Assim, não caso

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Era só mais um casamento na Catedral da Imaculada Conceição, onde tudo corria nos conformes.

Bem quando o padre, tomado de repentino entusiasmo, dirigiu-se aos noivos nos seguintes termos_ Por isso eu vos pergunto: é de livre e espontânea vontade que viestes aqui para unir-vos em sagrado matrimônio? – assentiram, felizes da vida.

_Estais pois dispostos a receber com amor e tolerância todos os filhos que Deus assim vos confiar? – assentiram novamente. Mais felizes ainda.

_Gostaria de perguntar-te, João, na presença de tua mulher e de toda essa comunidade: tens recursos pra alimentar, vestir, educar, paramentar e custear cada um de seus rebentos sempre que estes vierem a precisar? – João confirmou

_ Sei –  retrucou o padre _E aplicado onde? CDB? Renda fixa? Se for poupança, esqueça! Não dá nem para as custas da fimose…

João tossiu e engasgou, enquanto a noiva, contrariadíssima em suas vontades, foi advertida pelo pároco _ Quantas vezes já casou? Nenhuma? Eu também não. Mas conduzi mais de quinhentos casais pelas vielas sinuosas do sacramento. Então, quietinha! Que do riscado entendo “eu” – e de volta ao noivo _Como ficamos quanto aos dobrados? Tens ou não tens?

-Tenho…

_Quanto? Que encher panela de arroz e feijão não serve! Precisa ter para as férias na Disney, para os cruzeiros no Queen Victoria e pros gondoleiros em Veneza!

_Em Veneza?

_Ué? E onde mais tem gondoleiro? Cubatão? – suspirou, desenganado _ E tu? Es homem de verdade? Desses garranchados com “H”?

_Hein?

_Ele é sempre lerdo, assim? – perguntou a Maria

_Padre! – rosnou ela _ O senhor vai ou não vai me casar?

_Credo! Que gastura, menina! Tá embuchada, é? Não? Então, sossegue! Pra que tanta pressa? Tem alguém encomendado na família? Só pode – e procurando um moribundo entre os presentes, acrescentou _Aposto cinco contra um na madrinha de vermelho. Se for o caso, já encaminho, depois fica o bônus, para quando a velha for pras cucuias

Bastou para Maria, que surtada do alto de suas tamancas brancas, decretou _Pois fique o senhor sabendo que meu João não só é macho, como é lindo, cheiroso e ganha bem, viu?

_Salário pula brejo – retrucou vossa eminência.

_E eu não dou a mínima!

_Não liga, hoje! De escovinha feita e barriguinha cheia. Quero ver quando minguar. Aí, sai da frente, que é banguela morro abaixo! – ainda fez que escorregava.

Ela desafiou_ Vivo de amor, se for preciso!

_Melhor duas latas de mucilon e um pote jumbo de colágeno…

_Meu João é diferente!

_Todos são, minha filha, todos são! Até que se inicie a primeira rodada do brasileirão

Foi a vez da parentada acudir, tomando a nave da igreja. Quem derrubou o padre, ninguém viu. Mas missionário do Sudão, não se abate facilmente.

_Depois não venha chorar ao padre, que o imprestável do seu marido mesquinhou, que deu pra cortar as unhas do pé na sala, que molha o banheiro inteiro sem ter Cristo que o faça acertar meio jato na privada, que não levanta um dedo pra… – maldição inconclusa pega? Sei não. Só sei que amordaçaram a santidade e largaram para trás. Foi descoberto mais tarde, dias depois, quando deram falta dele em uma cerimônia de batismo.

Quanto a João e Maria, houve quem contasse que foram parar numa bodega de esquina. Com a pobre debulhada em lágrimas. Num pranto lavado, de fazer transbordar o sistema do Cantareira. Enquanto isso, marido e padrinhos festavam. Mandando ver num churrasquinho de gato preto.  Desses malpassados e que a luz do dia ninguém encara, mas atoladinho numa farofa caseira, hum… Nem cachorro come…

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