O Encosto

2 Comentários

Pense num casal comum, tipo seu pai e sua mãe, numa terça-feira sem nada de especial, em casa, preparando-se para dormir. E súbito, quando menos esperam, eis que chega um amigo, o mesmo fulano de sempre, convidando-os pruma saidinha.

_Está tarde. Vai que pego um vento e isso me ataca o ciático… – desconversou o homem, confortável como estava de pijama e chinelo.

Mas o compadre foi sumário.

_Deixe de bestagem, Juvenal. Agora, ande! Amanhã é outro dia…

O marido, indignado, ranhetou como nunca. Mas perdeu feio. Então fez barba, botou camisa, catou carteira e quando viu estavam lá. Aboletados num balcão de bar. Onde tomaram umas e duas e muitas. Tantas que logo se esqueceu do colega. Depois da vida. Tendo olhos apenas pra esposa, que a essa altura ria alto. Fascinada com o inusitado da coisa toda.

Difícil dizer que tanto eles papearam. Com ele cada vez mais grudado nela. Fato é que que mesmo sem música, ao primeiro ensejo, tirou-a pra dançar. Como se nunca a tivesse visto antes. Não, assim. Tão atraente…

Dali seguiram juntinhos. Namorando. Até o fatídico beijo à porta de casa. E da sala ao quarto. Num ballet suave e sem pressa alguma. Com a noite dando lugar ao dia. Demorou, mas finalmente sossegaram entre os travesseiros. Foi quando ela, num longo bocejo, despediu-se com suavidade, Boa Noite, meu Juvenal…

Sobrou a ele aconchegar-se rente ao rosto dela pra perguntar.

_Sabe guardar segredo?

Ela que quase dormia, sorriu, nem meneou.

_Sou o Juca. Quem é Juvenal?

Sei que entre ouvir e registrar a informação, a tal dona levou pouco mais que alguns instantes, ainda assim, quando pulou, já era tarde. Agora, quem dormia era ele. Profundamente. Feito um anjo.

_Juvenal? Acorda, homem de Deus! Quem é Juca? Pelo sírio da santa…

No dia seguinte, com efeito, seu Juvenal acordou descansado, bem-disposto, parecia outro homem. Ao contrário dela, abatida e desgrenhada, numa gastura de dar dó.

_E aí? – inquiriu ela, taxativa _ E tu? Quem é?

_Eu? – estranhou o homem_ O presidente da república, é claro! – e engrossou _ Tenha a santa paciência, mulher! Endoidô, foi? Passar a noite em frente à televisão dá nisso…

Ela petrificou.

_Não lembra que fomos dançar?

O outro, espiando por cima dos ombros, deu logo o diagnóstico completo.

_Arteriosclerose. Só pode – e aconselhou _ Vai rezar, vai…

Sei que a coitada desmoronou. Entrou numa crise tremenda. Primeiro, o receio de estar mesmo caduca. Depois, saudades. E o pavor desmedido de nunca mais topar com ele. O Juca.

Sorte dela que estava de passagem pela cidade uma tia velha metida a curandeira, dessas com receita de cobreiro a quebranto. E a anciã foi assertiva, O negócio aqui é encosto. E dos brabos, viu? Pior que pra mandar embora dá uma trabalheira danada. Tem que derreter vela. Regar com Mel. Juntar meia maçã. Um galo caipira de pescoço pelado…

Mas a receita ficou pelo caminho, interrompida bruscamente pela mulher em desespero.

_E pra trazer de volta? Como é que a gente faz?

Silêncio no recinto, que durou pouco, já que a velha ensinou.

_Fácil. Troque o galo por um punhado bem servido de pétalas de rosas.

Se é assim…, animou-se a fulana. Que partiu desvairada, tratando logo de providenciar as velas, as frutas, mas quando chegou nas rosas, uma surpresa, De que cor?, quis saber o florista.

Isso importa? Rosa é rosa, oras bolas!, e ficou tiririca. Tanto que comprou crisântemos.

Então, picou tudo, misturou bem e despencou sobre o homem, que quase morreu de susto em pleno banho matinal. Na sequência ela perguntou, na maior cara de pau desse mundo.

_Juca? É você?

_Cuméquié??? – bufou ele, xingando de tudo que era nome, numa longa lista que não me empolgo nem um pouco em transcrever aqui pra vocês.

É. Não era o Juca. AINDA

Afinal, sempre existe um amanhã, pensou ela, E se tem amanhã, tem feira. E onde tem feira, tem flor. E começaria pelas vermelhas. Que vermelho é paixão. Mas, caso não desse certo, tentaria as brancas. Uma vez que branco é matrimônio. Ou, então, as amarelas.  Não antes das azuis, é claro.  Se bem que champanhe também tem lá seu charme, né? Isso sem falar nas alaranjadas. Ou roxas. Ou…

dreamstime_l_39254093

2 comentários sobre “O Encosto

  1. Esta é a Lu Menezes, minha escritora preferida! Gosto do estilo, dos detalhes e, sem dúvida, da narração precisa e cômica das situações. Sua cabeça é um poço sem fundo. Inesgotável Idéias brilhantes, não sei onde vai buscar tanta inspiração! Torço pra que não se esgote!

    Curtido por 1 pessoa

    • Nossaaaaaaa… Sem palavras pra agradecer tanto carinho. Nem sei se mereço, mas com certeza sua generosidade fez meu dia mais bonito. Deixou minha alma mais leve e encheu meu peito de uma vontade irresistível de de cantar. Mas como cantar eu tenho certeza que não sei, o negócio e sentar pra escrever mais um tantinho… risos.. E obrigada. De coração. Adoro vocês

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s