Não é meu dia…

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Pra tudo na vida é preciso talento. Sorte. E porções fartas de bico fechado. No mais, tudo é menor. Já que há muito se sabe que o peixe morre é pela boca.

Ainda assim, ela teimou. Tramela aberta e falando pelos cotovelos. A passos largos. Atrás da supervisora com quem trombara sem querer num corredor. Bajuladora que se preza é assim. Sempre preparada. E não perde a oportunidade, por mais ínfima que seja.

_Lindo dia, não? Por falar nisso, adorei sua echarpe. Seda? Logo vi. Devia usar mais azul. Essa cor lhe favorece. Sério, mesmo…

A chefe limitou-se a sorrir. Tocando em frente, com a outra a tiracolo.

_Por aqui tudo na paz, viu? Nunca vi equipe tão empenhada. Sincronismo puro. E essa nova política de qualidade, então? Um sucesso. Todo mundo comprometido e vestindo a camisa. Quer dizer, todo mundo, todo mundo, não. Que a Diolinda é uma negação quando o assunto é trabalho em grupo.

Pronto. Precisava ter envolvido a moça na conversa? Mas era uma questão delicada, já que as duas disputavam uma mesma vaga. O que não deixava de ser uma obscenidade. Afinal era claro que suas habilidades superavam aos rodos o perfil limitado da oponente, Um mal-entendido. Só pode.

E foi assim, decidida a encerrar previamente aquele processo, que ela disparou.

_Também, como confiar numa mulher tatuada, não é mesmo?

_Gosto de tatuagens – retrucou a superior, sem dar muita importância ao caso.

_E quem disse que eu desgosto? Longe disso. O problema é quantidade. Deve ter umas três. Se não forem quatro…

_Tenho cinco – informou a dirigente, com seis idiomas e dois mestrados no exterior.

O cerco começou a fechar.

_Mas uma mulher distinta como a senhora sabe ser discreta. Já a sem-noção da Diolinda teve a coragem de tatuar, sabe onde? No braço! E com tantos motivos, foi escolher justo uma imagem de nossa senhora, pode isso? Quer se rabiscar toda, não critico, mas precisava meter a santa no meio? Aí é falta de respeito e isso eu não admito.

_ A minha é no pulso – foi a resposta que obteve. Curta, grossa e sincera.

_No pulso são outros quinhentos. Assim, até eu – e foi tomando a mulher pela mão _ Posso ver? Que graça. Um coraçãozinho. Lindo, viu? E muito delicado, inclusive – quando reparou nas inscrições, onde se lia _ Cristo Salva e Maria Consola… A senhora é devota também, né? Mas que maravilha…

Sentiu-se nocauteada. Era o Brasil em campo e perdendo de sete a um, sem refresco. Cabia a ela reagir. E fez como dava. Na base do improviso.

_Também rezo, sabia? Sempre que eu lembro. À noite. E antes de comer. Aí é lei…

Podia sentir a garganta ressecando e os músculos retesando aos pares. Enquanto a promoção flanava. Lá longe. Virando a esquina em disparada, até nunca mais voltar.

Era agora ou nunca. Por isso, arriscou. Num vai-com-fé vertiginoso.

_ Não que goste de falar dos outros. Muito pelo contrário. O problema são os hábitos da Diolinda. E a sua vida dupla – então fez suspense, antes de segredar ao pé do ouvido _ Falam por aí que a ela canta. É. Na noite…

_Tenho um filho que toca. Bateria.

_Nossa! Que benção – quase desmaiou dessa vez _Tudo de bom ter um músico na família, imagine só…

Pensam que aprendeu? Bobagem. Ao invés, contra-atacou.

_E seu filho pode. Mais que isso, deve. Gente moça é assim. Já a Diolinda é uma velha, pelo amor de Deus. Que, pelas minhas contas, deve estar próxima dos sessenta…

_E quatro.

_Hein?

_Fiz anteontem. Sessenta e quatro.

Desesperou de um jeito que nem percebeu quando gritou.

_Mas a Diolinda é feia!

Ao que a outra nem respondeu. Olhos crivados nela. Esbugalhados. Sem falar no tanto que tremiam, como se ensaiassem para saltar longe do rosto.

