Criatura tão boa

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_Não quero saber –  esbravejou a doida ao telefone _ Você marcou comigo, Kaiane. E com amiga, a gente não fura, viu? Dar bolo em homem, manicure ou dentista, ainda vai. Em pai e mãe, chega a ser compreensível. Mas em amiga, nunca! Que é trairagem, da grossa. E isso não aceito. De jeito nenhum…

E nada a demovia _ Batizado? Piorou! E daí que é seu único sobrinho? Madrinha? Grandes coisas. Não vai ganhar um centavo a mais por isso, pelo contrário, criança é centro de custo que só dá despesa. Escute o que estou lhe falando – pra continuar, azeda que nem limão _ nem aí se sua irmã mora nos Estados Unidos. Conheço uma galera que também mora: Mickey, Pluto, Beyoncé e Clarabela. Agora pergunte se algum deles atrapalha meus programas? Ela que venha exclusivamente pra te ver em outro dia. Ou no jantar. Que do nosso almoço, não abro mão. E pare de insistir…

Como a outra não parou, nem ela _ Qual era o trato? Almoçarmos juntas todo santo dia, enquanto Deus nos desse forças. E isso inclui os domingos. Esse próximo, principalmente. Tradição é tradição. Se quebrar, dá azar. E disso estou farta. Cheinha até as tampas. Então, não desmarco. E pronto!

Foi quando engasgou _ Cuméquié? Ainda quer emprestado meu casquete flor de laranjeira com véu perolado e miçanguinhas? Mas é muito atrevimento! Você que ouse vir atrás do meu chapéu, que vai ouvir poucas e boas. Sendo assim, até domingo. E ai de você se não aparecer – desligou, sem chance de resposta.

Deu nem dois passos e o diacho do aparelho já tocava novamente.

_Acha que não tenho nada melhor pra fazer, não, criatura? Se é por falta de roupa pra lavar, arranjo um balde lotado pra você, me entendendo?  – mas a voz não era dela. Era dele _ Otacílio? Que coisa boa, criança. A hora é ótima! Sempre – e amansou _ Será um prazer reencontrar você, meu doce… Este domingo? Perfeitamente. A gente bem que podia sair pra dançar… Sei. À noite  não pode, né?… Só almoço… – e antes que ele capitulasse _ Eu? Tranquilíssima. Compromisso nenhum. Com ninguém. Imagine… Então, tá. Combinado. Beijinho na fuça, viu? Até domingo…

Nem esperou esfriar. Discou de volta pra amiga.

_Kaiane? Ô, Kaiane, minha amiga mais amada e querida! Diga cá uma coisa, florzinha linda, lembra do casquete? Pois é. Vem com luvinha. Não sabia, não? E, surpresa! Botei tudo numa caixinha e mandando entregar. Ah, o bombom de rum é pro menino. Como que menino? O que vai batizar, ué! E daí que só tem três meses? É chocolate, não contrafilé. Dá na mãozinha que ele chupa. Não vai dirigir, mesmo. Se a mãe reclamar, paciência. Nem Cristo agradou todo mundo, minha filha. Quem dirá eu… criatura singela e tão boa…

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