O homem que morava com a mãe

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Conhece alguém que fala demais? Pois é. Como o Androvaldo, ninguém.

Já ouviu falar em papas na língua? Ele, não. Falava pelos cotovelos. O que não devia, geralmente. Arrumando encrenca. Uma atrás da outra.

Foi assim na escola.

_Ô, meu querido, não precisava – derreteu-se a professora ao receber a maçã das mãos do aluno.

_Na verdade, era minha. Pena que caiu ao chão. Tentei pegar, mas alguém chutou e foi quicando até um ninho de pombos. Catei para colocar no lixo, mas já que a senhora apareceu…

E não emendou mais.

_É uma pena, mas terei que adverti-lo. É a segunda vez que é pego flauteando pelos corredores – avisou a diretora.

_Não estava flauteando, não. Era tocaia, no duro, em frente ao banheiro feminino.

_E acha isso bonito?

_Depende. Ontem, por exemplo, dei sorte e assisti ao banho da equipe de animadoras de torcida. Mas dia desses peguei a senhora trocando de roupas, aí, foi dureza…

Suspensão. A primeira de várias. Até ser expulso.

Mas sobreviveu. E pasmem, formou-se. Chegou a trabalhar em uma clínica de ultrassonografia obstétrica. Disseram que tinha olho e tino pra coisa, o que atrapalhava, adivinhem, era a boca.

_E aí doutor, menino ou menina?

_Anatomicamente falando, o bebê é dotado de um membro. Daí, a afirmar que será um Hooligans, há uma tremenda diferença…

Quando fazia piada, então…

_Diga, doutor! O que é?

_E isso importa quando nasce morto?

_…

_Brincadeirinha!

Pior, mesmo, foi a vez da mãe desenganada.

_O que faço, doutor?

_Se fosse filho de outra, diria que é caso perdido. Mas vindo de quem vem, melhor dar um desconto. Afinal, se a senhora conseguiu, ele consegue. Eu acho…

_Como assim?

_Veja bem, a senhora é couro e osso, além de feia que só a morte e totalmente fora de esquadro. Nem por isso teus pais te abandonaram. Pelo contrário. Cresceu do jeito que dava. Até casou, não casou? Poderia muito bem ter parado por aí. Mas, não. Tinha que inventar de copular! Agora, sobrou pra mim, cuidar do ovo choco. E quer saber? Se vingou, é porque o bicho é ruim. E se é ruim, não morre. Ou demora um pouco. No meu turno é que não há de ser, disso eu tenho certeza…

Despedido. É claro.

Mulher? Não parava uma. Também, pudera. Não que fosse de botar fora, mas, de novo, culpa da bendita tramela.

_Moro com minha mãe, sim. Mas, fique à vontade. Ela não está em casa. Só não podemos demorar, pois tenho certeza que não vai gostar de você nem um tiquitiquinho. E quem gosta, fale a verdade? Apertando bem, nem eu gosto. Se bem que meu caso é diferente, que sou macho. E macho-que-é-macho, ficou sem ver mulher, pega qualquer coisa. Aí, já viu, né…

Até deparar com a Efraina. Essa tinha paciência. Jesuisssss. Como naquele dia que lhe felicitaram pela bela acompanhante.

_Que nada! Bonita é a sua, ancuda pra mais de metro! Benzadeus… Já a Efraina é a Efraina. O que se há de fazer? Nem peito tem. Nasceu sem graça, coitada. E a traseira ainda é frouxa. Meio murcha. Meio mole. Reta, sabe como é? Preste atenção quando ela anda…

Efraina ria. Achava graça de tudo, até dele. Do Androvaldo. Ainda bem, que esse não se corrigia. Nunca.

_Apaixonado, eu? Qualé… É que a gente acostuma. Só isso. E vai embarrigando, pra ver onde vai dar…

E não é que deu certo? Ao menos, parecia. Com ela de branco, ali, buquê em mãos e prontinha pra casar.

Durou pouco. Bastou o padre iniciar as bênçãos para ele vir com tudo. Morro abaixo. Como sempre.

_Foi muito bom o senhor ter perguntado, que vontade de casar, vontade doida, eu não tenho e nunca tive. Mas fica o povo todo em cima, pressionando, e quando a gente vê…

Chegou pra ela. Que sumiu nesse mundão de Deus, nosso senhor.

Quanto ao Androvaldo, voltou para a casa da mãe. Ou seja, sobrou pra santa. Menos mal. Quem sabe, sossega.

_Minha mãe? Uma chata. E velha, ainda por cima. Já viu coisa pior? Meio surda, quase cega e totalmente gasta das ideias. Um cancro, essa mulher. Juro por Deus!

E bote cancro nisso… Aff!

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