Santa Paciência

Deixe um comentário

Porta de colégio é um inferno, reparou? Um vuco-vuco desgranhento, sem falar na montoeira de pais aboletados em fila dupla. Quando não, tripla.

Talvez por isso a reação tão imediata ao ver aquela garagem vazia. E foi entrando.

Mas alguém logo lhe colou a rabeira, descendo a mão na buzina. Pensam que se encabulou? Qual nada. Acabou de manobrar e ali ficou. Bem quietinho. Ao que outra baixou o vidro pra reclamar.

_Moço?!

_Oi.

_O que o senhor pensa que está fazendo?

_Estacionando.

_Mas EU ia estacionar.

_A senhora, também, é? – resumindo o caso todo num único abano de cabeça _Infelizmente, não será possível. Cheguei primeiro. Então, se a senhora der licença…

_Como assim? É a MINHA vaga. Na garagem da MINHA casa.

_É tua, é? – e começou a avaliar. Botando defeito do teto a parede.

_Perfeito só Deus, né, moça? Mas fique triste, não. No seu lugar pensava assim: pelo menos eu tenho um teto. E  dê-se por satisfeita, que a coisa anda feia por aí…

_Escute aqui, o senhor vai, ou não vai, sair da minha garagem? – atrás dela uma fila enorme de carros se formava.

_Mas eu já expliquei pra senhora. Lamento muito, mesmo. Mas é hora do rush e tudo engarrafado. Se puder dar uma afastadinha…

_Afastadinha?

_É. Uma ré. Distorce tudo e pronto. Pode até voltar mais tarde, nuns vinte ou trinta minutos. Meia hora é tempo mais que suficiente pro meu filho sair da escola.

_Eu não tenho como voltar mais tarde!

_Bom, se é assim, bem que podia buscar o moleque pra mim, né? O nome dele é Pedro. Classe da tia Ana…

_Eu?

_Que custa? Nem entrou em casa ainda. Invés disso, taí. Engastalhando o trânsito...

De fundo as buzinas. Pipocando. Ressoavam bairro afora. Ela, inconformada, só faltava enfartar com a pouca graça da encrenca toda. Pior. Minguavam as opções. Ou colaborava com o despropositado do fulano, ou o infeliz não arredava. Não tão cedo. Nem em sonho.

E quer saber? Ela foi. Sinalizando e gesticulando pruma fileira interminável de veículos, Calma, pô! Tô saindo, não viram, não? Eita…

Enquanto o outro fornecia orientações de última hora.

_A escola dele é mais pra frente, viu? Umas cinco quadras além da esquina. De resto é dirigir com cuidado. Não corra, nem acelere, que o menino enjoa muito fácil. Fazer o quê, né? Estômago fraco, coitadinho…

Sei que deu partida. Cantou até pneu, tamanha a raiva que sentia. Mas antes que saísse foi interpelada. De novo.

_Peraí!

_Que foi agora?

_Tome. Leve isso – repassando a ela um boleto _ É a mensalidade. atrasada.

Ela riu. Sarcástica.

_Jura? E pago como?

_ que sabe. O que for melhor. Dinheiro. Cheque. Menos cartão, que não aceitam – acrescentando na sequência _ Aproveite e compre pão.  Três baguetes. Das mais moreninha…

_Cuméquié???????

Passou foi o maior sabão na dona, Agora, vai! Cê tá fechando o cruzamento!,  chiou ele, categórico, Vê que o povo quer passar, todo mundo cansado, doido pra chegar logo em casa, e a madame aí, atravancando meio mundo. Pode isso?… Folga demais pro meu gosto, viu? Contando ninguém acredita…

Santa Paciência

SAC

Deixe um comentário

Aconteceu dia desses. Ao ligar para um serviço de atendimento ao consumidor.

_Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

_Quero informar que achei um pedaço de luva dentro do requeijão de vocês.

_Feminina ou masculina, senhor?

_Hein?

_Mão direita ou esquerda?

_E como é que eu vou saber?

_Certamente, senhor. Esquerda é a mão do braço que fica ao lado do coração. Pode ouvir seu coração, senhor?

