Faz assim, ó…

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Tem coisa que só faz quem precisa. Compra de supermercado, por exemplo. Nunca foi, nem há de ser, o programa favorito de ninguém. Mas apertou, a gente vai. Fazer o quê, né?

Como se não bastasse a dificuldade toda pra estacionar, os preços distorcidos, as filas quilométricas e o vuco-vuco insuportável nos corredores, tem ainda que me aparecer um moço.  Aquele. Todo sorridente.  E que se achega perguntando, Vai um cartão fidelidade hoje aí, madame?

Querer ninguém quer. E quem tem, rifa. Tanto que apelei, dando uma de João-sem-braço.

_É que estou com um pouquinho de pressa. Você me desculpe, viu?

_Imagine, sei bem como é – mesmo assim, insistiu _ Não toma nem um instantinho. Quer apostar? – e saiu desfiando _ Nome, por favor.

_Juliane.

Bem quando anotou.

_Jucilene…

_Juli-ane.

_Juli-ana.

_ANE!

_CLEIDE?

Mamãe, socorro!

Na dúvida, ilustrou.

_Faz assim, ó: vou por, Ju. Que tal? Fica mais íntimo. Mais gostoso, sei lá… – pigarreou e ofereceu – De quebra você leva uma revista inédita (Contigo, 1972. Cuja chamada era, Roberto Carlos é uma brasa, mora?).

Seguiu entrevistando.

_Sobrenome?

_Rosenbauer

_Rose… quem? – fez o que pode _ Gosta de Silva? É simples, forte e bem brasileiro… Não, né?  E que tal, Santos? – quando exclamou _ Ju Santos! Sente só o gabarito... – dando o assunto por encerrado, pra engatar em seguida –  Seu telefone?

Tudo que queria era sumir dali às pressas. Ainda assim soprei os números. Um a um. Articulando como pude.

_Nove. Nove. Oito. Cinco. Quatro. Quatro. Oito. Três. Um.

_Vamos lá – disse o outro, enquanto registrava_ Nove. Nove. Nove. Oito…

_Tá SOBRANDO nove – reclamei_ São dois noves, depois oito, depois cinco, depois quatro e…

_Perfeitamente. Vinte e nove. Oitenta e cinco. Quarenta e…

_Não! Agora tá FALTANDO nove…

_Alto lá, dona! Afinal, tá sobrando ou tá faltando?…  – e resumiu a lenga-lenga num repente _ Faz assim, ó:  esqueça o telefone. Tem vizinha?

Meneei que sim.

Ótimo, comemorou ele. E mais que prontamente escreveu, Recados com a vizinha…

Cuméquié? Começava a ficar cheia desse negócio todo. E o moço percebeu, tanto que anunciou.

_E você ainda ganha outra revista fantástica! – chacoalhando uma Manchete, que estampava na capa: Carmem Miranda de volta ao Brasil.

Quis trucidar. Mas não deu nem tempo, já que o tal fulano emendou na sequência.

_E se a gente fosse logo aos finalmentes, hein? Faz assim, ó: vou anotar seu CPF e fica o dito pelo benedito

Num instante tive vontade de abraçar e tirar o Zé Ruela prum bailado, mas me contive. Invés disso, saí enumerando.

_Um-meia-um. Zero-dois-zero. Um-cinco-oito. Meia-oito.

_Molezinha: um-dois-um. Zero-dois-oito…

Jesuisssss… Alguém me tire daqui!

Meu desespero foi tanto que o gajo reconheceu.

_Errei de novo, né? Putz…

Nem respondi. E ele completou, na maior cara de pau.

_Sem problemas, viu? fácil resolver. Mas, faz assim, ó…    

Faz assim, ó         

Fala sério

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Sexta. Tarde da noite. Com ela ali, virando e revirando a casa inteira atrás duma bendita calça preta que mandara arrumar. Uma simples bainha. Torta e mal pregueada dum lado, retorcida e encurtando do outro. Possessa, foi passando a mão no telefone e discando, Servicinho mequetrefe, viu? Dessa vez não deixo barato. Mas, não, mesmo…

Não sei culpa de quem. Um seis-três a mais ou um três-seis a menos. Fato é que atendeu um moço. Do caixa da pizzaria. Que não deu um pio que fosse, já que a moça não deixava, pondo tudo em pratos limpos.

_O negócio é o seguinte: estou ligando pra reclamar de um problema aqui com…

_Reclamação não é comigo – e gritou _ Ô, Zé! Atende aí, homem…

O outro veio. Contra a vontade e reclamando.

_Fale.

_Estou ligando por conta da barra…

_Barra? Que barra, minha filha? É borda, compreendeu? – seco e grosso_ E qual o problema com a sua?

A moça respirou fundo. Lembrou da crise de mão de obra. E contou até dez antes de acrescentar.

_Pois é. repuxando.

_Ressecada, né? Já vi tudo – e sugeriu _Quer devolver?

Querer até queria, mas não tinha tempo pra pensar num novo figurino. Sendo assim, arriscou.

_ Será que não existe outro jeito de resolver?

