Bom demais

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Homem chegou ao céu. Ressabiado. E empacou a entrada de um grande portal, de onde deveria seguir em direção à luz.  Invés disso, inventou de bater ao ombro do anjo a sua frente pra perguntar.

_Quem taí?

Ao que o outro devolveu de pronto.

_Jesus.

_Desse eu sei. Anfitrião da casa e coisa e tal. Refiro-me aos demais convidados – baixando um dedinho o tom de voz_ A lista VIP, compreende?

Não. O querubim não entendia.

Pensam que desistiu? Qual nada. Tratou de reformular e estender a prosa, doido que estava de curiosidade.

_Quero mais é saber da Dalva. Da Nívia. Da Dagmar…

_Ainda não chegaram.

_Típico. Atrasadas até pra morrer… – e sem perder a linha de raciocínio, sugeriu outras _ E a Tânia? A Mafê?

_Em três ou quatro anos.

_Que é isso, rapaz? Tem coisa muito errada nessa sua conta – insistiu _Qual é mesmo a idade delas?

_Infelizmente, essa informação não poderei confirmar.

_ Até tu, Brutus? Isso que é lobby bem feito – continuou a escarafunchar_ E a Chica? A Betânia? A Didi?…

_Também, não – conduzindo o tagarela pelo braço, na esperança de que prosseguisse – Está pronto? Podemos ir?

_Ir aonde, companheiro? – afundando os cascos o mais firme que pode_ Checa melhor aí, fazendo uma gentileza. Vê a Nice. Ao menos ela! Do jeito que bebia e fumava tem que estar aqui. Não é possível…

_Não.

_Joana?

_Nope.

_Catharina?

_Nem sombra.

O pobre, alarmado, começou a suar , Céu sem mulher? Tô fora!

O anjo pareceu ler seus pensamentos.

_Mas temos mulheres aqui. E muitas.

_É? Quem?

_Santa Ana. Santa Filomena. Santa Terezinha…

_Beata não vale! – e fez suas demandas _ Pensei nalguma menos “graduada”. Uma prima de terceiro grau da Maria Madalena, quem sabe…

O missionário conferiu atentamente sua papelada antes de menear em negativa.

Começava a julgar aquela história toda de ir pro céu, um projeto tanto quanto questionável. Quando ouviu o anjo acrescentar.

_A Neide veio.

_Credo! – engrossou ele _ Isso lá é notícia que se dê? Assim? Sem avisar?

_Mas aqui diz que conviveram quinze anos…

_E não foi castigo suficiente? O que querem mais, agora? Vida eterna? Melhor que me despachem direto ao inferno. Economizaria sofrimento…

Numa apatia própria aos desenganados, perguntou, por fim.

_E a Ana Beatriz?

_Tá quase.

Animou-se num pulo, Como assim?

_Tem mais ano e meio vagando pelo purgatório.

_Será que dá pra vagar junto?

O anjo estranhou, mas assentiu, Querendo muito, até dá…

_O que estamos esperando? – ordenou _ Pode despachar.

_Pense bem, hein? Lá não tem água. Sol. Sossego. Comida. Silêncio…

Então, era isso. De um lado, mel, harpas e torneios de bocha. Do outro, loiras, ruivas, curvas e infinitum ranger de dentes.

E ele fez suas escolhas.

Há ano e meio que puxa correntes e nunca se viu encosto mais satisfeito. Enquanto outros sofrem, este, não. Sempre atrás de um rabo de saias e com um sorrisão daqueles rebentado no rosto. E se alguém choraminga, lá vem ele, sambando e defendendo, Reclama não, compadre. Que isso aqui tá muito bom. Mas isso aqui tá bom demais!

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