Mas que diabos !

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A rua era aquela. Certeza absoluta. Então tocou.

Estranhou quando foi atendida por eles. Mas estava lá pelo emprego. Como não era dessas que desistiam facilmente, cumprimentou e seguiu. Atrás deles. Que desciam e desciam e desciam. Até que chegou ao inferno, literalmente. Com os dois postados ali. Um de cada lado. E estavam entrevistando. Pior, senhor fio-duma-égua e lady tinhosa a queriam contratar.

_Fale dos benefícios – sugeriu a capeta.

_Deixe comigo – desconversou o fedido. Que já ia longe, com a mocinha arrastando. Mandando e desmandando, numa soberba só dele _ Aqueles ali, ó, tem que esfregar. Três vezes ao dia – referindo-se a um bando de cabritos sebosos, aguardando num cantinho.

_Que graça – tentou a moça – São de estimação, é?

_ Oferta pro sacrifício.

_Minha nossa senhora!

_Deixe a mãe do concorrente fora disso!

A chifruda-patroa entrou no meio, disposta a acudir _Mas os benefícios são ótimos, diga a ela, benzinho – derretida em sorrisos e gentilezas, enquanto o outro era o azedume em couro e rabo.

_Sossegue, mulher – ralhou ele_ Daqui pra frente, cuido eu _ e, voltando-se a coitadinha que lívida aguardava, pôs-se a vociferar sem a menor noção da própria inconveniência_ Sabe o que aconteceu com a última que descuidou das minhas oferendas? – ela fez que não. E ele continuou _Até hoje amarga a mais tristes das consequências – soprando em seus ouvidos_ Purgatório… E nem esperei que ela morresse.

O olhão da só moça crescia, esbugalhando cada vez mais. A diaba, antevendo o fim trágico da história, achou por bem intervir. E deu de louca.

_Até parece, né, amor? Não sei de onde ele tira essas coisas. Tem uma imaginação esse meu marido… –  e voltando-se a coitadinha que tremia como uma adoentada, desconversou _ Aceita um suquinho feito na hora? Que tal se fossemos direto aos benefícios…

_Vê ali – era o marido. De novo. E a toda carga. Apontando uma mesa alta em mármore bisotado _ Varsol não pode, nem cândida, que amarela. É pano seco e pronto. E se bater a vassoura, eu te pelo! Tá vendo essa trinca aqui? – fez que sim _ A cabocla tá pagando até hoje. Aos nacos. Bem devagarzinho…

Se não desfaleceu foi por medo de ficar ali para sempre. Sendo assim, segurou firme. Justa sobre as tamancas. Mas por dentro balbuciava, Não sei se aguento! Não sei se aguento!

Foi quando ele inventou de perguntar.

_E você lava? –emendando à queima roupa _ Chuleia? Engoma? Cozinha? Jura que não some com as tampas dos tupperwares?

E agora? Maldito jornal de classificados! Bem disse a minha mãe, agência é mais seguro. Mas filho escuta? Escuta nada, martirizava-se a bichinha, a dois passos de enlouquecer, ou enfartar. O que viesse primeiro, servia. Desde que a livrasse daquilo tudo.

Mas ele não dava trégua. Um minutinho que fosse.

_Roupa de ginástica não passa, tá me ouvindo? É direto pra gaveta. Que nem meia. E fique longe das minhas cuecas – exibindo uma samba-canção carcomida, engruvinhada a ferro em brasa _ O pior foi a safada ter escondido! Mas eu sei quem foi. E essa vai pagar bem caro. Que de mim, ninguém escapa!

Bastou pra mulher dar um grito e sumir desembestada. Derrubando tudo que era torno, caldeirão e espeto que encontrou pelo caminho.

Com a dona diaba no encalço _Já vai? Mas tá cedo! E os benefícios? Não quer ouvir os benefícios?

O diabo? Nem tchum. Que já catara seu jornal e gritava pela janta.

_Relaxe, pretinha. Ela volta. fazendo jogo duro. Culpa sua, que fica dando mole e o povo monta em cima… – e foi dormir. O sono bom de quem fez o seu melhor.

Enquanto ela assombrava. Desgovernada de raiva casa afora. Doida pra estripar o desgranhento do marido. Mas isso teria que esperar. Até que acabasse as tarefas.  Sorte dela que era pouca coisa. Só catar e pendurar e ajeitar e arrumar e alisar e pôr de molho e pôr pra assar e pra secar e pra bater e refogar e escorrer e esfregar e faxinar e…

Mas que diabos!

Um caso meio diferente

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De todas as suas esquisitices, aquela ganhou longe.

E ninguém soube o porquê. Nem mesmo ela. Que iniciou seu dia como sempre, pelas crianças. Mas ao invés do habitual, Hora de acordar!, o que se ouviu foi algo bem incomum.

_Hoje é quinta-feira, dezesseis de abril, e o Bom Dia Brasil está só começando…

Os filhos se entreolharam, mas decidiram tocar em frente, como se nada tivesse acontecido, O café tá pronto?

A mãe, como quem olha diretamente para uma câmera, aprumou e disse.

_E o brasileiro? Tem comida na mesa? Como estados e municípios tem atuado para garantir a segurança nutricional da população? Pra responder a essas e outras perguntas, estamos recebendo hoje em nossos estúdios a coordenadora geral da secretaria estadual de alimentação…

Mas era só a Chica. Boleira de mão cheia e há anos na família, Vim avisá que num tem leite. Nem dá pra buscá, qui tá uma friuzera danada lá fora…

Foi o suficiente para mãe reassumir as transmissões.

_Uma grande massa de ar frio acaba de chegar ao país. Isso explica as baixas temperaturas e as geadas. É o caso do Acre, por exemplo. Com mínima de doze graus em Rio Branco…

Pior ainda foi no carro, quando a mãe entrou em horário eleitoral gratuito. Na porta da escola, entrevistou dois professores e tentou uma exclusiva com um senhor estacionado em fila dupla.

Voltou pra casa a tempo de abrir o Vídeo Show, que veio com os seguintes destaques, As dicas de beleza da vó Cinira, o vídeo musical da poodle da vizinha e o papo aberto com o seu Borges, porteiro-faz-tudo que a dona Chica era doidinha pra pegar…

Sei que o encosto não largava. E quando o marido entrou em casa foi recebido aos berros de, Cachorro, canalha! Isso lá são horas de chegar? Tava com outra, acertei? Fale, tratante. Fale!

Faltou a ele enfartar. Mas foi atendido pelos filhos, que explicaram.

_Liga, não, pai. Passou o dia assim. Zapeando de programa em programa. E o senhor chegou bem na hora da novela…

Comeram em silêncio. Quebrado vez ou outra, quando chamava os comerciais.

Tentaram banho, chá de boldo, vick vaporub e reza pra descarrego. Nada. Com as manchetes desdobrando noite adentro. Até sair do ar. Quando simplesmente calou.

_Como está se sentindo? – quis saber o marido.

_Bem melhor – respondeu ela, aliviada.

Então apagaram as luzes. E ela teria virado e dormido, não fosse ele. Em pé sobre a cama.

_Tantarantantan-tarantantan… O Plantão da Globo informa: mãe acometida de transtorno psicológico não identificado finalmente se liberta do transe. Mais notícias você acompanha durante a nossa programação…

Um caso meio diferente