_Sim, mas…

_Então, tudo resolvido. Que a direita é a que sobra. Ficou fácil assim, senhor?

_E quanto ao meu requeijão?

_Perfeitamente, senhor.

_Não tem nada de perfeito, não! Comi um pedaço de luva, está entendendo?

_Exatamente, senhor. E como pretende nos ressarcir do prejuízo?

_Eu?

_Corretamente, senhor. Comer a luva de um funcionário é dano ao patrimônio privado. Crime passível de multa. E o senhor acaba de ser autuado. Satisfeito? Ajudo em algo mais?

_Multa? Era só o que me faltava. Podia ter sido um dedo, mocinha. Tem noção disso?

_Antropofagia, hein? Isso agrava sua pena em vinte por cento, senhor.

_A culpa é minha? – e reclamou_ Tenha a santa paciência, minha filha. Falta só você dizer que entrei na sua fábrica e mordi um funcionário de propósito! Ora faça-me o favor…

_Um minutinho que estou anotando. Crime doloso com motivo torpe. Fantástico, senhor. Mais trinta por cento.

_A senhora doida, é?

_Danos morais? Excelente opção, senhor. Vou averiguar a informação – musiquinha chata na espera e logo ela retorna_ Obrigada por aguardar. Isso dobra seu valor inicial e acrescenta mais uma série de incríveis taxinhas. Gostaria de anotar? Cinco por cento por ocupar nosso 0800. Mais dez, por ser durante MEU horário de almoço. Porque hoje é dia da secretária, mais vinte. TPM, trinta. Odeio azul, onze. Não consigo perder três quilos, quarenta e cinco. Não me lembro o motivo inicial dessa conversa, mais sete, que é o meu número da sorte… – bem quando anunciou, muito da satisfeita_  Adoraria se permanecesse em linha pra avaliar meu atendimento. Lembrando que cinco é muito satisfeito. Quatro e quase satisfeito. E os outros a gente nem precisa considerar, não é, mesmo, senhor?…  Senhor?… Uhuuuuuu, senhooooooor???

SAC

Putz

3 Comentários

Homem apaixonado é enguiço. Pode nem tocar, que desmancham por inteiro.

Aconteceu com ele. Atolado em amor até as canelas e ansiando por mais. Não conseguia sequer pensar no diacho da moçoila sem que o corpo inteiro contraísse ou seu estômago revirasse. De certo só o futuro que se abria a sua frente: ao lado dos filhos, netos e uma familiarada sem fim.

Faltou combinar com a moça. Claro. Mas isso era fácil corrigir. Tinha até um plano. Que começou mais ou menos assim:

Primeiro, a abordagem direta. Um fiasco, diga-se de passagem. Já que a bela foi e voltou uma centena de vezes. E ele, nada. Emperrado. Ali. Sem lhe endereçar um minguado Oi que fosse.

Então, ligou. E desligou. E ligou de novo. E desligou mais uma vez. Tanto que desistiu. Ok, pensou ele, Um SMS seria melhor, e começou a digitar. Travando logo na primeira linha. Afinal, como se dirigir adequadamente a sua futura esposa? Prezada Fulana, Querida Fulana, ou apenas, Fulana?

Pensou, pensou e na dúvida resolveu dividir seu dilema com um amigo. A quem perguntou.

_Se tivesse uma namorada e decidisse escrever para ela, como você…

_Impossível.

_Hein?

_Caso tenha se esquecido, não me interesso por garotas. E não tenho nenhum problema com minhas opções sexuais, sendo assim gostaria que as respeitasse também.

_Sei disso.

_Se sabe, por que pergunta?

Respirou fundo e tentou novamente, Mas se você, de mentirinha, pensasse em sair com uma garota…

_Credo!

_De mentirinha…

_Nem assim.

_Mas..

_Não.

_E se…

_Nunca.

Desesperou, E o meu recado?

_Não mande – pra emendar na sequência_ Quer conhecer um dos meus amigos? Apresento a você.

_Não, obrigado. Prefiro ela.

_Nesse caso, não posso ajudar.

