Tem jeito, não…

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Num elevador apertado seguiam três. Mãe, filho e um moço em mangas de camisa que suava como poucos. Mas antes que a história avance, deixem que eu me apresente. Sou a mãe. E o rebento é meu, sim senhor. Justo quem. O pior dos quatro. Desses que nem benzendo, viu? Misericórdia…

Enfim. Estávamos lá. Confinados. E subindo beeeeeem devagarzinho. Enquanto o homem, visivelmente desarranjado, torcia e repuxava, num sofrimento sem fim. Eu? Nem tchum. Disfarcei o mais que pude. Fingindo ignorar o cidadão que esverdeava.

Devo dizer até que lutou bastante, mas perdeu. Feio. E o culpado ninguém soube, ninguém viu. Mas os suspeitos pipocavam. Da feijuca com farofa ao guisado de mocotó. Fato é que não caiu bem. Pior. Explodiu. Numa densa névoa acinzentada. Com o infeliz posando de morto. E levando a gente com ele. Mas antes que máscaras de ar caíssem automaticamente do teto, meu amado pimpolho tomou a dianteira e dirigiu-se ao fulano nos seguintes termos.

_Credo, tio! Estragou, foi? – taí. Adulto pensa e criança fala. Quer dupla melhor que essa? E quanto menor, mais sincero. Tanto que continuou. Com razão de sobra pra tudo.

_Ué, mãe? Eu não fui. Nem você. Sobrou ele. Quem mais?

Ai, Cristo… Tem jeito, não…

E se a asfixia temporária não me matou, a vergonha-monstro permanente com certeza daria cabo do recado. Sem falar do jeito que me olhavam. Aguardando uma deliberação. Mas dizer o que, numa encrenca dessas? Que tal, Melhor cuidar da alma, hein, amigão?, não, muito óbvio. Ou quem sabe, Será que chove?, também, não. Aberto demais. Sobrou pro batido, Eu quero a minha mãe!, dramático, mas cem por cento verdadeiro.

Até que o inevitável aconteceu. Com o elevador entreabrindo pra que mais alguém pudesse entrar. Ou quase. Já que a senhorinha empacou. Fitando-nos de frente. Como quem diz, E aí? Quem foi?

Não seria meu filho se não devolvesse, Nem olhe pra mim!, enquanto reforçava a argumentação tapando o narizinho entre as mãos e enchendo as bochechas de ar. E voilà. Convertido em questão de segundos num espécime perfeito de baiacu-ará. Pode isso? Pois é…

Sei que a tal dona ainda protelou um tanto, mas na falta de opção melhor, acabou unindo-se ao grupo. E o elevador retomou seu curso habitual.

O Deus nos acuda veio na sequência. Com o diabo do homem tornando a sacudir e a apertar. Num sinal inequívoco de que o fim da trégua estava próximo, Quer saber? Vou de escada, que eu ganho muito mais…

Minha reação imediata foi socar o dedo na botoeira. No desespero obtuso de quem cria numa parada súbita. Que, é claro, não aconteceu. Por essas e outras que odeio física e nem dou muita pelota a esse conversê de relatividade espaço-tempo. Depois do ocorrido dei pra implicar com a fisiologia humana, também. Fazer o quê, né? Cismei. Pronto. E quero ver discordar de mim.

Sei que descemos no vigésimo sexto, enquanto meu compromisso aguardava no décimo quinto. Sendo assim, simbora andar que todo santo ajuda. E sem nem um pio. Que nada paga o meu sossego. Ou a minha tranquilidade. E teria dado certo, não fosse pelo caco de gente, que engatou numa quinta marcha e saiu desbarrancando, Mas será o Benedito?! Volte aqui, moleque! Não corra. Nem pule. Cuidado com o degrau. De dois em dois não pode. E desça já desse corrimão. Tá com sarna, é? Credo!  Eu disse pra esperar pela mamãe… Acenda a luz, capeta! Acenda o diacho-do-raio dessa… Ai, Cristo… Tem jeito, não…

Tem jeito, não...

Vidas Pregressas

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Estavam assim há certo tempo. Felicíssimos. E num grude só.

