Vai voar? Tem certeza?

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Enquanto isso, no guichê da companhia aérea.

_Prontinho. Sua poltrona é a doze C. Corredor. Agora, só preciso de um número de telefone que não seja o seu, para deixar de contato.

_Tem o da minha mãe – sugeriu a outra, que não via a hora de embarcar.

_Quantos anos tem a sua mãe? Já passou dos setenta?

_Faz tempo, inclusive.

_Desculpe. Mas telefone de velhinha, não pego – e explicou _ Quando ligo, é que a coisa está feia, compreende? E nesses casos, anciã não funciona. Primeiro, porque não atende. Que até sair da cozinha e chegar na sala, liguei e desliguei, no mínimo, umas vinte vezes. Multiplique isso por cento e cinquenta passageiros. Um absurdo, não é mesmo? Humanamente impossível. Outra coisa, quando atendem, não escutam. Sobra pra mim ficar esgoelando. Outro dia o saguão inteiro já sabia do coitado do fulano, menos a danada da velha do outro lado da linha. Então, se tiver um outro número, qualquer que seja, ficaria muito agradecida. Tio. Tia. Primo. Amante. Amiga. Vizinha…

_Bom. Tenho um primo. É celular e o DDD é vinte e um.

_Também não pode. Contenção de custos. Tem que ser fixo e número local, fazendo favor…

Deu de ombros _Tenho uma irmã, que mora por aqui, pertinho do aeroporto – revirando a agenda do telefone _ Tem tempos que a gente não se fala…

_Brigaram, né? Já vi tudo: magra, alta, peituda, não move um dedo e ganha três vezes o seu mísero salário, acertei? Quer saber? Já não fui com a cara dessa sua irmã. Tem outro número aí?

_ Só sobrou o trabalho do meu marido…

Respondeu com uma careta _É que não costumo sair ligando pro marido das outras – hesitação que durou pouco _ É bem-apanhado? Bonitão?

_Mais ou menos…

_Acho que dá para abrir uma exceção. Até porque, a essa altura, já virou viúvo, mesmo. E sabe como é homem, né?  Tem alguma foto dele? Posso ver? Mas acelere, minha filha, que não temos o dia todo. Reparou no tamanho dessa fila? Tá todo mundo viajando, e o povo ainda vem falar em crise…

Pena. Não foi com a estampa do rapaz _Melhor não, viu? Deixe que ponho meu número, mesmo. Imagine, nem precisa agradecer. Sou canceriana, aí já viu, né? Eu me apego fácil, não tem jeito. Além disso, é voo curto. Geralmente não dá problema. Em todo caso, tem alguma preferência? Tipo: cor de flor. Últimas palavras antes de lançar ao mar. Não? Então, ótimo. Boa viagem, viu? -e acenou pra quem vinha em seguida _ Próximo!!!

Vai voar? Tem certeza?

Criatura tão boa

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_Não quero saber –  esbravejou a doida ao telefone _ Você marcou comigo, Kaiane. E com amiga, a gente não fura, viu? Dar bolo em homem, manicure ou dentista, ainda vai. Em pai e mãe, chega a ser compreensível. Mas em amiga, nunca! Que é trairagem, da grossa. E isso não aceito. De jeito nenhum…

E nada a demovia _ Batizado? Piorou! E daí que é seu único sobrinho? Madrinha? Grandes coisas. Não vai ganhar um centavo a mais por isso, pelo contrário, criança é centro de custo que só dá despesa. Escute o que estou lhe falando – pra continuar, azeda que nem limão _ nem aí se sua irmã mora nos Estados Unidos. Conheço uma galera que também mora: Mickey, Pluto, Beyoncé e Clarabela. Agora pergunte se algum deles atrapalha meus programas? Ela que venha exclusivamente pra te ver em outro dia. Ou no jantar. Que do nosso almoço, não abro mão. E pare de insistir…

Como a outra não parou, nem ela _ Qual era o trato? Almoçarmos juntas todo santo dia, enquanto Deus nos desse forças. E isso inclui os domingos. Esse próximo, principalmente. Tradição é tradição. Se quebrar, dá azar. E disso estou farta. Cheinha até as tampas. Então, não desmarco. E pronto!

Foi quando engasgou _ Cuméquié? Ainda quer emprestado meu casquete flor de laranjeira com véu perolado e miçanguinhas? Mas é muito atrevimento! Você que ouse vir atrás do meu chapéu, que vai ouvir poucas e boas. Sendo assim, até domingo. E ai de você se não aparecer – desligou, sem chance de resposta.