_Faça o seguinte. Tem azeite aí?

_Cuméquié?

_Extravirgem, viu? Orgânico de preferência. Daí é só regar bem. Até besuntar…

_Jura? Tem certeza?

_Claro!

E ela obedeceu. Emporcalhando a peça toda até quase a altura do joelho.

_E então?  Melhorou? – quis saber o outro.

_Uma pinóia! – ressentiu-se a moça _Lambrecou foi tudo, isso sim. Olhe só a cara disso…

_Cara não importa! – ralhou feio o cozinheiro _ O que conta é a consistência.

_Consistência?

_Sim! E o aroma.

_Oi?

_Deixe de frescuras e cheire. Ande! Que não tenho o dia todo – ordenou o ogro

Creia, ou não, ela o fez. Resumindo: calça empapada nas mãos, cerrou bem os olhos, franziu nariz com beiços e cheirou.

_É ou não é um espetáculo? – gabou-se o homem.

_Não vi nada de mais – desconversou a dona.

_ Faltou orégano. Só pode…

_Que foi que disse?

_Salpique em cima. Sem dó. Depois leve ao forno, uns quinze minutos… – e teria dito mais, não fosse a outra que surtou.

_Quer que eu asse a própria calça? Ora faça-me um favor! E depois, vem o quê? Meu top acebolado? Fala sério, cidadão – repetia, tiririca da Silva _ Fala sério

Desligou. E saiu de saia.

Fala sério 1

Eu, hein…

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Se a esmola é muita o santo desconfia. Eu sei disso. Você, também. Já ela preferiu ignorar. E focar só nas vantagens. Que incluíam um narizinho todo novo e em condições inigualáveis. Facilitado e financiado. Parcelas a perder de vista.

Sei que mandou às favas os escrúpulos e receios. Quando viu estava lá. Em pleno centro cirúrgico. Com um sujeito todo paramentado que veio se achegando e dizendo.

_Tudo bem? Como vai a senhora? – pra acrescentar, tomado as mãos dela entre as suas _Pois fique sossegada, que está tudo sob controle. Mas se quiser podemos começar fazendo uma oração…

_Não se preocupe, meu filho. Estou tranquila. Verdade…

_Bom saber. Fico mais aliviado. Que eu, por outro lado, uma pilha, menina…Olhe minhas mãos. Absurdo como tremem, né? E a suadeira? Pode isso? certo que meio gripado hoje, mas não era pra tanto – e acrescentou _ A primeira vez é sempre mais tensa, mesmo. Super normal acontecer.

_Então, acalme, doutor. Essa não é minha primeira internação.

_Mas é a minha – devolveu ele, mais sincero que nunca.

_Hein?

_Não se aflija, fiz todos os simulados. E passei, viu? Média sete. Além do que, rosto é minha especialidade.

Sei que a mulher começou a retesar, bem quando o outro subitamente perguntou.

_ Nariz. É isso?

Fez que sim. E ele abriu um grande livro, onde começou a procurar.

_Nariz. Nariz. Nariz… Deve ter algo aqui nalgum lugar. Um instantinho só, ?

Socorro!, pensou a dona,  enquanto o outro matraqueava.

_É que face é um assunto complexo. Tem testa. Dois olhos. Queixo. Bochechas. Orelhas. Nariz… – e completou_ O problema é que comecei a estudar de baixo pra cima. Pé. Panturrilha. Coxa…. Aliás, ainda ontem participei de uma aula prática envolvendo joelhos. A senhora por acaso não tem nenhum problema com os seus, tem? Não, né? Foi o que eu imagine… Lei de Murphy. Sempre ela…

E de volta a vaca fria.

_ Como disse, não esquente a moringa, madame, que nariz é mole-mole. Só não tem nada nesse livro – foi quando lembrou de perguntar _ A senhora, por acaso, trouxe o tablet? Ou um laptop?  É dar um google e pronto. Não? Que pena… Mas tudo bem. Estou com meu celular – e começou a zanzar pela sala, buscando conexão _ Oras bolas…  Aqui não pega direito. Tô precisando trocar de operadora. Urgentemente. Tá vendo, só? Já caiu. Imagine se é no meio da cirurgia… Deus nos livre e guarde…

Foi buscar uns comprimidos. Retornou todo feliz. Calmante numa mão e copo de água na outra. Ao que a moça, protestou.

_Já me deram. Na antessala…

_Perfeitamente. Esses são pra mim.

Pra quem? Desesperou-se ela, que desmaiou.

_Ei. Psiuuuu. Ô, dona. Xiiiiiii…. Apagou… E agora? Queria como esse nariz? É pra suspender, afinar, arrebitar ou deixar curtinho?

Na falta de qualquer resposta efetiva, buscou fotos. Modelos variados. E foi lançando as opções sobre a mesa de trabalho. A seguir, convencional como era, optou por ser catedrático. Clássico. E sem mais delongas, começou a declamar.

_Mamãe mandou eu escolher esse daqui. Mas como sou muito teimoso eu escolho aquele ali. Um… Dois… Três!

Eu, hein...