Assim morreu Ava Gardner

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Pense num homem com defeito. Pois bem. Era ele. Ranheta por dentro. Amassado por fora.  Chatos somos todos, repetia a santa. Aquela que apesar dos avisos luminosos, insistia em apostar suas últimas fichas num cavalo manco. Bem feito. Perdeu o direito a apelações posteriores.

Tiques, toques, manias. Era um sujeito all inclusive. Um verdadeiro neanderthalensis desalinhadus. Desses que encaroçam fácil, logo no primeiro turno.

Até para escolher mascote o diacho do sujeito desvairava. Nada de Lulus da Pomerânia em bolsinhas afrescalhadas. Nem gatos pelados de penacho na testa. Não. Seu fraco era outro. Galinhas. Isso mesmo. Cismou de criar garnisés. No sentido mais bíblico da palavra.

É aí que entra Ava Gardner. Uma cocodéco de estimação, com nome e crista de diva. Poedeira sem-vergonha.  Vesga de pai. Piolhenta de mãe. Ainda assim cercada de mimos e zelos dos mais diversos e notáveis.

E foram tocando a vida, até o dia em que nosso herói resolveu mudar de vida e de vez. Migrando de mala e cuia para a casa da noiva. Detalhe: com a galinha debaixo do braço, listada como patrimônio.

Acontece que se tratava de um quarto e sala. Dela. Agora, delas. E, por extensão, dele também. Mas desse nem davam conta, que saia cedo e voltava tarde. Deixando as duas pra lá. Cada qual com seus afazeres. Cabendo a moça a rotina diária de lavar, polir e esfregar, enquanto a sonsa do bico aberto ficava com o melhor da festa: emporcalhando tudo. Soltando pena pelo ladrão.

E como comia a esganada. Era ver e pôr pra dentro. Vivia engastalhada e com o papo a um ponto de romper. Então tossia, chiava, emborcava, mas morrer que era bom, neca!

Tinha poleiro, coleira, pedicuro e fazia uso constante de florais. Mas o bucho frouxo em nada a favorecia. Nasceu assim. Desarranjada desde o ovo e desarranjando a casa inteira com ela. Não tinha um canto ou coisa que escapasse. E titica mole é de doer até chorar. Pior só se ciscasse. E ciscava muito, essa infeliz. Mas infeliz, mesmo, era a outra. A de duas pernas, duas mãos e um jogo de cutelos alemães para estripador nenhum botar defeito.

Até o dia em que ele, não satisfeito com o inferno causado por Ava Gardner, achou por bem arranjar-lhe um marido: Humphrey Bogart. Galo cantadô da mais nobre estirpe. Mas o tiro saiu pela cloaca.

O final não podia ser outro. Acho até que veio tarde. Só não o imaginava assim: alto, fofo e molhadinho. Virado em bolo de fubá. Justo o que ele mais gostava. Receita de família. Igual que nem mamãe fazia, não fosse o racumin.

Então foi as compras, que o mercado não espera e a fila tem que andar. Ainda assim, viu ele chegar. Quando cheirou o bolo. Que cortou um pedaço sem tamanho e foi sentar, com Ava Gardner de um lado e Humphrey Bogart do outro.

Se não reparou no cheiro, menos ainda no gosto. Só sei que mandou ver. Deixando quase nada para ela botar fora. Pela manhã os farelinhos foram recolhidos e contados. Um a um. Depois sumiram num saco preto, largado numa beira de estrada. A um meio de caminho qualquer.

Onde estava, jamais iria contar. O fato é que passou o resto do dia ao fogão. Preparando as aves que estrangulou e depenou sem pressa alguma. Bogart fez a passarinho. Já Ava, com quem a pendenga era mais antiga, preferiu cozinhar. Lentamente. Vendo a carne derreter e descolar de-va-ga-ri-nho.

