Olha a Cabeleira da Zezé

3 Comentários

Com ela era assim. Sagrado. Pra ver de longe. Que tocar, não. Ninguém. E ai de quem dissesse, Mas é só cabelo, Zezé…

_Como assim, só? Cabelo é vida. Arte. Traço de caráter. Fala do juízo que temos. Do privilégio em ser um povo livre. Indiferente à moda. Tendências. Tinturas. Desfiados – e não parava mais. Diante disso concordavam. Ou davam trégua. E a cabeleira seguia intacta. Que com as madeixas da dona Zezé não tinha acordo. Mesmo.

Até o dia que um novo cabeleireiro chegou. Baiano. Lindo. Forte. Filho de Gandhy legítimo e rascunhado por Jorge Amado. Jeitoso até dizer chega. Onde o sorriso era o de menos, um detalhe, naquele ajuntamento de belezura a Pelourinho aberto. E, pasmem, vinha com mais de trinta frases (e nem precisava recarregar a noite inteira).

Que o diacho do negão era a redundância em carne, músculo e osso. E ainda transbordava. Quer ver só? Tanquinho? Tá brincando. Pense numa lavanderia completa. Com passadoria, delivery e limpeza a seco, aff… Bíceps? Tríceps? Bobagem! Que aquilo era um ninho. De avestruz. Onde dava pra acomodar um bando inteiro.

E as mãos do vivente? Varriam sozinhas a escadaria do Bonfim. Ida e volta num passe único. E faziam bem umas dez viagens.

Logo a dona quis saber da criatura. E seus serviços.

No começo sentou perto. Mas achou pouco. Lavou. Não resolveu. Escovou. E tornou a escovar. Tanto que viciou. Quando viu, era tarde. As visitas ao salão viraram cachaça. Diárias. Mais frequentes que banho de mar no calor. E bote calorão nisso.

_Mas dona Zezé, a senhora hidratou ontem…

_ Então, lave.

_Já lavei.

_Pinte!

O staff todo se horrorizou. Como? Se até dia desses…

Passado é passado. Quando ela ainda não sabia dele. Tom? Que tom, meu filho? Tanto faz. Tente um acaju-louro-vatapá-bandeira. E antes que me esqueça, mude a cor e sente a pua!, que a vida curta e eu quero mais é ser feliz.

E foi. Do ébano-fuligem-cintilante ao vermelho-ararinha-urucum-rei. Com a velhota cada dia mais entregue ao toque de Midas de seu Sidney Poitier. Mas cabelo não é paleta. E antes que passassem a escala do verde, houve quem se opusesse.

Tá. Que seja. Alise.

Jesus-Maria-José! Já não bastasse a água de salsicha, agora abriria mão também dos cachos? O que viria na sequência? Os carros? Os netos? Seus cachorros?

Sei que esticou. A ponto dele recusar. Negar-se terminantemente a recebê-la.

_Quer ficar careca, é?

Assustou-se toda. Careca? Nunca. Ou que desculpa teria pra continuar a vê-lo? Apelou.

_O senhor faz pé?

_Não.

_Mão?

_Muito menos.

_Virilha cavada? Buço? Sobrancelha definitiva? Drenagem? Banho de lua?

_Neca.

_Então, corte.

Silêncio absoluto no recinto, já que nem as pontas aparava. De duas, uma: crente ou promessa pra santa. Pois erram. Todos. E deu pra se lambuzar a cada tesourada do cidadão. Enquanto ele massageava, ela gemia. Se tocada, revirava os olhos e faltava morrer. Perdidamente entregue e arrebatada. Arrastando pelos bridões um trem inteirinho. Descarrilhada de amor por ele.

E assim a cabeleira a perder de vista chegou logo a cintura. Bateu nos ombros. E antes que restasse nem um chumacinho pra contar história, eis que a dona do estabelecimento se rebela. E aos berros retumbantes sai ao resgate.

_ Mandei o cretino embora. Isso, sim. E já não era sem tempo…

_Embora? Pra onde? – quis saber a outra.

_A essa altura? Deve estar quase em Ilhéus! E que fique por lá. Pra aprender a não bulir com a crina alheia. Quanto a senhora, fique tranquila, que cubro tudo. O que venha a precisar. Do mega hair a cromoterapia – e posou. Aguardando os aplausos. Que não vieram. Muito pelo contrário. O que se viu foi uma dona Zezé desabalada. Pedindo por ele. Rastejando porta afora. Numa angústia de dar dó.

_Mas, dona Zezé… E o seu cabelo?… Eu pensei que….

_E quem liga, minha filha? Cabelo cresce! Cabelo cresce!!!

Olhe a cabeleira da Zezé

3 comentários sobre “Olha a Cabeleira da Zezé

  1. Ai que delícia de texto!!!!!!! Estou aqui, em pleno trabalho, de frente pra minha chefe rindo por dentro de cada frase que li. Amei pois já tive um cabeleireiro que fazia minha cabeça e outras cozitas más. Entendo perfeitamente dona Zezé, rsrs Corre atrás dele dona Zezé!!!
    Lú, você é demais!!!
    Bjs

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