_Se bem que bonita a senhora também não é, né? Nem de longe… – e  bateu em retirada.

_Aonde pensa que vai?

_Atualizar meu currículo – e seguiu, resmungando_ Hoje não é meu dia, viu? Mas não é, mesmo. Papagaios…

Não é meu dia

Azar o seu…

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Nada é simples nessa vida. Pode parecer, mas não é. Vai por mim.

Chip de celular, por exemplo. Só trocar? Jura? Quem disse?

É um tanto de fila, senha e aguarda-sentado-que-em-pé-cansa, que vou te contar uma história.

Aconteceu com ela. No guichê nove. Quando um moçoilo uniformizado abaixou a cabeça e começou a digitar. Ela ainda tentou puxar conversa, explicar o motivo da visita. Nada feito. Primeiro o protocolo. O resto a gente vê depois.

Quarenta minutos se passaram. Com ela ali. Inquieta e balançando. Até que cansou. E foi do sacolejo ao estalar. Primeiro os dedos. Depois, os braços e o pescoço (que vem com sete vertebras, já tinham se atentado a isso? Pois é…).

Dali pro tamborilar foi um pulinho. Engatando numa cantata pra três solistas e coro com grande orquestra. Coisa de gente bem à toa.

Por pouco não apelou. Mas estreitos princípios cristãos e anos de terapia ayurvédica fizeram-na declinar. Ao invés, enumerou. Das coisas iniciadas com “a”, aquelas terminadas em “ixe”.

E seguiu improvisando. Roeu unha, mastigou língua, ajeitou a franja e reposicionou a meia no tênis. Abriu dúzia e meia de clips e com eles montou pentagramas e uma maquete da ala leste setentrional do Kremlin.

O outro? Ainda digitava.

Bem quando a moça deparou com uma lixa velha na bolsa. E saiu arredondando tudo. Mas antes que sangrasse, parou. Olhos fixos no cabron, que teclando estava, teclando continuou.

Mas que tanto esse homem escreve, Deus do céu? Nem se rediagramasse a bíblia inteira, pensou ela,  Versão exclusiva do diretor, sem cortes, incluindo extras e comentários dos figurantes.

Tentou contato mais uma vez. E muitas outras vezes além dessa. Mas o danado desconversava e voltava ao telectec original.  Último som que ouviu, pouco antes de apagar. E teria dormido mais, não fosse o encontrão com um velhinho que por lá se exercitava.

Volte ao seu lugar ou acaba perdendo a vez, tratou de avisar ao desconhecido, que retrucou.

_Pior é a trombose, minha filha? É tempo demais socado numa cadeirinha. Mas comigo não, viu? Comigo, não…

Ela riu.  Mas pouco. Que tem coisa que chama. E o bicho quando vem, vem com força de enxurrada. Geralmente sem nem tempo de assentar. Ao menos com ela foi assim.

Quando viu, o comichão já lhe subia pelas pernas, azulando a boca e o seu entorno. Com a angina supurando no tacho, que nem doce.

Saiu de lá carregada, com o povo todo em cima. E o garoto do guichê, correndo logo atrás, Ei, psiu! Ô, dona, aproveita que saiu o número do protocolo. Vai querer anotar, não?, e deu de ombros, Azar o seu…

Silêncio absoluto no recinto. Que durou pouco. Já que se lançaram sobre ele. A clientada toda. Revoltada e convulsiva.

De fundo, só ela. Lá na maca, aplaudindo e assoviando. E entre uma coisa e outra ainda arrumava forças pra gritar, entusiasmadíssima, Bravo! Bravíssimo…

azar seu

Carinho de Mãe

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A barriga foi o prenúncio. Custou a vir, mas tomou conta. Num me-carrega-que-te-apoio, ao qual me afeiçoei com certa facilidade.

Mas vê-lo pela primeira vez foi outra história. Tê-lo em meus braços, então, pôs do avesso prioridades e reescreveu meu daqui-pra-frente, convertendo todo o resto num desperdício imperdoável.