Não satisfeita, resolveu ligar pro finado. Que, segundo a embalagem do raticida, deveria estrebuchar em quatro, três, dois…

_E aí? – inquiriu ela, na maior satisfação _ Como se sente?

_Engraçado ter perguntado… Acordei meio do avesso hoje, sabe? Doem as costas. As juntas. Os quartos. O peito…

Ela ouvia e bocejava. Alisando o barrigão inchado, que lhe embotava as vontades. E ele continuou.

_Culpa sua – profetizou _ É sua comida que me engorda. Mas esse homem já foi. Acabou…

Assim? Tão já? Sem choro, nem vela, nem ais? Coisa mais sem graça. E se morreu, como falava? Se é que ela ainda ouvia alguma coisa, tamanho o sururu se formando dentro dela. Azia. Devia ter imaginado. Aqueles frangos de macumba não serviam nem pra reboco de parede…

Ele ainda matraqueava_ Não reparou que estou mais fino? Mais esbelto? Pois é. Cortei suas gororobas encharcadas.  Arroz. Feijão. Macarrão. Botei tudo fora. Há dias que não trisco em nada que prepara…

Ela pensou em revidar, mas as convulsões não deixavam.

_Passo melhor assim – retomou ele_ Tá. Dos seus bolos, sinto falta. E muita. Do de fubá, principalmente.  Ava Gardner e Humphrey Bogart que se fartaram. Ainda ontem, quase entupiram de tanto comer. Melhor. Se não sobra, não sofro – mas voltou atrás rapidinho. E pediu, numa delicadeza pouco peculiar _ Quando o regime acabar, faz outro pra mim? Faz? Faz?

Ninguém respondeu. Nem voltou.  E nunca mais se soube dela.

Assim finaram todos. Ela, num repente, que nem bicho. Ele, aos pouquinhos, de saudades. Quem diria, homão daquele tamanho. Perdido na bebida e amargura. Tamanha a falta que sentia. Do casal de carijós.

Assim morreu Ava Gardner

Criança tem cada uma

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Foi girar a alavanca e a porta abrir.  O patrulheiro estelar sabia que sozinho jamais conseguiria enfrentar a guarda do cruel imperador Gorky. Com o reino vulnerável e a princesa Indra nas mãos de cruéis mercenários, qualquer descuido seria o fim da resistência nos condados.

Nos calabouços da cidade perdida, nosso herói lidera um grupo de rebeldes no combate a um exército inteiro de monstros-mutantes-zumbis. Após retomar o controle intergaláctico e devolver a doce princesa ao seu reino, é chegada a hora de unir-se aos demais guardiões numa arriscada missão de retomada do espaço-tempo. Conseguirão nossos defensores alcançar a nave mãe antes que meteoros gigantes teleguiados por Gorky interceptem para sempre seus destinos? Ou será que rochas de lava flamejante impedirão os nossos…

_Que bagunça é essa, moleque?  – quis saber a santa, ou melhor, a mãe. Mãos espalmadas, narinas alargando e olhos maiores que eu, num estupor típico de quem acabou de limpar uma casa inteira.

_Justo hoje, filho! Só comigo, meu Deus. Só comigo…

O moleque, empapado em molho grosso até os cotovelos, aproveitou para esmagar um meteorito remanescente, ou polpetone com fusilli à bolonhesa da vó Anne, como preferirem. Antes que a desmancha-prazeres lhe catasse o prato. E as orelhas.

Foi Ai! UI! pra todo lado. E por mais que ela esfregasse, dessa vez nosso guerreiro espacial caprichara no figurino. Nem quarando em soda estelar. Nem assim.

_Olhe o estado que ficou esse uniforme! – ralhou a matriarca, enquanto ele franzia a testinha, como quem diz, Danou-se!

