia fecha direitinho com o modelito que escolhi usar, viu só?  – exibindo irritadiça uma tanguinha preta e branca.

Ao que a outra deu de ombros, pavoneando sua calçola drapeada branca e preta.

Nada feito. Nem prum lado, nem pro outro. E continuaram.

_O negócio é o seguinte: investi seis meses de salário numa viagem. E não há a menor chance de embarcar sem esse bustiê.

_Ora, não me amole, que excursão e romaria tem aos montes por aí. Já eu, vou de lua de mel, percebeu a diferença? – pra concluir, enfática_ E daqui não saio sem esse troço. Não, mesmo.

Deu-se a sinuca de bico.

_Mas eu preciso muito! – implorou a da direita_ Você não faz ideia do quanto nadei, corri e pedalei só pra caber nesse conjuntinho…

_E daí? – ranhetou a da esquerda_ Pior, eu. Que não vejo carne, nem se mordo a língua. Varada de fome há meses, de  caldo em sopa e de volta ao caldo – pra concluir o raciocínio veementemente_ Sendo assim, minha filha, nem vem que não tem, que esse biquíni você não leva. Palavra de honra!

Daí em diante, era caminho sem volta. E sabiam disso. Cientes de que somente uma sobreviveria ao embate. Onde apenas o interlocutor mais letrado prevaleceria.

Então, tomaram seus lugares. Bem quando uma das fulanas, de dedo em riste, iniciou o ataque. Que começou assim, à queima-roupa.

_ Uni-duni… tê! – entoou ela, pra deleite geral.

Mas a resposta veio, a despeito das pernas que bambeavam.

_Salamê-minguê…

E a matança continuou. Por horas ininterruptas.

_Ilari- lari- lari- ê!

_Ô- Ô- Ô…

_Conga-la-conga!

_Conga-conga-conga…

_One-two-three-little indians!

_Peraí! Italiano não vale.

_É inglês – mas como as regras não eram claras, retrocedeu. Acrescentando, em seguida.

_ Chega! Cansei de ser boazinha. Agora, é tudo ou nada. E quem ganhar, leva. Custe o que custar.

Com as mãos escondidas atrás das costas, inclinaram-se. Depois, cerraram os punhos. Até que se ouviu uma voz fria e calculista, que conclamou.

_Joquem… pô!

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Pois não

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Cruzou toda apressada o saguão da portaria. Até ouvir fechar o portão as suas costas e lembrar que esquecera em casa a bolsinha de mão.  Daí em diante, o jeito era pegar novamente o elevador e fazer o caminho inverso até a sala. Mas, primeiro, teria que entrar no prédio. Por isso, tocou. E o porteiro, atencioso, prontamente atendeu.

_Pois não.

_Abra, por favor.

_Vai onde?

_Sou eu. A Bruna, do cento e dois.

_Um instantinho só – pra retornar com a negativa _ Dona Bruna não está.

_Escute aqui – insistiu ela_ Sou eu. A Bruna. Do décimo.

Ao que ele replicou, meio sem paciência.

_Dona Bruna num tá! E aqui não mora nenhum Décio.

_É dé-ci-mo! Décimo andar.

_Pois é. Não conheço. E a dona Bruna, também, não – enfatizando_ Solteirona como é…

_Divorciada –  corrigiu ela.

_Encalhada, quis dizer, né? E longe de mim ficar falando da vida dos outros, mas, nesse caso, sou obrigado a concordar com a senhora. Tristeza, né, colega? Ainda mais na idade dela. Cinquentona…

_Tá doido, é? Mal fiz quarenta…

_A senhora pode ser. Mas tô falando dela. Da dona Bruna. Tão descuidada, pobrezinha. Raiz por retocar. Unha por fazer. Cheia daquelas ruguinhas de canto d’olho…

_Ruguinhas? – interpelou a própria, indignada até.

Ele, pra evitar mal-entendidos, decidiu exemplificar.

_Sabe alface crespa? Aquela de folha miudinha. Então…

Chega!, irritou-se ela, Aqui, em pé, não fico nem mais um segundo. Te juro! Dou minha palavra de honra…

Foi quando sacou do celular e ligou. Pra portaria. E ele atendeu.

