Deu chabu no samba

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Basta dizer que fechou a cara, empurrando a travessa longe.

_Tem linguiça no meu prato – emendou ela. E o sambão comendo solto.

_É feijoada. O que você queria?

_Outra coisa. Algo leve. Preciso emagrecer. Esqueceu? Resolução de ano novo.

Ao que o outro devolveu _E que diferença isso faz? Um torresminho a mais. Ou a menos…

_ Isso é sabotagem, sabia? Mas ninguém me derruba – e catando a garçonete que passava ao lado, perguntou _ O que mais servem aqui?

_Nada. Só feijoada.

_Nem quiche?

_Hein?

_Salada de aspargos? Carpaccio de abobinha? Frutas laminadas, tem?

_Só laranja em gomo. Serve?

Fazer o quê, né?

_ Quero uma tigela cheia. Com mirtilos. E farofa de banana verde, por favor. Mas peça pra salpicar só um tiquinho…

Sobrou pro outro acudir e resgatar.

_ Quer dançar? Essa é das minhas favoritas…

Mas a bicha estava com a macaca _Samba? Odeio samba!

_Mas ainda outro dia…

_Outro dia é passado. Sou uma mulher cosmopolita. Que se renova…

Xi… O mais seguro, agora, era encurtar a conversa, Esqueça a música, tá, meu bem?

_Não dá. com fome.

_Fome de quê, criatura?

Melão.

Pode isso? Queria porque queria. E olhe que lhe ofereceram de tudo. Da banana frita a compota de jaca. Nada a demovia.

E lá foi ele. Desceu. Cruzou. Virou. Não sossegou até penhorar o fígado em troca de um melão, que só podia ser de ouro. Pior, mesmo, foi voltar a pé. Umas vinte quadras. Ao ter o carro roubado numa curva. E como chovia naquela noite. Barbaridade…

Enfim, chegou. Pingando. Arfando. E com o melão debaixo do braço.

A outra dava pulos de meio metro. Se deixassem comia do jeito que estava, com casca e tudo. Numa bocada sem tamanho. Que foi a única. Pois parou. Contrafeita.

_Não quer mais?  – quis saber o moço, prestes a enfartar.

_Não. Tá seco. Que nem pepino…

E largando a fruta de lado, completou _ Dá a mão aqui. Vamos dançar…

Dançar? Ouvi bem? E aquele papo todo da fulana cosmopolita? Como é que fica?

Deu de ombros. Logo não se via mais ela, gingando e rodando mais que mãe de santo que recebe. E cantando, a plenos pulmões _ É preciso muito amor… para suportar essa mulher…

Deu chabu no samba

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