Quem não chora, não mama

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Dentre as mães mais célebres da história, duas ganham em disparada: a do árbitro de futebol e a outra. A hot spicy salsa parrilla: a genitora do bebê que esgoela em voo lotado. Doze horas no lombo. Enquanto os outros cento e quarenta e nove passageiros tentam loucamente fazer aquilo… qual era mesmo o nome? Ah. Tá. Lembrei: dormir!

Foi mais ou menos nessa hora, quando quase tudo irrita, que a festa começou pra valer.  

E não foi por falta dela tentar. Primeiro jogou o menino pra cima. Depois, pros lados. Então, apertou. Beijou. Choramingou junto. E nada. Quanto mais fazia, mais o bichinho gritava.

Esse não era bento. Não podia. Não do jeito que chorava. No mínimo era o sétimo filho de uma ninhada só de homens. Parido em noite de lua cheia em uma beira de encruzilhada. E nessas horas o rebento não tem pai. Já perceberam? Nem avós. Nem ninguém que goste dele ou com quem possa parecer minimamente.

E lá se foi a pobre. Chacoalhar o filhote de chocadeira no banheiro. Abafado contra o peito. Já que catapultar pela saída de emergência não se mostrava uma soluções nem um pouco razoável. Viável até era, mas razoável, jamais…

Assim o berreiro seguiu toalete adentro e noite afora. Até que… silêncio. Seguido do barulho de descarga.  Muito bem!, gritou um passageiro lá do fundo, entre surtado e esperançoso. Cruel? Porque não era você naquele A320. Se fosse meu, já teria “descargado” faz tempo. Filho a gente faz. Um atrás do outro. Quantos forem necessários. Difícil é fazer dinheiro. De resto, você diz, Vamos?,  e eu pergunto, Quando?

Mas, de volta a vaca fria, tudo que posso dizer é que o entusiasmo do colega durou pouco. A porta do banheiro foi aberta e o que se viu foi uma figura lívida e desgrenhada. Trazendo ao colo o mesmo menino. É. Aquele, com fibromialgia generalizada e apendicite supurada aguda. Mas, esperem só um minuto… de repente, acalmou. Não está mais gritando. Nem um pio que seja. Aleluia, irmãos, que o sangue de Jesus tem poder! Tá tudo amarrado, pelo santo nome do profeta!

Mas alegria de pobre não dura uma Copa. Sendo assim, dito e feito: bastou a tal dona pisar fora da casinha pro chororô voltar matando. Pior. Ele não era o único infante a bordo.

Resultado: acordaram todos. Que, assustados, acharam por bem aderir imediatamente ao concerto em andamento. Em si. Fá. Mi. Ré. Tudo estourado. Bemol e sustenido. Ótimo! Não me faltava mais nada…

Lembram do juiz que se vendeu a troco de pinga e validou um gol ilegítimo aos quarenta e cinco do segundo tempo? Pois é. Absolvido. Com honras!

E quando tudo parecia perdido, eis que… ué? Parou, de novo? Acho que sim. E lá se foram dez minutos, em um voo que era só tranquilidade. Quer dizer, caímos numa zona de turbulência extrema e tivemos que arremeter três vezes. Mas as máscaras de oxigênio funcionaram perfeitamente durante a despressurização. E o melhor: ninguém chorava. Ou ria escangalhadamente. Nem cantava cinquenta mil vezes o que a barata diz que tem, mas tem coisa nenhuma. Ufa… Finalmente irei relaxar. Finalmente vou dormir. Finalmente acendem-se as luzes da aeronave e é o capitão quem avisa que o café da manhã está sendo servido… Contei que o menino voltou a chorar? Então. Voltou…

Mãe de primeira viagem, quer apostar? Só pode. É a amplitude da cantinela quem a entrega: imagine se o caçula de quatro irmãos choraria assim? Começa que nem chora, Gato escaldado, compadre!,  se ressonar mais alto, não vai. Fica. Ali, mesmo. Em plena escala. Até aprender bons modos. Ou juntar um tanto assim de moedinhas. Esquente, não. É coisa pouca. Só o suficiente pra passagem de volta. Toronto-Guarulhos. Judiação…

Quem não chora, não mama

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