Um Príncipe na Cidade Grande

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Geralmente o amor vem depois. Parte dum segundo ato. E ainda assim vem respaldado. Tem ata. Emendas. Num bailado lento e que envolve exceções.

Amor de pai por filho, não. É diferente. Imediato. Nasceu, bastou. E abre-se um novo capítulo na vida do caboclo. Por mais turrão que seja. Desprendido. Ou curto e grosso. Que filho muda tudo. Essa é a grande verdade.

Não que mãe tire de letra. Mas é mais fácil. Que até nisso Deus nos favorece. Vide os nove meses de gestação.  Já o pai, coitado, assume aos quarenta e cinco do segundo tempo. Impelido logo de cara a um universo delicado e cor-de-rosa, como se não houvesse no mundo criatura mais linda que aquela, E não é porque é minha, não, viu? Mas a danada é bem feitinha. E sem querer me gabar, saiu todinha ao pai. Confere só: olhos, nariz, orelhas. Que foi que eu disse? Cópia idêntica. Benza Deus…

E pense você num cidadão atarantado. De suavidade discutível e que não dá leite nem torcendo. Sorte deles que bebê não cria caso. Pelo contrário. Acha graça. E é assim que a maioria das histórias começa. E a minha não foi diferente. Posso até apostar.

Nasci pituca e de pescoço mole. Até aí morreu Neves. Mas moleca cresce que é uma beleza. E logo passei da porcelana ao polipropileno da mais alta densidade. Desses que dá pra dobrar, torcer e carinhar até dizer chega. Que de bagunça pai entende. Mais que isso, adora. O engraçado é que pai é pai só nos primeiros cinco minutos. Depois vira criança. E fica tudo pareado. Pouco importa quem tem quatro ou quarenta. Entrou na chuva…

Lembro como se fosse hoje, do meu pai ensinando a fazer pipa. Depois a gente corria. E mais. E mais que o vento. Quando não trombávamos um no outro, capotando de rir e correndo tudo de novo. Que o último a chegar em casa era a mulher do padre. Quase sempre imundos. De calça ralada nos fundilhos e joelhos. E a cara toda lambrecada de sorvete. Com a minha mãe estrilando atrás, enquanto eu chacoalhava as mãozinhas e seguia repetindo casa afora, Joquempôooooo…

Acontece que vai dando um comichão na gente. E querendo, meio não querendo, um belo dia larguei mão de ser criança. Não sosseguei até que virei moça. E dentre outras coisas dispensei teu colo, teus conselhos e jurei que me virava sem ajuda, Onze horas??? Tenha dó, pai! Sou maior e vacinada. Quer me matar de vergonha, quer? Todo mundo vai… Mas é que… Ah. Esqueça…Você não me entende, mesmo…

De resto o tempo passou. Pra mim e pra metade do globo. Sei que parece folclore, mas as vezes acho que só eu envelheci. Ao contrário dele. Que seguiu igual que nem

O mesmo cabeçudo de sempre. Que ainda se zanga quando pego estrada sozinha. Se dirijo à noite. Ou esqueço de jantar. Isso quando não pede pra ligar assim que pisar em casa, ou reclama que não dorme. E faz questão de acompanhar até o carro. Saudades? Uma pinoia. Quer ver se eu trouxe casaco, isso sim. Ou lembrei do guarda-chuva…

Quando chego é sempre o primeiro que levanta, e vem todo faceiro, atrás de beijo e abraço. Tendo chance, acaricia meus cabelos. Elogia a roupa que catei às pressas e jura por Deus que estou linda, mesmo de cara lambida e escova arruinada pelo vento.

E se você é dessas que ainda acredita em príncipe encantado, dançou, nêga. Que ele existe, sim. Mas ficou grisalho. E mora perto. Pena que casou. E ao que tudo indica, foi com a minha mãe. Eita mulherzinha de sorte, viu?…

Um príncipe na cidade grande

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