Olha a Cabeleira da Zezé

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Com ela era assim. Sagrado. Pra ver de longe. Que tocar, não. Ninguém. E ai de quem dissesse, Mas é só cabelo, Zezé…

_Como assim, só? Cabelo é vida. Arte. Traço de caráter. Fala do juízo que temos. Do privilégio em ser um povo livre. Indiferente à moda. Tendências. Tinturas. Desfiados – e não parava mais. Diante disso concordavam. Ou davam trégua. E a cabeleira seguia intacta. Que com as madeixas da dona Zezé não tinha acordo. Mesmo.

Até o dia que um novo cabeleireiro chegou. Baiano. Lindo. Forte. Filho de Gandhy legítimo e rascunhado por Jorge Amado. Jeitoso até dizer chega. Onde o sorriso era o de menos, um detalhe, naquele ajuntamento de belezura a Pelourinho aberto. E, pasmem, vinha com mais de trinta frases (e nem precisava recarregar a noite inteira).

Que o diacho do negão era a redundância em carne, músculo e osso. E ainda transbordava. Quer ver só? Tanquinho? Tá brincando. Pense numa lavanderia completa. Com passadoria, delivery e limpeza a seco, aff… Bíceps? Tríceps? Bobagem! Que aquilo era um ninho. De avestruz. Onde dava pra acomodar um bando inteiro.

E as mãos do vivente? Varriam sozinhas a escadaria do Bonfim. Ida e volta num passe único. E faziam bem umas dez viagens.

Logo a dona quis saber da criatura. E seus serviços.

No começo sentou perto. Mas achou pouco. Lavou. Não resolveu. Escovou. E tornou a escovar. Tanto que viciou. Quando viu, era tarde. As visitas ao salão viraram cachaça. Diárias. Mais frequentes que banho de mar no calor. E bote calorão nisso.

_Mas dona Zezé, a senhora hidratou ontem…

_ Então, lave.

_Já lavei.

_Pinte!

O staff todo se horrorizou. Como? Se até dia desses…

Passado é passado. Quando ela ainda não sabia dele. Tom? Que tom, meu filho? Tanto faz. Tente um acaju-louro-vatapá-bandeira. E antes que me esqueça, mude a cor e sente a pua!, que a vida curta e eu quero mais é ser feliz.

E foi. Do ébano-fuligem-cintilante ao vermelho-ararinha-urucum-rei. Com a velhota cada dia mais entregue ao toque de Midas de seu Sidney Poitier. Mas cabelo não é paleta. E antes que passassem a escala do verde, houve quem se opusesse.

Tá. Que seja. Alise.

Jesus-Maria-José! Já não bastasse a água de salsicha, agora abriria mão também dos cachos? O que viria na sequência? Os carros? Os netos? Seus cachorros?

Sei que esticou. A ponto dele recusar. Negar-se terminantemente a recebê-la.

_Quer ficar careca, é?

Assustou-se toda. Careca? Nunca. Ou que desculpa teria pra continuar a vê-lo? Apelou.

_O senhor faz pé?

_Não.

_Mão?

_Muito menos.

_Virilha cavada? Buço? Sobrancelha definitiva? Drenagem? Banho de lua?

_Neca.

_Então, corte.

Silêncio absoluto no recinto, já que nem as pontas aparava. De duas, uma: crente ou promessa pra santa. Pois erram. Todos. E deu pra se lambuzar a cada tesourada do cidadão. Enquanto ele massageava, ela gemia. Se tocada, revirava os olhos e faltava morrer. Perdidamente entregue e arrebatada. Arrastando pelos bridões um trem inteirinho. Descarrilhada de amor por ele.

E assim a cabeleira a perder de vista chegou logo a cintura. Bateu nos ombros. E antes que restasse nem um chumacinho pra contar história, eis que a dona do estabelecimento se rebela. E aos berros retumbantes sai ao resgate.

_ Mandei o cretino embora. Isso, sim. E já não era sem tempo…

_Embora? Pra onde? – quis saber a outra.

