Ai meu santinho!

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Estádio lotado. Numa final de campeonato apertada. Zero a zero e apitou o juiz: pênaltis!

Atacantes e armadores rezavam. O goleiro rubro-negro, também. Pedindo ajuda. E ela veio. Na forma de um santo, metido num longo camisão branco.  Que ensinou.

_Foco na bola, meu filho. Do resto cuido eu…

O jogador, emocionado, mal teve tempo de agradecer. Culpa de um zagueiro tricolor, que invadiu a pequena área, gritando.

_ Santo em campo não vale!

_Por que não? – quis saber o goleiro, agarrado as saias do religioso.

_O regulamento é muito claro: onze pra cada lado e pronto. Apelou, perdeu.

_Santo é exceção à regra. Além do que, padroeiro não conta…

_Cuméquié? – irritou-se o beque são-paulino, passando a mão no santo e arrastando-o para longe_ Agora, o diviníssimo é meu. Que sou devoto. Aliás, minha mãe, também, era beata. E pra ver mulher mais fervorosa. Deus a tenha, mamãezinha…

_Beata? A sua mãe? Faz-me rir…

Súbito, o goleiro foi agarrado pela gola da camisa aos berros de, Seu isso! Seu aquilo! Não mexa com a minha mãe, ou aguente as consequências…

_Ui, que meda… – desdenhou o outro, convidando_ Quer resolver lá fora?

_Só se for agora! – devolveu o craque

Formou-se a quizumba. Com sopapo pipocando a torto e a direito. O rebuliço foi tanto, que o sacrossanto perdeu a paciência.

_Coisa mais feia! Deviam estar envergonhados: dois homões brigando por conta de uma bolinha. Ora façam-me um favor… – e arrematou, entre suspiros_ Santa Clara é que tem sorte, viu? Zelar por mulher é muito mais negócio. Homem, não. São todos uns baderneiros. Sempre fazendo barulho por nada.  E quer saber? Pra mim, chega! fora. Homem só dá dor de cabeça…

E desapareceu dali. Pra reaparecer pouco mais adiante. Em plena competição de ginástica olímpica.

_Pronto, filhinha. Cheguei – anunciou eufórico a uma das competidoras.

_Agora? Depois que já errei toda a minha coreografia de solo e cai do cavalo três vezes? De que adianta? –  deu de ombros

O outro, disfarçando o susto, insistiu.

_ Não vamos exagerar, né? Pense bem. O que posso fazer por você?

Ela foi taxativa

_ Tem colágeno aí?

_Oi?

_É. Colágeno. Chá de sucupira. Laser fracionado CO2 – andando de um lado pro outro, ao mesmo tempo que explicava_ Quero algo pra pele, mas que sirva pro corpo todo, também. Um breguete milagroso que não precise injetar.  Que feche os poros. Seque as espinhas. Emagreça. Tonifique. E de preferência, tudo ao mesmo tempo, viu? Sem estrias, nem celulites. Eu, hein? Deus que me livre de virar casca de morgote…

O santo ainda tentou minimizar.

_Veja bem, minha querida…

_Sem muita intimidade, tá, moço? Comigo é assim: menos conversinha e mais resultado.

O pobrezinho desacreditou.

_Minha especialidade não é corpo, nem carne. É alma.

_Já vi tudo: mandaram um estagiário…

_Hein?

_É o seguinte: meu cabelo um horror. Puro frizz e ponta dupla. Consegue arrumar? Não precisa aloirar, não. Só dar uma alongadinha, encorpar…

_Desculpe, minha filha, é que…

_Pra que tanto terço, me diz? Promessa em cima de promessa. Sem falar nas novenas, romarias, vigílias… Tem ideia do que é passar ano e meio sem comer chocolate ou tomar refrigerante?

_Bom…

_Bom, nada. Péssimo. Eu exijo falar com um superior. E não precisa nem ser Deus, que é véspera de Natal e imagino que a fila esteja imensa – quando lembrou de sugerir _ Pode ser o papa. Eu gosto tanto dele…

O santo não se movia. Mal respirava, pra dizer bem a verdade. Então, a doida catou seu celular e avisou.