Fato é que pareciam sob encomenda, um pro outro, e que o natural seria avançar. Nada melhor que remexer o passado para alicerçar o futuro, verdade? Mentira. E da grossa. Só que disso, eles ainda não sabiam. Sendo assim, partiram.

O plano era simples. Viajariam juntos. Iniciando pela cidade dele e, em seguida, aos domínios dela. Com a certeza de que voltariam revigorados. Amadurecidos. Afinal, férias em família costumam ser boa ideia. Vai nessa…

Os primeiros dias transcorreram às mil maravilhas. Ao menos pra ele, que reencontrou tudo que foi ex. Afora a parentada, que não cansava de lembrar o bom partido de trasanteontem. O muchacho cobiçado, que quem provou não esqueceu. E que moça de sorte era ela, ao desbancar um harém louro, ruivo, das mais finas e promissoras candidatas.

Mas despeito é um estado de espírito que fermenta. Depois vira cacoete. Desses difíceis de disfarçar. E com ela não foi diferente. Seu consolo era que o troco estava próximo. A poucas quadras de casa. Tanto que parou antes, na primeira vendinha encontrada pelo caminho.

Entrou ligeira. Carregando o outro pela mão. E a pressa foi tanta que o moço argumentou.

_Tem certeza que é uma boa ideia? Sua mãe está esperando…

_Pois que espere mais um pouco.

Demorou nada e o dono da estalagem veio atender.

_Menina! Há quanto tempo. Veja como cresceu. Barbaridade…

_Não só cresci, como vou casar. É a vida, certo? Cedo ou tarde todo mundo sossega. Até eu – e sussurrou, cheia de razão _ E olhe que eu era o diabo. Nem me dou ao trabalho de negar.

_Também não era tudo isso… – discordou o velhinho

_Como, não? – defendeu-se ela _Fui terrível, que eu sei. Não deixava passar um – e intimou_ Conte pra ele. Fale dos meninos. Pode falar…

_É que não tô me alembrando de ninguém, assim de imediato – despistou o velhinho

_Impossível. Pense bem…

E o velho meneou. Atordoado. Sem lembrança alguma, por mais remota que fosse. Até que um lampejo de repente mudou tudo.

_Mas que cabeça essa minha!

_Viu, só? Ele lembrou – comemorou ela. Agora a corda vai roer…

_Como pude esquecer? Era você… namorando o manquinho…

_Cuméquié? – vez do noivo tomar parte na conversa.

_Nem era assim tão manco – dissimulou a moça _ Tinha um gingado diferente. E daí? Grandes coisas…

E o velhote continuou. Como que falando sozinho.

_Menino bom aquele, viu? Mas morreu, tadinho. Deus o tenha em sua santa paz.

_Coração? – indagou ela_ Aposto que foi saudades. Quer ver só?

_Sobrepeso.

_Sei…

_Até que aguentou muito. Judiação…

Quem mal se aguentava era o outro.  Que se não rolou de rir foi em consideração ao finado, mas que teve vontade, ah, ele teve. E não foi pouca, não…

Bem quando as feições do tal senhor voltaram a clarear.

_Ih! Lembrei de outro.

Ao que ela retrucou prontamente.

_Não lembrou de nada, não.

_Ah, lembrei, sim.

_Mas não, mesmo – reforçou a moça, indignada _ O passado a Deus pertence. Só a ele, ninguém mais. E em nome da pessoa extremamente reservada e recatada que sempre fui, exijo que…

_ E o Landerval?

_Lander… quem? – a festa estava só começando.

_Landerval Machado Dantas. Se bem que assim, ninguém conhece. É chupa-cabra, mesmo. Desde o berço. Que esse é feio de herança, viu?  E bote feiura nisso, virgi santa…  Mas de um coração maior que o mundo, vamos e convenhamos. Difícil era entender tudo o que dizia. Que era gago. E tinha a língua presa. Caidinha, assim, meio pro lado…

Bastou pra pobre desembestar em direção à porta, arrastando o outro com ela. Enquanto ainda tinha alguém a quem puxar…

_Gente! Esqueci totalmente da minha mãe – e improvisou_ até ouvindo ela chamar. Cês não tão, não? Gozado… Juro que ouvi – e fugiu, chispada _ Já vou mãezinha! Guenta a mão, que eu tô chegando…

Vidas Pregressas

Um Príncipe na Cidade Grande

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Geralmente o amor vem depois. Parte dum segundo ato. E ainda assim vem respaldado. Tem ata. Emendas. Num bailado lento e que envolve exceções.

