Fala sério

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Sexta. Tarde da noite. Com ela ali, virando e revirando a casa inteira atrás duma bendita calça preta que mandara arrumar. Uma simples bainha. Torta e mal pregueada dum lado, retorcida e encurtando do outro. Possessa, foi passando a mão no telefone e discando, Servicinho mequetrefe, viu? Dessa vez não deixo barato. Mas, não, mesmo…

Não sei culpa de quem. Um seis-três a mais ou um três-seis a menos. Fato é que atendeu um moço. Do caixa da pizzaria. Que não deu um pio que fosse, já que a moça não deixava, pondo tudo em pratos limpos.

_O negócio é o seguinte: estou ligando pra reclamar de um problema aqui com…

_Reclamação não é comigo – e gritou _ Ô, Zé! Atende aí, homem…

O outro veio. Contra a vontade e reclamando.

_Fale.

_Estou ligando por conta da barra…

_Barra? Que barra, minha filha? É borda, compreendeu? – seco e grosso_ E qual o problema com a sua?

A moça respirou fundo. Lembrou da crise de mão de obra. E contou até dez antes de acrescentar.

_Pois é. repuxando.

_Ressecada, né? Já vi tudo – e sugeriu _Quer devolver?

Querer até queria, mas não tinha tempo pra pensar num novo figurino. Sendo assim, arriscou.

_ Será que não existe outro jeito de resolver?

_Faça o seguinte. Tem azeite aí?

_Cuméquié?

_Extravirgem, viu? Orgânico de preferência. Daí é só regar bem. Até besuntar…

_Jura? Tem certeza?

_Claro!

E ela obedeceu. Emporcalhando a peça toda até quase a altura do joelho.

_E então?  Melhorou? – quis saber o outro.

_Uma pinóia! – ressentiu-se a moça _Lambrecou foi tudo, isso sim. Olhe só a cara disso…

_Cara não importa! – ralhou feio o cozinheiro _ O que conta é a consistência.

_Consistência?

_Sim! E o aroma.

_Oi?

_Deixe de frescuras e cheire. Ande! Que não tenho o dia todo – ordenou o ogro

Creia, ou não, ela o fez. Resumindo: calça empapada nas mãos, cerrou bem os olhos, franziu nariz com beiços e cheirou.

_É ou não é um espetáculo? – gabou-se o homem.

_Não vi nada de mais – desconversou a dona.

_ Faltou orégano. Só pode…

_Que foi que disse?

_Salpique em cima. Sem dó. Depois leve ao forno, uns quinze minutos… – e teria dito mais, não fosse a outra que surtou.

_Quer que eu asse a própria calça? Ora faça-me um favor! E depois, vem o quê? Meu top acebolado? Fala sério, cidadão – repetia, tiririca da Silva _ Fala sério

Desligou. E saiu de saia.

Fala sério 1

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