_Não vai ajudar, né? Pois vou postar pra todo mundo – e saiu enumerando_ Facebook, Instagram, Whatsapp, Procon, Reclame aqui. O capeta!

_Capeta, não! – horrorizou-se ele, que se lembrou imediatamente da pobre santa Clara, Tadinha dela. Vou sugerir um aumento, na primeira oportunidade

E sumiu. Pra retornar ao estádio, que ainda fervia com a confusão dos jogadores.

_Sarrafo neles! – incentivou o santo _Direto no queixo. Isso! Agora, acerte mais uma. Com vontade. Boa, meu filho…

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O Encosto

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Pense num casal comum, tipo seu pai e sua mãe, numa terça-feira sem nada de especial, em casa, preparando-se para dormir. E súbito, quando menos esperam, eis que chega um amigo, o mesmo fulano de sempre, convidando-os pruma saidinha.

_Está tarde. Vai que pego um vento e isso me ataca o ciático… – desconversou o homem, confortável como estava de pijama e chinelo.

Mas o compadre foi sumário.

_Deixe de bestagem, Juvenal. Agora, ande! Amanhã é outro dia…

O marido, indignado, ranhetou como nunca. Mas perdeu feio. Então fez barba, botou camisa, catou carteira e quando viu estavam lá. Aboletados num balcão de bar. Onde tomaram umas e duas e muitas. Tantas que logo se esqueceu do colega. Depois da vida. Tendo olhos apenas pra esposa, que a essa altura ria alto. Fascinada com o inusitado da coisa toda.

Difícil dizer que tanto eles papearam. Com ele cada vez mais grudado nela. Fato é que que mesmo sem música, ao primeiro ensejo, tirou-a pra dançar. Como se nunca a tivesse visto antes. Não, assim. Tão atraente…

Dali seguiram juntinhos. Namorando. Até o fatídico beijo à porta de casa. E da sala ao quarto. Num ballet suave e sem pressa alguma. Com a noite dando lugar ao dia. Demorou, mas finalmente sossegaram entre os travesseiros. Foi quando ela, num longo bocejo, despediu-se com suavidade, Boa Noite, meu Juvenal…

Sobrou a ele aconchegar-se rente ao rosto dela pra perguntar.

_Sabe guardar segredo?

Ela que quase dormia, sorriu, nem meneou.

_Sou o Juca. Quem é Juvenal?

Sei que entre ouvir e registrar a informação, a tal dona levou pouco mais que alguns instantes, ainda assim, quando pulou, já era tarde. Agora, quem dormia era ele. Profundamente. Feito um anjo.

_Juvenal? Acorda, homem de Deus! Quem é Juca? Pelo sírio da santa…

No dia seguinte, com efeito, seu Juvenal acordou descansado, bem-disposto, parecia outro homem. Ao contrário dela, abatida e desgrenhada, numa gastura de dar dó.

_E aí? – inquiriu ela, taxativa _ E tu? Quem é?

_Eu? – estranhou o homem_ O presidente da república, é claro! – e engrossou _ Tenha a santa paciência, mulher! Endoidô, foi? Passar a noite em frente à televisão dá nisso…

Ela petrificou.

_Não lembra que fomos dançar?

O outro, espiando por cima dos ombros, deu logo o diagnóstico completo.

_Arteriosclerose. Só pode – e aconselhou _ Vai rezar, vai…

Sei que a coitada desmoronou. Entrou numa crise tremenda. Primeiro, o receio de estar mesmo caduca. Depois, saudades. E o pavor desmedido de nunca mais topar com ele. O Juca.

Sorte dela que estava de passagem pela cidade uma tia velha metida a curandeira, dessas com receita de cobreiro a quebranto. E a anciã foi assertiva, O negócio aqui é encosto. E dos brabos, viu? Pior que pra mandar embora dá uma trabalheira danada. Tem que derreter vela. Regar com Mel. Juntar meia maçã. Um galo caipira de pescoço pelado…

Mas a receita ficou pelo caminho, interrompida bruscamente pela mulher em desespero.

_E pra trazer de volta? Como é que a gente faz?

Silêncio no recinto, que durou pouco, já que a velha ensinou.

_Fácil. Troque o galo por um punhado bem servido de pétalas de rosas.

