Culpa Sua. Só pode…

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Estavam os dois ali. Em plena praça de alimentação. Decidindo quem ia primeiro e aonde.

Sei que não demorou muito pra tal dona fulana dar com as pernas no mundo. Afinal nossa história trata de uma filha de Maria à solta em Miami. E o que é pior, com o embornal abarrotado de dólares, ao câmbio extorsivo de três por um.

A ele restavam as sacolas, que a essa altura não eram poucas. Gucci. Gabbana. Valentino. Além do bebê a tiracolo. Que mal completara seis meses. E que ao menor sinal de ausência da mãe armava um berreiro daqueles. Terrível. Som surround em dolby digital.

Danou-se, remoeu o caboclo, descadeirando corredor e meio atrás da moça, O bebê que mamar. O bebê tá com sono. O bebê tá molhado, e como nada a demovia, apelou, O bebê quer a mãe!

Ela, tomada pela comoção, sentiu-se ótima. Necessária. Querida. Tudo que poderia voltar a sentir mais tarde, ao retornar pro Brasil. Agora, não. Que tinha muito o que fazer. Sendo assim, foi direta.

_ Toma que o filho é teu.

_E faço o quê?

_Balançar já seria um começo – e foi o que ele fez.

Mas o que era pra ser um frágil oscilar angelicus acabou transmutado num freneticus chacoalhar chiliquentus. Se alguém percebeu? Digamos que nem todos no estado da Flórida. Mas o pitchuco, sim (esse com toda certeza, coitadinho!). Que passou do resmungo ao choro aberto, num rasante descontrolado e sem sobreviventes.

O pai ainda tentou, Mulher do céu, acode aqui! Misericórdia…

Bobagem, descartou ela a caminho do provador, Cante pra ele que passa…

Tá. Cantar até que é fácil. Mas situações de crise não dão margem a repertórios variados, sendo assim, engatou na primeira que veio…” Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha tá na minha cama”…

Obvio que não funcionou. Ao contrário, o neném berrou mais ainda.

Evidente que sacudindo um tantinho mais ele sossega, presumiu o gênio, que botou toda a sua fé e força num sacolejo dos diabos. Sambando e cantando como se soubesse. Com o pimpolho sob o sovaco, convertido em reco-reco. Indo e vindo por entre lágrimas.

Pensam que acabou? Qual nada! O melhor estava por vir. Com o advento da bateria, num tchicundum-pumperô totalmente fora de forma. E que tomou corpo, com o pai xaxando, numa mistura mal-ajambrada de passista e britadeira. Dava dó só de olhar…

Até que o bichinho desandou. Talhando de dentro pra fora e vertendo tudo o que tinha pra cima do pai e de quem mais passasse ao largo, num raio de cento e cinquenta quilômetros.

_Que confusão é essa, posso saber? – era a mãe quem se achegava. Boquiaberta com a dimensão da cena toda.

_Eu que sei? – devolveu ele, contundente _ Culpa sua! Só pode.

_Minha?

_Mas é obvio – e passou a explicar, numa caradurice sem tamanho _Tava tudo muito bem até agora. Mas foi você chegar e pronto. Cabô o nosso sossego…

_Cuméquié?

_Sabe o que te falta, meu bem? Molejo – e voltando a balangar o menino, sussurrou _ Chora não, campeão. Papai tá aqui, viu? Papai tá aqui…

Culpa sua. Só pode

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