Azedou

6 Comentários

Primeiro, ele. Faceiro que só. Depois, ela. Ressabiada. Estranhando a estampa do lugar.

Ainda tentou um rebote, Não precisamos ficar se não quiser. Melhor rodar mais um pouquinho…

_Que história, mulher! Foi o Neco quem indicou, não foi? Estou pra ver cara mais classudo que esse! Elegante. Fino. Vá por mim. É coisa boa…

Lotado. Teriam que esperar. Pior. Mais tempo pra ela botar reparo em tudo.

_Viu o piso? Onde não falta, é que está soltando. Tem aranha nas paredes. E o teto está completamente esfarelado. Parece que vai ruir. Tudo aqui é tão velho…

_Comida boa é prato cheio. Além do mais, não tem nada de velho. É vintage. Repita comigo…

_Nem balcão de espera tem direito…

_Estou bem demais em pé. Bom que alonga.

_E o naipe de quem trabalha aqui?

_Quem vê cara não vê coração. E olhe o moço chamando a gente. Venha que estou com o apetite de quatro. Por aqui, ó…

Foram. Sentaram. E ela continuou.

_Viu a toalha?

_Bordadinho lindo, né?

_Puída. Isso sim. E a mesa está melada.

_Esquente, não. Chamo o “tio” e ele conserta: Ô, simpatia! Faz favor, meu querido! Um “alcoolzinho” aqui, pra nossa presidenta…

Talhou de vez ao tentar molhar o bico.

_Meu copo!

_Que tem?

_Está com batom!

_Que foi? Não gostou da cor?

_Gilson!

_Uai, gente! Não vai comer, não?

_Não fui com a cara dessa salada…

_Grandes coisas! Também não vou com a cara da tua mãe, tua irmã, tua tia, teu pai, mas engulo a tropa toda. Quietinho…

_Ah, é? Então, explique: que “coisa” é essa no meu prato? – apontando algo em desacordo com a receita.

_Calma! Primeiro devemos identificar o reino: animal, vegetal ou mineral?

Estava a ponto de perfurar-lhe os olhos com uma espátula torta de patê, quando o outro encerrou de vez a conversa.

_Será que dava pra ligar a TV? Meu time está jogando –perguntou a uma senhorinha que passava rente à mesa.

_Infelizmente os canais não funcionam. Gostaria de uma musiquinha?

Gostar, não gostou. Mas pediu as opções.

_Gilson, Gilson! Veja lá o que vai aprontar – avisou a esposa.

Nem ouviu. Imaginava-se no controle das pickups. O batidão comendo solto e a mulherada enlouquecida gritando, UOHHHHHHHHH…

Até que a tal senhora voltou. Tendo em mãos a seleção. Que não era grande. Nem boa. Composta por Boleros de Ouro, uma compilação especial, datada de 1963. A arpa e a Cristandade, instrumental de Natal, totalmente remasterizado e faixa bônus com Waldick Soriano tocando O Bife ao piano. Pan e Orfeu, uma introdução a flauta doce, com as vozes do coral de idosos Lar Frei Damião de Santa Luzia do Norte.

Recusou-se a escolher. Azar o dele, que ficou à mercê do gosto questionável da velhinha. E essa não teve dúvidas. Foi de Guantanamera. Tocada nas alturas. Pro bairro todo aproveitar.

Não satisfeita, cantou. E tirou o casalzinho resistente pra dançar. Com o povo em volta reunido. Olhando. E ele a três passadas de um enfarto. Reclamando mais que pobre na chuva. Na orelha da coitada. Que finalmente ria. Primeiro, baixinho. Depois, estourado. Até não poder mais.

_Viu a beleza? Isso que dá ouvir mulher! Culpa sua. E do Neco. Nem sei quem é pior. Tá pra nascer cabra cafona que nem esse, viu? Um jeca. Tabaréu de placenta. Isso sim é o que é…

Azedou

6 comentários sobre “Azedou

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s