Amor de pai por filho, não. É diferente. Imediato. Nasceu, bastou. E abre-se um novo capítulo na vida do caboclo. Por mais turrão que seja. Desprendido. Ou curto e grosso. Que filho muda tudo. Essa é a grande verdade.

Não que mãe tire de letra. Mas é mais fácil. Que até nisso Deus nos favorece. Vide os nove meses de gestação.  Já o pai, coitado, assume aos quarenta e cinco do segundo tempo. Impelido logo de cara a um universo delicado e cor-de-rosa, como se não houvesse no mundo criatura mais linda que aquela, E não é porque é minha, não, viu? Mas a danada é bem feitinha. E sem querer me gabar, saiu todinha ao pai. Confere só: olhos, nariz, orelhas. Que foi que eu disse? Cópia idêntica. Benza Deus…

E pense você num cidadão atarantado. De suavidade discutível e que não dá leite nem torcendo. Sorte deles que bebê não cria caso. Pelo contrário. Acha graça. E é assim que a maioria das histórias começa. E a minha não foi diferente. Posso até apostar.

Nasci pituca e de pescoço mole. Até aí morreu Neves. Mas moleca cresce que é uma beleza. E logo passei da porcelana ao polipropileno da mais alta densidade. Desses que dá pra dobrar, torcer e carinhar até dizer chega. Que de bagunça pai entende. Mais que isso, adora. O engraçado é que pai é pai só nos primeiros cinco minutos. Depois vira criança. E fica tudo pareado. Pouco importa quem tem quatro ou quarenta. Entrou na chuva…

Lembro como se fosse hoje, do meu pai ensinando a fazer pipa. Depois a gente corria. E mais. E mais que o vento. Quando não trombávamos um no outro, capotando de rir e correndo tudo de novo. Que o último a chegar em casa era a mulher do padre. Quase sempre imundos. De calça ralada nos fundilhos e joelhos. E a cara toda lambrecada de sorvete. Com a minha mãe estrilando atrás, enquanto eu chacoalhava as mãozinhas e seguia repetindo casa afora, Joquempôooooo…

Acontece que vai dando um comichão na gente. E querendo, meio não querendo, um belo dia larguei mão de ser criança. Não sosseguei até que virei moça. E dentre outras coisas dispensei teu colo, teus conselhos e jurei que me virava sem ajuda, Onze horas??? Tenha dó, pai! Sou maior e vacinada. Quer me matar de vergonha, quer? Todo mundo vai… Mas é que… Ah. Esqueça…Você não me entende, mesmo…

De resto o tempo passou. Pra mim e pra metade do globo. Sei que parece folclore, mas as vezes acho que só eu envelheci. Ao contrário dele. Que seguiu igual que nem

O mesmo cabeçudo de sempre. Que ainda se zanga quando pego estrada sozinha. Se dirijo à noite. Ou esqueço de jantar. Isso quando não pede pra ligar assim que pisar em casa, ou reclama que não dorme. E faz questão de acompanhar até o carro. Saudades? Uma pinoia. Quer ver se eu trouxe casaco, isso sim. Ou lembrei do guarda-chuva…

Quando chego é sempre o primeiro que levanta, e vem todo faceiro, atrás de beijo e abraço. Tendo chance, acaricia meus cabelos. Elogia a roupa que catei às pressas e jura por Deus que estou linda, mesmo de cara lambida e escova arruinada pelo vento.

E se você é dessas que ainda acredita em príncipe encantado, dançou, nêga. Que ele existe, sim. Mas ficou grisalho. E mora perto. Pena que casou. E ao que tudo indica, foi com a minha mãe. Eita mulherzinha de sorte, viu?…

Um príncipe na cidade grande