Suplente de Esposa

5 Comentários

Sabe aqueles dias que você não está nem um pouco a fim? Então. Era ela. Um filho em semana de prova e outro de cama, vomitando a casa inteira.

Pra piorar, ele. Sinuoso e sibilando. Pleiteando o que lhe era de direito. E não sossegava. Queria porque queria. Ai dela se não valorizasse a preferência.

_Busco na rua onde tenho aos montes – ameaçava _ Depois não diga que não avisei – pra fechar com chave de ouro_ É bem como dizem por aí. Quem tem uma, não tem nenhuma. Quer saber do que mais? Vou atrás de uma reserva. Uma suplente. Afinal, a voz do povo é a voz de Deus…

_Aposto uma perna que não acha nada melhor – manifestou-se ela, a titular na ocasião.

_ Cê que pensa – retrucou o topetudo _ Sabe a Anne?

_Que Anne?

_Aquela. Bonitona. Mãe de um moleque da rua. Cê abra o olho com ela – não satisfeito, prosseguiu enumerando _Tem a Mikio, também. A mestiça fabulosa do clube de campo. É estalar um dedo e pronto. Vem correndo aqui pro papai…

Anne? Mikio?,  pensou, pensou e nada. Mas lembrou da Verinha. E ficou fácil. Foi passando a mão no telefone e discando.

O outro ria, Vera? Que Vera? Tá doida?  Dessa nem eu estou sabendo…

_A noiva do teu primo. Quem mais?

_Hein?

_Acompanhe comigo: nem bonita, nem feia. Além do que é discretíssima. E fica tudo em família. Muito mais negócio, oras bolas…

Só sei que ele murchou, assim que alguém do outro lado da linha atendeu.

_Vera? Sou eu, querida…

Desligue isso, sua desregulada, pediu ele, em cólicas, ciscando aflito entorno dela.

Desregulada, não. Cansada. Assoberbada. Atolada. Descabelada. Tudo. Menos, desregulada. E continuou. No maior papo. Até chegar onde queria.

_Então, colega. Acontece que estou precisando de uma mãozinha com o Ocimar. Será que rola?

E seguiu, colando isso naquilo, numa matraquisse sem tamanho. Insistindo na proposta descabeçada, como se tratasse de uma grande ajuda humanitária.

_Afinal, que culpa tem o coitado se as crianças consomem todo o meu tempo? Não fosse isso, nem fazia tal pedido.  É quase uma caridade que presta aos parentes. E estamos falando aqui de uma assistência pontual. É mais do que o pobrezinho precisa…

Enquanto isso, o homem desmoronava. Membros bambeando e camisa empapada, a ponto de desmaiar.

Foi explícita ao limite_ Jantar? Tá de brincadeira, né? Que isso eu mesma faço e é todo santo dia – pra encerrar num grand jeté _ O negô tá num sufoco bíblico, compreende? Se trocar de turno comigo, fico devendo uma. Uma não, dez! Das grandes. E pra sempre!

Sei que desligaram.  E virou uma sarna. Azucrinando o que restara do infeliz.

_Tá fazendo o que parado aí? Ande, meu filho! Antes que a moça desista – cheia de pressa e recomendações _E não apronte, nem dê trabalho, pelo amor de Deus! Viu a dureza que foi pra arrumar essa? Outra eu juro que num guento…

E correu casa afora. Tentando lembrar da Anne e da Mikio. Doida por uma reserva. Ou suplente. Afinal, quem tem uma, não tem nenhuma. Ao menos é o que dizem por aí. E sabem como é, né? A voz do povo é a voz de Deus…Suplente de Esposa

5 comentários sobre “Suplente de Esposa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s