Criança tem cada uma

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Foi girar a alavanca e a porta abrir.  O patrulheiro estelar sabia que sozinho jamais conseguiria enfrentar a guarda do cruel imperador Gorky. Com o reino vulnerável e a princesa Indra nas mãos de cruéis mercenários, qualquer descuido seria o fim da resistência nos condados.

Nos calabouços da cidade perdida, nosso herói lidera um grupo de rebeldes no combate a um exército inteiro de monstros-mutantes-zumbis. Após retomar o controle intergaláctico e devolver a doce princesa ao seu reino, é chegada a hora de unir-se aos demais guardiões numa arriscada missão de retomada do espaço-tempo. Conseguirão nossos defensores alcançar a nave mãe antes que meteoros gigantes teleguiados por Gorky interceptem para sempre seus destinos? Ou será que rochas de lava flamejante impedirão os nossos…

_Que bagunça é essa, moleque?  – quis saber a santa, ou melhor, a mãe. Mãos espalmadas, narinas alargando e olhos maiores que eu, num estupor típico de quem acabou de limpar uma casa inteira.

_Justo hoje, filho! Só comigo, meu Deus. Só comigo…

O moleque, empapado em molho grosso até os cotovelos, aproveitou para esmagar um meteorito remanescente, ou polpetone com fusilli à bolonhesa da vó Anne, como preferirem. Antes que a desmancha-prazeres lhe catasse o prato. E as orelhas.

Foi Ai! UI! pra todo lado. E por mais que ela esfregasse, dessa vez nosso guerreiro espacial caprichara no figurino. Nem quarando em soda estelar. Nem assim.

_Olhe o estado que ficou esse uniforme! – ralhou a matriarca, enquanto ele franzia a testinha, como quem diz, Danou-se!

_Vai chegar tarde outra vez! Aí vem recado na agenda e seu pai vai brigar com quem? Adivinhe? Você não sabe da missa um terço  – e tratou de arremedar _ Precisa controlar melhor esse menino! Fica em casa, não faz nada e ainda por cima perde a hora. Já vi tudo – chilicou a dona azeda, montada num beiço que esticava até a esquina _ E hoje não benta. O primeiro que me aborrecer, leva!  – deferência que geralmente sobrava ao pai, já que criança sabe bem a hora de ficar quietinha.

Agoniada como estava, tratou de ventar com o pequeno porta afora. Mas mãe é oitenta por cento mole e vinte por cento zelo. Sendo assim, inventou de perguntar _ Ficou com fome, né? Nem sei como é que vive. De vento. Só pode…

E deu meia volta na história _ Quer uma bolachinha? Quer? Um danoninho? Tem pudim de chocolate na geladeira. Peraí, que vou buscar…

Voltou num vapt vupt. Com uma travessa pra lá de abarrotada. E uma bitoca estalada na bochecha cheia e quase limpa.

_Tem que comer pra virar craque e marcar um golaço pra mamãe, viu?

O pequeno sorriu. Banguela e comportado. Quem não conhecesse a praga, levava. Facinho, facinho.

_Vou ali e já venho – acontece que demorou. As turras com um pé de chuteira que não tinha Cristo que ajudasse a encontrar. Pra depois casar as meias e socar tudo na mochila. Aquela. De janeiro. Que em abril não tinha as alças, nem fecho. Quando lembrou de trocar a escova e reforçar a lancheira (que a bisnaguinha na cantina, colega, pela hora da morte). Mas cadê o estojo desse garoto? Victor Luiz, quedê seu estojo de lição? Eita, menino danado…

Ele, se ouviu, não deu nem confiança. Ocupado que estava em responder o ataque do famigerado imperador do mal e proteger os limites das Terras Altas. Esperem! Oh, não! O foguete do guerreiro lendário caiu! Espatifou-se contra uma torre de bolachas recheadas. Tentou fugir e caiu de novo. Assolado num pântano ácido de pudim radioativo e a mercê de tortas-autômatas canibais. Contra as quais se valeu de rajadas mortais de danoninho plutoniano, retomando o controle da situação. A essa altura, do prato original, restava pouco. Menos que meia fatia de pavê da destruição.  E por pouco tempo. Já que a única forma de vencer o exército Orc era explodindo seu covil secreto, de uma vez por todas!

O menino bem que tentou. Mas com a galáxia em erupção e a guerra declarada aos insurgentes, havia pouco que pudesse fazer pra garantir a integridade física do planeta Sala. Mesas, tapetes, cadeiras, tudo infectado. Uooooó! Ioioioioioió… Tomem isso, forças malignas…  E mais isso…E isso…

Não fosse a intromissão da famigerada mater-estresser-mutante, e ele teria varrido definitivamente o império de Gorky para outras dimensões. Ligeiro que era, bateu em retirada. Deixando pegadas marrom nescau intenso no carpete marfim-zero-bala da entrada principal.

_VICTOR LUIZ JORGE FILGUEIRAS JÚNIOR!

Aquele urro foi dela. Num clamor autêntico aos deuses. Santos. E entidades afim. Se bem que nessas horas, vizinhos e psiquiatras também resolvem. São todos bem-vindos. Qualquer alma boa e menos atarefada. Preferencialmente as munidas de balde mega, tira manchas super e esfregão blaster. Mais uma caixa jumbo de dardos tranquilizantes. Cinquenta polegadas cada. Pra abater elefantes. Míticos. Mutantes. E interestelares.

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