Sei não…

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Estava lá o moço. Matutando em como discotecar a última noite de carnaval da turma lá do bairro. Marchinhas. Decidiu por uma sequência inteira delas. E precisava da melhor de todas pra abertura.

Começou com essa, Roubaram o coração da minha sogra. Botaram o coração de um jacaré…

O pai que ouvia meio de lado, fez questão de opinar.

_No seu lugar, tocava outra.

_Por quê?

_ Os tempos mudaram, meu rapaz. Na minha época, a gente ria de tudo. Fazia piada adoidado. Mas, agora, maus-tratos contra animais configuram crime. Vai que alguém do IBAMA escuta um trem desses. Do Greenpeace, então, piorou…

Sob esse ponto de vista, melhor procurar mais um pouco. E mandou, Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é. Será que ele é…

O pai rebateu. Na hora.

_Olhe a homofobia…

O fulano tentou outra, Eu mato. Eu mato. Quem roubou minha cueca…

_Apologia à violência…

As águas vão rolar. Garrafa cheia eu não quero ver sobrar…

_Incentivo ao uso indevido de drogas. Lícitas ou ilícitas…

Negâ do Cabelo duro. Qual é o pente que te penteia…

_Negâ, não. Afrodescendente…

A pipa do vovô não sobe mais…

_Estatuto do idoso. Parágrafo único. Artigo quarto…

Até que o guri se encheu. E mandou ver no hino nacional. Tocado naquelas alturas.

_Sei não – ponderou o patriarca _Depois do Petrolão e com essa economia do jeito que está… Num sei não

Sei não

Quatro Marchinhas e Um Samba-Enredo

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Pulavam animadamente pelo salão, até ele sair com essa.

_Não. Definitivamente. Não quero mais que você trabalhe. Principalmente depois do nosso casamento.

Ela riu, já que devia ser piada. Coisas de carnaval. Vai entender. Deu de ombros e voltaram a foliar. Ainda mais coladinhos. Quando ele retomou.

_Nenhuma chance. E decidido.

_Hein?

_Prefiro as crianças em casa. Contigo. Escola só depois dos cinco. Melhor, dos quinze. Até lá você que ensine. Terá tempo de sobra pra olhar os meninos.

_Meninos?

_Jeito de falar, bobinha – e continuou _ Menino. Menina. O que Deus mandar tá de bom tamanho, desde que venham em penca. E de parto natural. Já imaginou?  Eu ali, em primeiro plano, filmando tudinho em HD

Foi quando passou um amigo, e ele inventou de apresentar.

_Conhece a Ana, minha noiva?

A moça encrespou-se toda.

_Ana? Sou a Paula!

_Liga, não – disse ele, ao compadre_ naqueles dias…

Bastou pra ela apelar.

_Qual o problema com você?

Optou pelos panos quentes_ Sossegue, mulher. Em casa a gente conversa.

_Casa? Que casa? Nem te conheço…

_Ingrata! Depois de tudo que passamos juntos…

_ Foram duas voltas pelo salão!

Preferiu ser específico _Quatro marchinhas e um samba-enredo campeão. Sabe o que isso significa?

_Que você é doido. Varrido! – e foi sambar em outra freguesia. Sem sequer olhar pra trás.

E o outro ficou. Ressentido.  Chorando o coração escangalhado. Disposto a não mais se engraçar com fêmea alguma que fosse. Nunca mais. Mas nunca mais, mesmo.

A não ser que fosse linda, descabelada e loira. Como a colombina bocuda que lhe grudara ao cangote.

Tá. Quem sabe só uma voltinha. E mais uma. E outra. Mais outra. Até que perguntou.

_Você trabalha? Não? Ótimo… – pra emendar na sequência_ Tem problema com parto natural?

Quatro marchinhas e um samba-enredo