Se é assim…, animou-se a fulana. Que partiu desvairada, tratando logo de providenciar as velas, as frutas, mas quando chegou nas rosas, uma surpresa, De que cor?, quis saber o florista.

Isso importa? Rosa é rosa, oras bolas!, e ficou tiririca. Tanto que comprou crisântemos.

Então, picou tudo, misturou bem e despencou sobre o homem, que quase morreu de susto em pleno banho matinal. Na sequência ela perguntou, na maior cara de pau desse mundo.

_Juca? É você?

_Cuméquié??? – bufou ele, xingando de tudo que era nome, numa longa lista que não me empolgo nem um pouco em transcrever aqui pra vocês.

É. Não era o Juca. AINDA

Afinal, sempre existe um amanhã, pensou ela, E se tem amanhã, tem feira. E onde tem feira, tem flor. E começaria pelas vermelhas. Que vermelho é paixão. Mas, caso não desse certo, tentaria as brancas. Uma vez que branco é matrimônio. Ou, então, as amarelas.  Não antes das azuis, é claro.  Se bem que champanhe também tem lá seu charme, né? Isso sem falar nas alaranjadas. Ou roxas. Ou…

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Desarranjos Virtuais

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Trabalhava numas planilhas quando o computador tilintou, avisando da chegada de uma nova mensagem. Era um, Oi. Tudo bem?, de um homem que nunca vira antes.

Tudo ótimo. E você?, devolveu ela, que teria escrito mais. Ele, porém, não deu chance. Que o fulano era afoito e num instante pegou fogo. Então, não resistiu e saiu bombardeando.

_É casada? Divorciada? Tem filhos? Alérgica a gatos? Trabalha com quê? Mora onde? Tricolor ou Alvinegra? Liso natural ou faz chapinha? – e na sequência emendou, referindo-se a foto de perfil da outra _ Você lembra minha ex-esposa, sabia?

_Isso é bom? – retrucou a mulher.

_Não. Nem um pouco. Na verdade, péssimo. Sofri treze anos até me separar da infeliz. Aí foram mais quatro pra me refazer do baque – e pausou, com vontade de chorar. Sorte que a moça veio ao seu encontro.

_Sinal que era bonita…

_Qual nada – resmungou ele _ Tinha o rosto assimétrico e os olhos bem fora de esquadro. Mas era simpática. Quase sempre. E honesta. Bom. Nem tanto. Importante é que nunca foi presa.  Não que eu saiba. Nem roubou, ou traficou. Ao menos, não na frente das crianças…

Longo silêncio entre eles.

_Você é sempre tímida assim? – cutucou o moçoilo _ Lembra uma antiga namorada minha. Não fisicamente, claro. Já que era estrábica. E perdeu os dois caninos superiores numa briga de rua…

Novo silêncio.

_Gozado. Gostei de você, viu? De graça, mas foi. Empatia é tudo, né?

Silêncio ainda e ainda.

Foi quando ele mandou carinhas. Muitas. As primeiras eram apaixonadas. Depois vieram os corações partidos. As seguintes, furiosas. Enquanto as últimas gargalhavam de ir às lágrimas.

Foi bem aí que se despediram, com ela lembrando de um compromisso urgentíssimo pro qual inclusive já estava bastante atrasada.

Ele concordou, mas antes a fez prometer que voltariam a falar muito em breve.

Nem preciso dizer que a tal dona sumiu, né? Enquanto as mensagens dele transbordavam o inbox dela, Ei! Psiu? Cadê você, sumida? Fazendo jogo duro, né? Igualzinha a última moça que conheci por aqui. E as outras duas antes dessa, também. Ou será que foram três? Enfim. Se quiser sair prum “rolê-da-hora”, já sabe: seu tigrão tá na área, “baby”… Grooaaaaaarrrr!

E foi zanzar pela casa, inconformado, Não sei o que acontece com essa mulherada de hoje em dia… Começam bem, mas, em seguida, desandam. E vira tudo bicho do mato. Uma mais introspectiva que a outra. Vai entender, né? – e completou_ Em parte é culpa minha, admito. Quisera poder controlar esse meu magnetismo pessoal de macho alfa dominante, mas é involuntário… juro… espontâneo… tipo assim… tão eu…

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