_Pois não.

_Seu João? É a Bruna. Do décimo.

_A senhora não morre tão cedo, sabia? Acredita que tem uma amiga sua lhe esperando?

_Pois faça-me a gentileza de abrir esse portão, A-GO-RA!

E ele obedeceu. Deixando a mulher passar. Aquela. Que cuspia fogo pelas ventas. Vermelha que nem groselha. Azeda que nem limão.

Nem cumprimentou. Subiu direto. Pra casa do síndico.

Na recepção, seu João, perspicaz como nenhum outro, comentou com o colega de balcão.

_Viu só aquela mulher? Cara da dona Bruna. Pode isso?

Ao que o outro, apoiado nas vassouras, devolveu.

_Irmã dela. Tenho certeza.

_Será?

_Aposto minha marmita contra a sua. E olhe que minha mulher fez macaxeira …

Bastou pro homem ficar bem bravo.

_Diacho! Custava avisar? Era subir e pronto. Mas, não. Tinha que ficar me empatando. Num trelelê furado, sem eira nem beira. Caso sério, viu? Caso sério…

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Projeto Verão:

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Trombaram os dois num calçadão de praia. Quando ele comentou.

_Nossa, menina. Mal te reconheci. Assim: tão magrinha…

_Pra você ver: perdi mais de vinte quilos. Incrível, não?

_Qual o segredo? Aposto que está passando fome.

A outra, envaidecida, aprumou-se toda pra responder.

_Até que não, viu?

_Jura?

_Juro. Como de tudo.

_Até bolo?

_Bom. Bolo, não. Que tem açúcar. E sacarose não pode. Muito menos, farinha. Ou batata. Se bem que cenoura, também, não. Nem carne. Fruta. Verdura. E nada de queijos. Ovos, então…

_E está vivendo de quê, mulher de Deus? – questionou ele, visivelmente preocupado.

_Inalação. Três vezes por dia. Às vezes quatro. Ou cinco. Dependendo do apetite – e acrescentou_ Mas a barriga chapada. Olhe só que beleza…

Jeitosa de corpo até estava, mas verdade seja dita, ele não tinha interesse nenhum em prolongar aquela conversa. Sendo assim, apressou-se em comentar.

_De resto, tudo bem, né? Mande um abração pro Zé e…

_Zé? A gente separou.

_Puxa! Que pena…

_Pena, nada. Marido engorda.

Ele protestou.

_Mas que absurdo…

_Absurdo, uma ova! Fora os almoços disso e os jantares daquilo, tinha ainda que comparecer aos lanchões de fim de tarde na casa da sogra.  Sem falar nas toneladas de filme com sorvete e fornadas e mais fornadas de seriado com bolinho, pipoca, pizza e o diabo a quatro. Por pelo menos quatro temporadas. Com, no mínimo, vinte episódios cada uma – e continuou_ Presente? Chocolate. Viagem? Era só escolher entre a parrilhada argentina, a paelha valenciana e o nacho mexicano– pra completar, roendo as unhas _Basta olhar em volta. Casou e pronto. Danou-se a silhueta. Por falar nisso, viu minha última postagem fazendo abdominal supra com carga? Curte lá. É show…

Temendo que ela esticasse ainda mais a lenga-lenga, ele apelou.

_É como dizem por aí: foco no trabalho e bola pra frente, certo?

_Que trabalho? Fui despedida – pousando a mão sobre o ombro do amigo_ Sabe como é: muito choro dia e noite, ansiedade, depressão. Mas meu bíceps trincado que é uma doideira. Quer pegar? Fique à vontade. Se acanhe, não…

Mas ele já se despedia.

_Bom te ver, viu? Beije as crianças por mim…

_Crianças? Perdi a guarda. Transtorno esquizoide – e pontuou, exultante _Mas tô batendo fácil trezentas flexões e com uma das mãos nas costas.  Duvida? Pois vou mostrar. Imagine, faço questão!  Agora, conte comigo: é uma, é  duas, é  três, é  quatro, é  cinco, é…

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