Azar o seu…

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Nada é simples nessa vida. Pode parecer, mas não é. Vai por mim.

Chip de celular, por exemplo. Só trocar? Jura? Quem disse?

É um tanto de fila, senha e aguarda-sentado-que-em-pé-cansa, que vou te contar uma história.

Aconteceu com ela. No guichê nove. Quando um moçoilo uniformizado abaixou a cabeça e começou a digitar. Ela ainda tentou puxar conversa, explicar o motivo da visita. Nada feito. Primeiro o protocolo. O resto a gente vê depois.

Quarenta minutos se passaram. Com ela ali. Inquieta e balançando. Até que cansou. E foi do sacolejo ao estalar. Primeiro os dedos. Depois, os braços e o pescoço (que vem com sete vertebras, já tinham se atentado a isso? Pois é…).

Dali pro tamborilar foi um pulinho. Engatando numa cantata pra três solistas e coro com grande orquestra. Coisa de gente bem à toa.

Por pouco não apelou. Mas estreitos princípios cristãos e anos de terapia ayurvédica fizeram-na declinar. Ao invés, enumerou. Das coisas iniciadas com “a”, aquelas terminadas em “ixe”.

E seguiu improvisando. Roeu unha, mastigou língua, ajeitou a franja e reposicionou a meia no tênis. Abriu dúzia e meia de clips e com eles montou pentagramas e uma maquete da ala leste setentrional do Kremlin.

O outro? Ainda digitava.

Bem quando a moça deparou com uma lixa velha na bolsa. E saiu arredondando tudo. Mas antes que sangrasse, parou. Olhos fixos no cabron, que teclando estava, teclando continuou.

Mas que tanto esse homem escreve, Deus do céu? Nem se rediagramasse a bíblia inteira, pensou ela,  Versão exclusiva do diretor, sem cortes, incluindo extras e comentários dos figurantes.

Tentou contato mais uma vez. E muitas outras vezes além dessa. Mas o danado desconversava e voltava ao telectec original.  Último som que ouviu, pouco antes de apagar. E teria dormido mais, não fosse o encontrão com um velhinho que por lá se exercitava.

Volte ao seu lugar ou acaba perdendo a vez, tratou de avisar ao desconhecido, que retrucou.

_Pior é a trombose, minha filha? É tempo demais socado numa cadeirinha. Mas comigo não, viu? Comigo, não…

Ela riu.  Mas pouco. Que tem coisa que chama. E o bicho quando vem, vem com força de enxurrada. Geralmente sem nem tempo de assentar. Ao menos com ela foi assim.

Quando viu, o comichão já lhe subia pelas pernas, azulando a boca e o seu entorno. Com a angina supurando no tacho, que nem doce.

Saiu de lá carregada, com o povo todo em cima. E o garoto do guichê, correndo logo atrás, Ei, psiu! Ô, dona, aproveita que saiu o número do protocolo. Vai querer anotar, não?, e deu de ombros, Azar o seu…

Silêncio absoluto no recinto. Que durou pouco. Já que se lançaram sobre ele. A clientada toda. Revoltada e convulsiva.

De fundo, só ela. Lá na maca, aplaudindo e assoviando. E entre uma coisa e outra ainda arrumava forças pra gritar, entusiasmadíssima, Bravo! Bravíssimo…

azar seu

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