_A essa altura? Deve estar quase em Ilhéus! E que fique por lá. Pra aprender a não bulir com a crina alheia. Quanto a senhora, fique tranquila, que cubro tudo. O que venha a precisar. Do mega hair a cromoterapia – e posou. Aguardando os aplausos. Que não vieram. Muito pelo contrário. O que se viu foi uma dona Zezé desabalada. Pedindo por ele. Rastejando porta afora. Numa angústia de dar dó.

_Mas, dona Zezé… E o seu cabelo?… Eu pensei que….

_E quem liga, minha filha? Cabelo cresce! Cabelo cresce!!!

Olhe a cabeleira da Zezé

E que tudo mais vá pro inferno

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Foi assim. Num solavanco. E quando viu, estava lá. No tête-à-tête com o capeta. O banido em pessoa. Bom, não exatamente em pessoa, mas juro pra você que era o próprio. Em calda, cornos e enxofre.

Mas bastou ao carcomido botar os olhos nela pra decretar. Taxativo.

_Deve haver algum engano. Aqui, assim, você não pode entrar.

Ela foi ao delírio. Mas voltou num estalo ao ouvi-lo concluir.

_Afinal, temos cá nossas conformidades e você, infelizmente, encontra-se muito acima do peso permitido aos nossos associados…

Cuméquié? Catou-lhe o rabo antes que o dito sumisse de vez.

_Como assim, ACIMA-DO-PESO? Você nem me olhou direito. Muito disso é inchaço da viagem. Estou ótima. Uma sílfide. Um pitéu – e posou. Ansiando por aprovação.

Ele observou a tal dona mais de pertinho. Mediu. Apalpou. E negou. Veementemente.

Ela, enlouquecida, esperneou de raiva e apelou pro tão manjado daqui-não-saio-daqui-ninguém-me-tira! Restou a ele apaziguar.

_Escute aqui, meu benzinho, ainda ontem padronizamos tudo. Das amarras aos caldeirões. Sobrou nada no seu tamanho. Eu realmente sinto muito…

É assim, né?, e começou a descascar

_ John Lennon. Oito de dezembro de mil novecentos e oitenta – batia no peito acintosamente_ Sabe quem foi? Fui eu! Fui eu!

O sarnento rechecou a papelada, Estranho. Aqui consta um tal de Mark David Chapman

_Mentiu. Por mim. Esse homem me amava…

_Mesmo se quisessedesculpou-se o chifrudo _ Ainda temos o problema com o seu figurino. Olhe só o tamanico desses tornos… Por que não tenta o céu? Lá as batas são larguinhas. As nuvens reforçadas…

Agora era pessoal _Lembra do atentado ao papa? Então…

_Qualé! Aquele foi o Mehemed Ali Agca. Todo mundo sabe…

_Quem acha que o selecionou, preparou e ensinou a atirar?

_Ele errou.

_Estava em fase de treinamento.

_Tem mais alguma coisa que queira me contar? – perguntou o coisa ruim, começando a se interessar por ela.

_Muuuuuito mais. Que eu sou o cão, modéstia à parte – e retomou _Sabe onde eu estava em vinte e dois de novembro de mil novecentos e sessenta e três? Em Dallas. Nos Estados Unidos.

_Vai dizer que foi você quem atirou em J F Kennedy?

_Euzinha.

_E o…

_Estava ao meu lado. Na verdade tentou me deter. Bem feito! Pra deixar de ser enxerido.

_Se é assim, quem sabe ainda tenha alguma coisa que lhe sirva. Uma camisa de força, talvez…

_E tecido laceia, sabia? Ainda mais com esse calorão – retrucou a tonta, que voltou à carga _ Sou mau que nem pica-pau. Primeira namorada de Hitler. Leão de chácara do Saddam…

_Bom, nesse caso, vou liberar a sua entrada.

Yessss!, comemorou. Uma coisa era não ter marido. Nem namorado. Nem convite pra festa alguma que não fosse caridade. Mas recusada no inferno? Aí já era demais.

E os asseclas foram chamados

_ Pra onde chefe? – quiseram saber.

_City tour completo. E não tenham pressa, que essa é ruim. E com força. Então, caprichem. Que é pra carne descolar, beeeeeeem devagarzinho…

Mudou de ideia. E foi num pulo.

