Bobão

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_Flores, Pedro Henrique? Desde quando flor é presente? – mãos no quadril e pezinho balançando.

_É pra enfeitar, amorzinho.

_ Tenho cara de xaxim, por acaso? Aprenda comigo, meu filho: joia, enfeita. Bolsa cara, enfeita. Crisântemo? Não. Será que tudo eu tenho que explicar?

Acontece que o moço conhecia bem seu gado. E escondido as suas costas guardava outras surpresas. Várias. Grandes. Bem a gosto da fulana, que tornou a assanhar. Até sorriso franco a desgranhenta deu. Fato é que foi curto. Tempo de desmantelar o primeiro embrulho.

_Chocolate, Pedro Henrique?  – segurem as crianças, que a fera está à solta _ Lipo, que é bom, ninguém paga, né? –  e o rapaz murchou, enquanto ela esbravejava _Tem noção de quantas horas de spinning são necessárias pra queimar míseras cem calorias? Ou o que é passar um mês inteirinho ruminando alface crespa com suco de couve e óleo de esturjão? – perdendo de vez a compostura _ Tudo isso pra que, meu Deus do céu?  Pra chegar um engraçadinho e pôr por terra os esforços de uma vida inteira. Simples assim…

_Achei que fosse gostar…

_De comida, Pedro Henrique? Tenha a santa paciência, criatura…

Mas ainda restava um pacote. E ela mal podia esperar.

Pois bem. Ele repassou o regalo e ficou na torcida. Certo de que o strike viria. Sua mulher vai adorar, disse a atendente da loja, Não tem erro. É aposta ganha…

A verdade é que contrariando as expectativas, ela não foi direto ao assunto. Pelo contrário, resolveu adivinhar.

_É roupa. Acertei?

O outro pigarreou.

_ Bom… não. Não, exatamente.

_Pois aposto que é – insistiu a tinhosa_ Eu te conheço, viu? E de outros carnavais – não satisfeita, lançou o desafio_ E aposto a alma-amordaçada-da-minha-mãe-atrás-da-porta como é uma bata. Preta. E das mais sem graça… – pra concluir fritando o moço _ E reze pra não ser tamanho único, tá me ouvindo? Que já é demais! Assim, também, não é possível…

Fosse como fosse a dúvida estava lançada.

_Quanto eu calço? – rosnou a leoa.  E era bom que ele acertasse.

Ao que o moço gaguejou.

_Você, amorzinho?

_Não. O síndico. Desembucha, homem. Peito, quadril, panturrilha e cintura. Quero a centimetragem todinha e nada de arredondar.

_E aí, não vai abrir? – lembrou ele. Antes não tivesse feito.

_Um espelho, Pedro Henrique? O que é isso? Oferenda? Virei Iemanjá agora, foi? E o resto, quedê? Pentinho de um e noventa e nove. Colar de conta. Tornozeleira de missanga…

_É neoclássico, pretinha…

_O negócio é o seguinte: pode ser até pós-jurássico, que não estou dando a mínima – e replicou _ Bom é ouro, compreendeu?

_Eu pensei que…

_Escute aqui, o gosto é meu ou teu?

_Teu…

_Então quero um diamante no dedo, mocinho. Aí, sim, começamos a conversar…

Quando viu era empurrado porta afora. Direto ao elevador.

_Mas, florzinha, mal acabei de chegar. Deixe que eu fique mais um tantinho…

Ela consultou o relógio e negou. Veementemente.

_Você? Nem pensar. E trate de correr, que o shopping fecha às dez. Mas antes de comprar, tire foto e mande por whatsapp, pra ter certeza que presta – com tempo pra bronca final_ Tá fazendo o que parado aí?  Chispa! E passe esses bombons pra cá…

O caso é que ele foi. Tadinho. Montado num pé só, que era pra ganhar expediente. Enquanto a outra ainda reclamava. Com a boca que era puro chocolate.

_Taí. A gente faz de tudo pelo caboclo. Dá carinho. Põe pra dentro de casa. E na hora de retribuir, neca! – parou pra lamber os dedos, devagarzinho, um a um_ Depois perde e vai chorar. Que outra como eu, ele não acha.  Nem em mil anos… – e alfinetou, mais convicta que nunca_ Bobão!

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