_Vai chegar tarde outra vez! Aí vem recado na agenda e seu pai vai brigar com quem? Adivinhe? Você não sabe da missa um terço  – e tratou de arremedar _ Precisa controlar melhor esse menino! Fica em casa, não faz nada e ainda por cima perde a hora. Já vi tudo – chilicou a dona azeda, montada num beiço que esticava até a esquina _ E hoje não benta. O primeiro que me aborrecer, leva!  – deferência que geralmente sobrava ao pai, já que criança sabe bem a hora de ficar quietinha.

Agoniada como estava, tratou de ventar com o pequeno porta afora. Mas mãe é oitenta por cento mole e vinte por cento zelo. Sendo assim, inventou de perguntar _ Ficou com fome, né? Nem sei como é que vive. De vento. Só pode…

E deu meia volta na história _ Quer uma bolachinha? Quer? Um danoninho? Tem pudim de chocolate na geladeira. Peraí, que vou buscar…

Voltou num vapt vupt. Com uma travessa pra lá de abarrotada. E uma bitoca estalada na bochecha cheia e quase limpa.

_Tem que comer pra virar craque e marcar um golaço pra mamãe, viu?

O pequeno sorriu. Banguela e comportado. Quem não conhecesse a praga, levava. Facinho, facinho.

_Vou ali e já venho – acontece que demorou. As turras com um pé de chuteira que não tinha Cristo que ajudasse a encontrar. Pra depois casar as meias e socar tudo na mochila. Aquela. De janeiro. Que em abril não tinha as alças, nem fecho. Quando lembrou de trocar a escova e reforçar a lancheira (que a bisnaguinha na cantina, colega, pela hora da morte). Mas cadê o estojo desse garoto? Victor Luiz, quedê seu estojo de lição? Eita, menino danado…

Ele, se ouviu, não deu nem confiança. Ocupado que estava em responder o ataque do famigerado imperador do mal e proteger os limites das Terras Altas. Esperem! Oh, não! O foguete do guerreiro lendário caiu! Espatifou-se contra uma torre de bolachas recheadas. Tentou fugir e caiu de novo. Assolado num pântano ácido de pudim radioativo e a mercê de tortas-autômatas canibais. Contra as quais se valeu de rajadas mortais de danoninho plutoniano, retomando o controle da situação. A essa altura, do prato original, restava pouco. Menos que meia fatia de pavê da destruição.  E por pouco tempo. Já que a única forma de vencer o exército Orc era explodindo seu covil secreto, de uma vez por todas!

O menino bem que tentou. Mas com a galáxia em erupção e a guerra declarada aos insurgentes, havia pouco que pudesse fazer pra garantir a integridade física do planeta Sala. Mesas, tapetes, cadeiras, tudo infectado. Uooooó! Ioioioioioió… Tomem isso, forças malignas…  E mais isso…E isso…

Não fosse a intromissão da famigerada mater-estresser-mutante, e ele teria varrido definitivamente o império de Gorky para outras dimensões. Ligeiro que era, bateu em retirada. Deixando pegadas marrom nescau intenso no carpete marfim-zero-bala da entrada principal.

_VICTOR LUIZ JORGE FILGUEIRAS JÚNIOR!

Aquele urro foi dela. Num clamor autêntico aos deuses. Santos. E entidades afim. Se bem que nessas horas, vizinhos e psiquiatras também resolvem. São todos bem-vindos. Qualquer alma boa e menos atarefada. Preferencialmente as munidas de balde mega, tira manchas super e esfregão blaster. Mais uma caixa jumbo de dardos tranquilizantes. Cinquenta polegadas cada. Pra abater elefantes. Míticos. Mutantes. E interestelares.

Criança tem cada uma

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No espelho, um rosto que não era o seu.

_Bom dia, candidato.

_Hein?

_Com a queda da tese do voto útil, a base partidária optou por lançar uma nova candidatura. No caso, a sua.

_Deve haver algum engano. Como pode isso? Nem tenho partido.