É que amor de mãe não tem medida, recesso nem receita. E envolve renúncia. Devoção. Pitadas de aconchego e porções descomunais de carinho, pra guarnecer e adoçar. Aí é misturar bem e torcer pra que dê samba. Que filho não tem bula. Nem juízo. Pega tudo que é ziquizira e faz justamente o que não deve. Mas soube da última? Você dá conta. E não pergunte como. Tem que emprenhar e sentir na própria carne pra saber que funciona.

O melhor de tudo é que dá certo. Mãe domina a arte do improviso e tem uma criatividade que contando ninguém acredita. Afora a paciência de Jó. E o que a fulana não sabe, descobre. Isso quando não adivinha. Que a dona além de tudo é telepata. Autodidata. Consultora. Motorista. PHD em psicologia aplicada. E se sentir falta de mais alguma aplicativo, procure que tá lá.  Que a bicha é danada, viu?  Afff Maria

Um mulherão de todo tamanho que se desmancha por conta de um guri. Com filho é assim. Uma vida inteira revirada por causa de um peteleco de gente. Que nem tamanho tem, mas é meu. Quanto a mim, sempre fui dele. Perdidamente apaixonada.  Embalando um pacotinho envolto em mantas, toucas e cueiros, e onde mal se veem as bochechas de fora. E é procurar por um e deparar com dois. Aninhados. Numa comunhão construída. Lapidada aos trancos e barrancos. E que nem sempre veio fácil.

Não me deixam mentir as noites em claro, os xaropes cuspidos longe e os reiterados e não menos famosos combinados. Pra todo o resto tem bitoquinha. Já que beijo de mãe tem propriedades curativas, ômega 3, nutre os órgãos e energiza os chakras. Bons pra tudo. De febre branda a ataque de soninho. Em caso de dengo, então, quebre o vidro e faça a festa. De onde vieram esses, tem outros. E muitos e muitos outros mais.

Afinal sou mãe de carteirinha. Daquelas que se pudessem, optavam por fazer de novo. E a tempo de entrar na fila outra vez. Com direito a repeteco de abraço. E fungadinha de saideira.

Até parece mentira a ligeireza com que crescem. Assim mesmo, do dia pra noite. Primeiro o leite seca. Daí o peito dá lugar a chuca. Que logo perde o posto pra sopinha. Mais ou menos na época em que começam a engatinhar. Depois, sentam. Aí são as perninhas que bambeiam. Até que improvisam um rumo e vão quase em linha reta. Falando pelos cotovelos. Enquanto a casa vai enchendo de amigos. Num instantinho estão lendo. Fazem contas. Planos. Passam a ter opiniões. Reclamam se mudam de casa. Estrilam quando mudam de humor. Escolhem suas roupas, seus empregos e namoradas. Viajam sozinhos. Trabalham. Dão mais um tanto de trabalho. E um belo dia casam. É quando ganhamos netos. Ou qualquer coisa parecida e mais ou menos nessa ordem.

No dia seguinte, a vida continua. Que filho estica, mas não envelhece nunca. Nem incomoda. E vem sempre primeiro. Então confortem-se, maridos. E entendam. Não é nada pessoal. Só que cama de casal, ou cabe a prole inteira, ou o papai que vá dormir noutro lugar. E já que está em pé, aproveite e traga suco. Ah! Bolacha recheada, também. E deixe o menino te pintar a cara, sim! De tinta, é obvio. Se não, que graça tem? Manchou a roupa, foi? Melhor. Fica de lembrança. Agora um beijo no bico. E aposto uma corrida. Duvido que ganhem de mim…

E já que mãe não se aposenta, que eu ame loucamente e para sempre. Por dois. Por seis. Dez mil e podendo prorrogar. Um amor assim, à moda. Largo. Pronto. Bem a minha cara. Sem conta nem final. Que filho é bom, viu? Melhor até que bolo quentinho. Aliás, minha mãe faz um de fubá, uhhhhhhhh… inesquecível. Desses infalíveis, que só ela e ninguém mais. Qual o segredo? Sei não. Mas arrisco um palpite. Carinho de mãe. Ué? Precisava alguma coisa mais?

Carinho de Mãe