Moderno Demais Pro Meu Gosto

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Estava lá o pai. Prontinho e esperando. São Paulo versus Nacional de Medellín. Semifinal de Sul-Americana. Um jogaço prestes a começar.

Ele, tricolor desde nascido, roía dedos e unhas, trincando de nervoso. Achou por bem fazer um checklist: meias da sorte? Confere. Apito da sorte? Confere. Cueca da sorte? Confere. Com as equipes se posicionando no gramado, aguardando o início da partida. Quando surge um certo alguém a perturbar.

_Pai, no amor e na guerra, vale tudo?

_Hein? Vale. Vale… – Na dúvida, melhor atender e despachar rapidinho. A tempo de ver o Luís Fabiano tentar um rebote.

Bateu na trave, saindo pela linha de fundo. E antes que o bandeirinha marcasse impedimento, lá vinha o pixote outra vez.

_Homem e mulher, vale?

_Oi? – você de novo? _Vale.

_E homem com homem?

Tratou de segurar bem a língua, afinal, os tempos são outros. E moleque bom, é moleque esperto. Sendo assim, confirmou.

_Vale. Vale. Agora dê sossego que quero assistir ao…

_E mulher com mulher, vale?

Jesuissss. Será que essa criança não desiste nunca? Então, tá. Torceu um tanto mais o nariz, até que respondeu.

_Também vale.

_E se forem mais?

_Como assim, mais?

_Essa história, de homem com homem e mulher com mulher, só vale se forem dois?

Sentia o meio de campo embolando. Aliás, que tal uma rápida explanação sobre meio de campo? E se a gente falasse sobre arbitragem ou estudasse a trajetória da bola? Não gostaria de saber quem foi nosso melhor cabeça de área na copa de noventa e quatro? Não, né? É claro que não…

Sem outro jeito, retomou.

_Tá. Preste atenção. Dois é mais comum que três. Mas existem outras composições que vão além do casal convencional…

_Quatro?

Gente! Esse moleque tá com a moléstia…

_Sei lá. Acho que sim.

_E cinco, vale?

_Veja bem…

_E seis?

_Pouco provável… Em todo caso, vale.

_Nove?

_Taí algo que eu gostaria de ver…

Foi a vez do pequeno sumarizar _ Então, quando eu crescer, vale homem, mulher, dois, três, quatro, até seis de uma vez só?

_Bom, mais ou menos isso. Só não conta pra sua mãe, combinado? – sobrou tempo pra acrescentar _ escute uma coisa, filho: se puder ficar no trivial simples, papai lhe seria eternamente grato, viu? Se não der, tudo bem. Vou te amar de qualquer forma. Escolha você o que escolher… – o pai se mantinha sereno. Moderno. Compreensivo. E, absurdamente, sereno.

_Tá – lançou o toco de gente, mais cheio de ideias que antes – Entendi. Melhor se for menina. E melhor ainda se for só uma. Acertei?

Bingo! Lição dada e muito bem aprendida. Hora de voltar ao primeiro-tempo. E torcer, agarrado ao brasão do seu São Paulo, pois precisavam de sorte para virar. Muita sorte.

_Pai, e se ela for corinthiana, vale?

Perdeu por completo a compostura.

_Cuméquié? Não basta a gente dar a mão, que vocês querem logo todo o braço? – e repetiu pra ter certeza _ Uma corinthiana? Aqui em casa? – indignou-se por completo a criatura _ Sabe o que é isso? Falta de Deus no coração! Cadê tua mãe? Alzira! Ô, Alzira! Pegue esse indecente do teu filho e vá rezar. Melhor, mande benzer! Esse mundo perdido, mesmo… Papagaios…

Moderno demais pro meu gosto

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