Taí a prova…

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Não que fosse desordeira. Mas bastou um final de semana pra casa virar do avesso. Restou a ele andar se equilibrando. Desviando das roupas largadas pelo chão.

Ela, de cima da cama, cutucou.

_ vendo só? Taí a prova – e fungou, amuada_ E não se faça de bobo, sei muito bem onde isso tudo vai parar…

_Hein?

Com ela atrás, matraqueando.

_ Viu só o que você fez? Pulou minhas meias!

_Quer que eu cate? Eu cato…

_Quero que reclame.

_Oi?

_Quem ama, corrige, Pedro Augustus! Repreende. Endireita. E se você não disse nada é porque já não se importa mais com a gente. Menos ainda com o futuro dessa relação…

Foi quando ele olhou direto pra ela. Grave. Irredutível. E só.

_Que foi? Não vai dizer nada? Nem me chamar de louca ou acusar de estar mega-ultra-super valorizando coisas absolutamente sem importância?

_Não.

_Tá vendo só... – fungou ela _ Taí a prova. Num disse que não me amava mais…

Sei que ele puxou uma cadeira e foi sentar ao lado dela. Até aquela coisa toda passar, fosse lá o que aquilo tudo fosse.

_ me encarando, por quê? – bronqueou a moça, que se adiantou em responder_ Fácil: vai dizer que tenho o dom de empanzinar sua paciência e que devia ter mais fé no meu taco ao invés de ficar caçando sarna pra me coçar. Acertei?

Ele deu de ombros. E suspirou.

_Não.

_Tá vendo só… – muxoxou ela, ressabiada – Taí a prova…  – e entristeceu, montada num luto fechado.

Ele, meio sem querer e quase sem sentir, preparou corpo e alma pruma daquelas cenas terríveis. Com a outra aos soluços e descabelando. Perdida em especulações destemperadas e sem fim.  Por isso, aguardou. Mafuás sentimentais eram sua especialidade. E uma tormenta de raios com chuva grossa pespontava o caminho.

Então, do nada, ela arrefeceu. Bem assim, sem mais. E por infinitos segundos um silêncio absoluto reinou entre eles.

Súbito, um imprevisto. O telefone dele tocou e ela atendeu, repassando.

_É uma mulher. Pra você.

Ele? Nem bem atendeu, desligou. Desculpando-se.

_ viu, né? Despachei no ato. Com um quente e dois queimando…

_É. Eu vi.

_Era a Amanda.

_Tá.

_Não vai perguntar quem é a Amanda?

_Não.

_Nem querer saber de onde a conheço ou me chamar de sem-vergonha?

_Não.

Ele hesitou.

_ Já vi tudo: conhecendo você, sei que vai tentar tomar a força meu celular, vasculhar tudo que é mensagem e apagar uma a uma todos as bonitonas que encontrar nos meus contatos…

_Não.

Foi a vez dele trancar os lábios. Amuado até a espinhela. Pra fungar, aborrecido.

_Tá vendo só...Taí a prova…

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Oráculo do amor

3 Comentários

Sentaram-se. E a consulta começou. Ao final de algum tempo em silêncio, ela tomou coragem e inquiriu.

_E essa carta aí? É boa, mesmo?

_Ulalá! Yo siento amor em su futuro. Amor caliente. Intenso….

_Jura? – assanhou-se toda.

_Sí! Las cartas no mienten – quando ele emendou, espichando bem os olhos_ Además, puedo ver mucho dinero, vehículos, viajes, celebraciones…

A outra, que andava ruim das contas pra diabos, tomou até um susto.

_Sério que cê tá vendo isso tudo aí?

_Ciertamente! Estas cartas son muy ricas!…

Assim seguiram por cerca de hora e meia. Então ela pagou e partiu. Felizinha que só vendo.

Mas o tempo passou. E inconformada com a demora na concretização dos prognósticos, decidiu ligar cobrando.

_Escute aqui, cigano, de todas as suas previsões, até agora, nada. Ouviu? Absolutamente!

_Tranquila, chica. Las estrellas son lentas, pero no se equivocan nunca – mas ressaltou_ Usted necesita hacer su parte. Y Tener un poco de paciencia. Soy adivino y no mago …

_É que faz muitos dias…

_ Fin de semana no cuenta.

_Eu sei, mas…

_ Día santo también no. Nem día festivo.  Ou de lluvia…

_”Lluvia”? Que troço é esse? Não entendendo nada…

Foi quando o tratante, deixando a identidade de lado, ralhou.

_É chuva, menina. Chu-va! Será que é tão difícil assimilar?

_Ué? Cadê seu sotaque – estranhou ela. Mas o desespero era tanto que insistiu_ Quer saber? Deixe isso pra lá e conte uma coisa…

_Não conto! Tem que esperar e pronto. Não tem outro jeito…

_Já se passaram dois meses – choramingou ela.

_ Sinal que a culpa é tua.

_Minha?

_Claro! Com certeza as forças do universo já se manifestaram – disse ele, na esperança de tirar o corpo fora _Sinto que você já foi devidamente conectada pelo divino. Se não atendeu, o que é que eu posso fazer, hein?

O pior é que ela caiu. De novo.

_Será? Não lembro de ninguém diferente falando comigo, que não fosse a chata da Zulmira…

_Bingo! – decretou o cara de pau_ É ela.

_Cuméquié? – a moça pulou longe, numa fulminante marcha à ré.

_Que foi?  Algum problema? – desconversou o sonso.

_Bom. Pra início de conversa, ELA é uma MULHER!

_Tinha que ser HOMEM, é? Ahhhhh. Especificasse antes. Agora, sinto muito – continuou matraqueando _ Já vi tudo: daqui a pouco vai pedir que seja bonito, leal, honesto, com plano de saúde em dia, arca dental completa e disposto a trabalhar…

_Uai… Pode, não?

_Difícil, benzinho. Difícil…- sumarizou o doido_  Além do mais isso é gula. O que não só é feio, como muito pouco auspicioso – e tremelicou de fio a pavio, dispersando as energias.

_Eu só queria… – ainda tentou a moçoila.

Mas deu com a cara na porta, que o outro já desligara. De resto, era a secretaria eletrônica quem avisava: Cigano Citrino. La suerte y el amor a su alcance. Tarot, clic 1. Busios, clic 2, Astrología, clic 3…

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