velha, nada

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Voltou assim da rua. Abanando e alterada. Mais vermelha que caqui velho de feira.

_Nem te conto o que me aconteceu – grudando uma história noutra_ O português da padaria, sabe?  Coroão. Bem-apanhado. Pois é. Todo esparramado pra cima de mim. Pode?

_Vigi – assombrou-se a sobrinha_  E você? Muito ofendida?

_Imagine. Lisonjeadíssima! – devolveu a doida, arrumando-se às carreiras. Batom vermelho. Brincos combinando com o multifocal. Lenço e bolsa a tiracolo. Lá estava ela. Pronta pra sair de novo. Não fosse a menina cutucar.

_Nossa! Que pressa… Posso saber aonde pensa que vai?

_De volta a padaria, onde mais? – pra acrescentar na sequência, mais que atenta ao relógio_ Perdi a fornada de pão de queijo, mas às quatro tem brioche. E, às cinco, pãozinho. Se der tudo certo engato num chá das seis e aí só Deus, viu, anjo?  – deixando a sugestão no ar _ Nem me esperem pro jantar…

_Deixe ver se entendi: você disse que um homem mexeu contigo. É isso?

_Sim! Sim! – reconheceu alegremente. E retomou seu rumo, a caminho da rua.

_A padaria é pro outro lado. Esqueceu? – bufou a moça, por fim.

Ao que a outra deu de ombros.

_Por aqui é melhor. Vou passeando – teimou. Mas acabou admitindo _ De lambuja passo em frente a duas obras. Cada moço mais lindo…

_Tia!

_Que foi?

_Tá doida, é?

_Moderna, meu bem! E captando recursos no mercado…

_Vai, não – insistiu a jovem, tomando a parente pelo braço e impedindo que sumisse no mundo de vez _ Essa raça não presta. Escute bem que estou lhe dizendo. Outro dia catei um descarado desses e passei-lhe o maior sabão da vida.

_Jura? Onde foi isso?

_No sacolão – e resumiu a história_ Botei a boca no mudo. Sei que comigo o fulano não se engraça tão cedo. Bem feito pra ele! Duvido que tope outra loira de frente…

_Por sorte sou acaju médio acobreado – emendou a senhora, pedindo a ficha completa_ Velho ou moço? Gordo? Magro? De japonês até gosto. Só não me diga que é careca…

_Era só o que faltava: assanhar depois de velha.

Velha, nada!, pensou ela, tratando de incluir o sacolão no trajeto original.

Deu a volta na quadra e parou. Olhou prum lado. Depois pro outro. Queria ter certeza que estava só. Então, ajeitou a anágua e ajustou o saiote de tergal plissado rente. Foi quando abriu a bolsa e corrigiu o rouge. Reforçou o pó de arroz. Nas olheiras passou minâncora. Após, encharcou bem os pulsos e têmporas numa imersão grossa de leite de rosas com polvilho antisséptico granado. Infalível, sempre.

Tornou a olhar pros lados. Ninguém ainda. Ótimo. Absolutamente sozinha. Hora do toque final: uma longa e larga talagada de biotônico (fontoura, é claro, que em outro não confiava). E saiu. Corrida. Rua afora.

Há tempos não se achava assim, tão empolgada. A última vez foi no verão de setenta e sete, quando um vendedor de biscoito voador lhe fez a corte. Vendeu fiado e chamava de brotinho, Ah, se fosse hoje, suspirou ela, voluptuosa, Não sobrava nem caroço, e admitiu, Que esse era garboso, viu? Uma brasa, mora?…

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