_Num é que gorda, mesmo, rapaz?  E a tendência é alargar. De quinze a vinte quilos ao ano. Sobrepeso é fogo, viu? Quer saber? Acho que vou esperar pela coleção de primavera. Mais soltinha, né? E sem pressa. Que um bucho, colega. Até desinchar, vai tempo. E bote tempo nisso. Barbaridade…

E que tudo mais vá pro inferno

Moderno Demais Pro Meu Gosto

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Estava lá o pai. Prontinho e esperando. São Paulo versus Nacional de Medellín. Semifinal de Sul-Americana. Um jogaço prestes a começar.

Ele, tricolor desde nascido, roía dedos e unhas, trincando de nervoso. Achou por bem fazer um checklist: meias da sorte? Confere. Apito da sorte? Confere. Cueca da sorte? Confere. Com as equipes se posicionando no gramado, aguardando o início da partida. Quando surge um certo alguém a perturbar.

_Pai, no amor e na guerra, vale tudo?

_Hein? Vale. Vale… – Na dúvida, melhor atender e despachar rapidinho. A tempo de ver o Luís Fabiano tentar um rebote.

Bateu na trave, saindo pela linha de fundo. E antes que o bandeirinha marcasse impedimento, lá vinha o pixote outra vez.

_Homem e mulher, vale?

_Oi? – você de novo? _Vale.

_E homem com homem?

Tratou de segurar bem a língua, afinal, os tempos são outros. E moleque bom, é moleque esperto. Sendo assim, confirmou.

_Vale. Vale. Agora dê sossego que quero assistir ao…

_E mulher com mulher, vale?

Jesuissss. Será que essa criança não desiste nunca? Então, tá. Torceu um tanto mais o nariz, até que respondeu.

_Também vale.

_E se forem mais?

_Como assim, mais?

_Essa história, de homem com homem e mulher com mulher, só vale se forem dois?

Sentia o meio de campo embolando. Aliás, que tal uma rápida explanação sobre meio de campo? E se a gente falasse sobre arbitragem ou estudasse a trajetória da bola? Não gostaria de saber quem foi nosso melhor cabeça de área na copa de noventa e quatro? Não, né? É claro que não…

Sem outro jeito, retomou.

_Tá. Preste atenção. Dois é mais comum que três. Mas existem outras composições que vão além do casal convencional…

_Quatro?

Gente! Esse moleque tá com a moléstia…

_Sei lá. Acho que sim.

_E cinco, vale?

_Veja bem…

_E seis?

_Pouco provável… Em todo caso, vale.

_Nove?

_Taí algo que eu gostaria de ver…

Foi a vez do pequeno sumarizar _ Então, quando eu crescer, vale homem, mulher, dois, três, quatro, até seis de uma vez só?

_Bom, mais ou menos isso. Só não conta pra sua mãe, combinado? – sobrou tempo pra acrescentar _ escute uma coisa, filho: se puder ficar no trivial simples, papai lhe seria eternamente grato, viu? Se não der, tudo bem. Vou te amar de qualquer forma. Escolha você o que escolher… – o pai se mantinha sereno. Moderno. Compreensivo. E, absurdamente, sereno.

_Tá – lançou o toco de gente, mais cheio de ideias que antes – Entendi. Melhor se for menina. E melhor ainda se for só uma. Acertei?

Bingo! Lição dada e muito bem aprendida. Hora de voltar ao primeiro-tempo. E torcer, agarrado ao brasão do seu São Paulo, pois precisavam de sorte para virar. Muita sorte.

_Pai, e se ela for corinthiana, vale?

Perdeu por completo a compostura.

_Cuméquié? Não basta a gente dar a mão, que vocês querem logo todo o braço? – e repetiu pra ter certeza _ Uma corinthiana? Aqui em casa? – indignou-se por completo a criatura _ Sabe o que é isso? Falta de Deus no coração! Cadê tua mãe? Alzira! Ô, Alzira! Pegue esse indecente do teu filho e vá rezar. Melhor, mande benzer! Esse mundo perdido, mesmo… Papagaios…

Moderno demais pro meu gosto