_E faço o quê?

_Sei lá. Foque em algo mais útil – mudando drasticamente o rumo daquela conversa_ Já pensou em trabalhar? De vez em quando é bom, sabia?

_Perdi o emprego. País em crise, esqueceu? – devolveu mal-humorado

_Pois arrume outro. Dê seus pulos, que mulher nenhuma gosta dum cidadão encostado – pior de tudo é que tinha razão.

E foi o que fez. Iniciando pelo currículo e engatando numa carta de apresentação. Mas acabou travando. Logo na primeira linha. Afinal, como se dirigir adequadamente ao seu futuro empregador? Prezado Fulano, Querido Fulano, ou apenas… Fulano?

Putz

Doida, eu?

6 Comentários

Era uma vez um moço. E uma moça. Que decidiram namorar.

O início até foi fácil. Enquanto ele era um só. E se chamava Leonardo. O sufoco veio depois. Quando virou dois.  Aí sim, a história começou a complicar.

_Pensa que estou brincando? Falo sério! – reclamou ela a uma amiga

_Cuméquié?

_Juan Ramón…  Já viu isso? – mas num heroísmo típico de mulher apaixonada, abrandou _ Sei que não bebe. Nem rouba. Mas dupla personalidade? Tenha a santa paciência…

Até o dia em que ele, Leonardo, ligou mais cedo pra ela. Intimando.

_Acabou a moleza! Uma corridinha no parque é tudo que precisamos.  Pode ser? Passo aí em meia hora – e desligou.

Restou a ela pular da cama e se arrumar. Tênis. Legging. Top. E o cabelo prendeu firme num rabinho. Mas quando abriu a porta foi Juan Ramón quem foi entrando e sugerindo um programa diferente.

_Vine a busca-la, mi amor, para que caminemos juntos em la playa. Ven conmigo, princesa…

Que mulher resiste a um convite assim? Com ela não foi diferente. Sumiu quarto adentro, retornando algum tempo depois. Leve e solta. De rasteirinha nos pés e canga amarrada ao pescoço.

Enquanto isso, apoiado na mesa da sala, Leonardo alongava.

_Tá doida, mulher? Que trajes são esses? Vá se arrumar. Ande. Eu espero… É cada uma…

E caminho da roça pra moçoila, que destrocou tudo de novo, reaparecendo em seguida. Surpreendida por um cheiro bom de refogado que vinha lá da cozinha.

_Escucha, corazón  – disse Juan, enquanto lhe afagava os ombros_ Quiero quedarme aquí con usted. Disfrutando de una buena bebida, una canción y la comida que preparé solamente para ti…

Ela bem que gostou da ideia. Foi correndo descalçar e num zás-trás estava de volta.

_Ainda não tá pronta? – admirou-se ele. O Leonardo, é claro. Quem mais? _ Treino que é bom, nada, né?- e alfinetou _ Já ouvi fala em gente enrolada, mas você se superou…

Bastou para ela. Que fugiu. Desembestada. Para nunca mais voltar.

De lembrança não quis nem foto. Restou ele. Inconformado.  E uma caixa postal abarrotada que ficou para trás por deletar.

_Hola, es Juan Ramón. Cade usted?…/ Sin ti voy a morir. Quieres casarte conmigo?…/ Me compré un gato para nosotros. Regressa, mi vida, por favor!…/ Oi, é o Leonardo. Apareceu um gato aqui em casa. Só pode ser coisa tua. Melhor vir buscar rapidinho. Tô avisando… / Corazón, el gatito desapareció. Pero no te preocupes , voy a comprar um buldogue para nosotros…/ Mas cê é destemperada, mesmo, né?! Cachorro, agora? Dou dez minutos pra voar com ele daqui. Ou senão… /Preciosa, el perrito también sumió. Pero tengo una idea: voy a comprar una cabra, algunos periquitos y una pareja de chimpancés. Te amo mucho!…/ Ô, sua maluca! Tá achando que minha casa é o rancho da sogra, é? Vou te delatar pro Ibama, sua doida varrida! Pro Ibama, ouviu bem????…

Doida, eu?