O assessor recorreu as fichas. Checou. Tudo batia, do endereço as medidas. Nenhum erro. Ele, mesmo.

_ Legenda não é problema. PSL, PTB, PT do B, DEM, PEN, SEM, TEM, QUEM e muitos outros da base aliada – e continuou, mais por hábito que necessidade _ PSTU, PCO, PCO2, H2CO3, Ca(OH)2…

_Essas siglas todas me confundem. Qual a diferença entre elas?

_Antes das eleições, muitas. Depois fica pareado. Então, qual vai ser?

Foi quando lembrou da família.

_A primeira dama está em Nova Iorque – tranquilizou um assecla.

_Mobilização de cunho social?

_Compras, mesmo. Liquidação na Quinta Avenida. Precisava ver a animação da bichinha.

Chanel. Chloé. Burberry. Sentiu no bolso o peso das malas, valises e sacolas aguardando na esteira de bagagem.

_Gastos de campanha. Tudo previsto – interviu outro correligionário.

_Temos budget?

_Não. Mas sempre dá pra desviar. E desta vez foi da merenda. Que moleque come pouco. Ademais, lanche engorda. E criança obesa é eleitor hipertenso, quando não, safenado. Os pais deviam lhe agradecer…

Quando veio alguém avisar, Seus filhos o aguardam para uma audiência.

_Temos demandas – foi o mais velho quem começou _ Pleiteamos o fim do banho diário e dos horários rijos para dormir. E que conste nos autos: pijama não é presente.

Precisava manter a situação sob controle _ Vão dormir como sempre dormiram.

_Um extremista linha dura. Ora, ora, ora…

_São muito pequenos. Não sabem o que é melhor pra vocês.

_Menosprezando as minorias. Sei…

É chamado de lado _Alivie, deputado, que discriminação contra menor dá reclusão. E com pena agravada. No seu lugar oferecia revisão de mesada com base no IGP-M, vinculada as ações da Vale.

_E quem paga?

_O contribuinte. Ou acha que é só votar e fica tudo por isso mesmo? Nananinanão. Este é um governo onde o povo participa. Ativamente.  Um verdadeiro exercício de cidadania. Tá vendo só, eu me emocionei de novo. Acontece sempre comigo. É só começar a falar…

No jardim, um doberman de todo tamanho. Completamente empetecado. Patas feitas e mechas carmim por todo o corpo, Sansão? O que fizeram ao meu cachorro?

_ Repaginamos. Ele agora atende por Gloria Gaynor. Nem imagina o quanto a bancada gay vem crescendo nas pesquisas.

_Jesus…

_Jesus-Buda-Oxalá! Sincretismo religioso. É a mágica do negócio… Mas vamos ao que interessa. Sua plataforma de governo será…

_E eu que sei? – ainda arriscou _ Reforma agrária?

_Vespeiro.

_Salário mínimo?

_Difícil.

_Educação?

_Balela.

_Falo de quê?

_Critique. A oposição. A posição. E os analistas sociais. Sempre com muita promessa e barulho.

_Showmício não foi proibido?

_Showmício, foi. Tumulto, não. E são muito mais efetivos. E só não mirar em jornalista. Aproveitando o embalo, a gente bem que podia sitiar umas terrinhas, né?

Um clarão de decência surgia em meio a tudo aquilo. A possibilidade de uma redistribuição, mais justa e igualitária entre os mais necessitados, aqueceu seu coração. Ainda assim, era novidade demais para um só dia. Precisava de um conforto. Decidiu ligar pro pai.

_Rompeu com o senhor quando invadimos o sitiozinho dele em Itabira – lembrou um colega de chapa.

_Mas eram terras produtivas!

_Produtiva não podia? Melhor anotar. Fica de sugestão para o próximo mandato.

_ Próximo mandato??? – só podiam estar brincando _Tadinho do meu pai, gente!

_Protegendo a família, hein? Aprendeu depressa o garoto…

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