Deu nem dois passos e o diacho do aparelho já tocava novamente.

_Acha que não tenho nada melhor pra fazer, não, criatura? Se é por falta de roupa pra lavar, arranjo um balde lotado pra você, me entendendo?  – mas a voz não era dela. Era dele _ Otacílio? Que coisa boa, criança. A hora é ótima! Sempre – e amansou _ Será um prazer reencontrar você, meu doce… Este domingo? Perfeitamente. A gente bem que podia sair pra dançar… Sei. À noite  não pode, né?… Só almoço… – e antes que ele capitulasse _ Eu? Tranquilíssima. Compromisso nenhum. Com ninguém. Imagine… Então, tá. Combinado. Beijinho na fuça, viu? Até domingo…

Nem esperou esfriar. Discou de volta pra amiga.

_Kaiane? Ô, Kaiane, minha amiga mais amada e querida! Diga cá uma coisa, florzinha linda, lembra do casquete? Pois é. Vem com luvinha. Não sabia, não? E, surpresa! Botei tudo numa caixinha e mandando entregar. Ah, o bombom de rum é pro menino. Como que menino? O que vai batizar, ué! E daí que só tem três meses? É chocolate, não contrafilé. Dá na mãozinha que ele chupa. Não vai dirigir, mesmo. Se a mãe reclamar, paciência. Nem Cristo agradou todo mundo, minha filha. Quem dirá eu… criatura singela e tão boa…

Criatura tão boa

Um Senhor Distinto

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Na loja lotada, a grosseria deu na vista, Vestir isso? Tá maluca? Não percebe que não entra? Peça outro. Largo e frouxo em baixo. Tem preto? Melhor, disfarça. Gorda de shortinho? Era só o que me faltava…

A mocinha recuou, acanhada com os comentários do parceiro. Mas o socorro chegou. Na voz sóbria de um senhor ao lado, que aguardava pacientemente sua vez de ser atendido.

_Não devia falar assim com a futura mãe dos vossos filhos.

_Filhos? – sustentou o cabeçudo _ Nem sei se quero casar com ela…

_Mas devia – continuou o outro, tocando a moça pelo ombro _ Essa é a dama que cuidará de você quando mais ninguém o fizer. Será seu leme e pilar. O abrigo seguro nos momentos mais difíceis. Quantas ou tantas vezes você venha a precisar – e pausou.

Ao redor, ninguém piscava. De fundo, só a balconista, choramingando baixinho. Das outras moças, nada mais se ouvia. Quietaram. Duas ou três vieram sentar pertinho. Para ouvir, palavra a palavra, o que dizia aquele homem. Fleumático. Que não decepcionou.

_E ela deixará pai e mãe pra estar contigo. Sem jamais se insurgir ou pleitear. Abdicará dos próprios sonhos para assumir tuas escolhas. Provendo, dia e noite, tudo o que precisar…

O clima era de amor. Com amigas entrelaçadas e casais fazendo as pazes. Foi quando ele baixou de vez a voz e confessou.

_Também tenho esposa. E agradeço a Deus por ela. Que não é mais tão jovem, nem tão bela. Ainda assim é quem me aguenta. Criou meus filhos e netos. Arruma a casa inteira. Trata do jardim. Das minhas roupas. Dos cachorros. Faz as compras. A comidinha na hora e do jeito que eu gosto. De segunda a segunda. Sem pestanejar, nem esperar retorno. Pelo simples prazer de cuidar de mim – e secou os olhos com um lencinho, encerrando definitivamente a questão.

A audiência foi ao delírio. Explodindo em lágrimas e palmas que reforçavam a lição aplicada. Nada mais justo que nosso herói fizesse, enfim, seu pedido, Pensei numa camisolinha pra presente

Não precisou dizer mais nada. A vendedora foi e voltou num mesmo passo. Com um modelito todo branco. Bem composto. Austeridade pespontada em pura seda. Com rendas largas e sóbrias, compatíveis a uma senhora de bem.

_Prontinho: a camisola da sua esposa. E as pantufas são de brinde. Um presente nosso pro senhor. Insistimos que aceite.

_Esposa? Imagine… A camisola é pra Dagmar.

_Sua filha?

_Minha amante – e deu a receita completa _ Pensei numa vermelha. Com espartilho de couro e cinta-liga. Se bem que a danada adora rendas. Plumas, então…– e teve o insight final _ Quanto as pantufas, será que dava pra reverter o crédito em tanga? Meia arrastão, talvez…

Um senhor distinto