A princesa do Bahrein

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Assim não é possível, emburrou ela, Vai sair? De novo?

É que às terças ele treinava. Às quartas, tocava com os amigos. Quintas, futebol. E às sextas, pôquer. E esse era sagrado! Desmarcar? Como?

Nem era culpa dele, coitado. Querer até queria. Faltava tempo. Pra ela. Que fazia biquinho e reclamava, E eu? E a gente? Assim, não dá, está ouvindo?

Difícil saber, já que ia longe.

Até a noite em que chegou mais tarde. Pisando fino e deitando de mansinho. Para levantar num pulo só, ao perceber a cama vazia e nenhum sinal da moça. Que chegou depois. Faceira e perfumada. Cansada num tanto, que foi difícil contar de onde vinha. Então, tá. Falariam na sequência.  

Pena que não deu. Trombaram no elevador. Ela saindo, ele entrando.

_Que roupa é essa? – estranhou ele _ Aonde pensa que vai?

_Pedalar com uns amigos.

_A noite?

_Até de madrugada – e foi. Ele, estatelado estava, estatelado ficou. Olhos batendo no peito e o queixo arrastando no chão.

Na noite seguinte, de novo, Ops, jantar com as meninas… Na subsequente da outra, também. Dessa vez, festinha. É. No Nando, Como quem é Nando? Meu personal, ué? Se precisar, indico, trabalha um glúteo como ninguém. Depois conto, que estou de carona com o Rui, peguete da Beth. Quem é Beth? Ah… Deixe pra lá… – e acrescentou _ Preocupe, não, que é tudo gente boa. Povinho natureba. Já viu, né? Tipo assim: bonitos, malhados e sem contraindicação – ela riu. Ele, não.

E saiu. E voltou. E saiu outra vez. Até ele pipocar.

_ Seu percurso, sua aula, seus amigos. Tudo muito bom, eu admito, mas e eu? Onde é que eu fico? – e completou _Podíamos passar a semana juntos, que tal? Viajar. Alugar uma casa na praia ou coisa parecida. Ir ao teatro. Você adora teatro, não adora?

Uhum, ela respondeu, do banheiro, enquanto se arrumava.

_Quando? Amanhã? – insistiu ele.

Pode ser, e caminhou até a porta. Ele fez questão de acompanhá-la. Pra despedir. Cheio de recomendações, Te amo, viu? E vê se não demora. Juízo…

Ela acenou. E partiu.

De resto, tudo igual. Como nas noites anteriores: entrou no carro, deu partida e não saiu. Recostou bem a cabeça e tirou da bolsa o livro. Que continuou até a parte onde o elegante doutor britânico, entre a morte e a loucura, foge para Gotemburgo, atrás da paciente misteriosa, que, aliás, tinha toda a pinta de ser seu primeiro e grande amor: a princesa desaparecida do Bahrein.

E parou por aí, que passava da hora de subir. Em casa, não desgrudaram mais. Ele era só cuidados. E perguntas.

_Então… Sentindo falta das pedaladas noturnas?

_Imagine…

_E dos amigos sarados?

_Não…

_Nem das baladinhas com as amigas?

_Nadinha…

Ótimo, pensou ele, aliviado. Afinal, abrira mão de tudo e todos para estar com ela.

Enquanto ela, na verdade, roía os dedos. Sem saber do médico, nem da princesa. Mas, não reclamava. Que relacionamento é renúncia. E cada qual que faça sua parte, não é mesmo?

A princesa do Bahrein 

Uma senhora de bem

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Outro dia, remexendo um tanto, descobriu um azulzinho em meio as tralhas do marido.
Caiu no choro, Paulo Roberto tem outra!
Fez cena. Minguou. Até surgir um fato novo. Não havia outra. O brinquedinho era pra ela.
Piorou.
Agora, ficou foi brava. Uma pimenta, Onde já se viu? Sou sua esposa, desconjurado! Isso lá é coisa que se proponha a uma mãe de muitos filhos?
_Mas, Ibraina…
_Não tem mais, nem menos! E tome tento, seu velho safado…
_Imagine só, benzinho! Horas e horas de prazer ininterrupto…
_Acha que já não imaginei? – e o arrepio veio, cruzando corpo e alma _ Ande logo. Jogue esse troço fora. Agora, mesmo! Vai, vai, vai, vai…
_Quando contei que o fulano usava, foi a primeira a achar graça!
_Ele usa com a namorada, criatura de Deus! Pergunte se incomoda a esposa com zonzeiras? Pergunte?
_E você? Que tal ser minha namorada de novo, hein? Hein?
Cruz credo, pé de pato, mangalô três vezes! E saiu. Numa benzeção danada casa afora. Com ele atrás, mascando, Pense nas vantagens, mulher! É negócio da China, escute o que estou dizendo…
Ela ligou o rádio bem alto. Na oração da manhã. E cantava junto, lavando louça e maldizendo.
Ele? Não arredou pé, moscava e insistia.
_Tenho um amigo que tomou dois de uma vez! Disse que os efeitos duraram dias…
A cena passou diante dela, que mareou. Feio. Mas, curiosa que só vendo, não resistiu e quis saber, Quantos dias?
_Três!
_Três???
_Firme que nem varal…
Não disse sim, mas, também, não disse não. E ele retomou.
_Tentar não mata. Vai que gosta…
_E o trabalho? E a janta? A casa, quem varre, posso saber?
_Quando se vê, já acabou e achou pouco. Vai por mim, que é coisa boa – e catando a pobre pelas ancas, emendou _É pá, pum e tchanananan!
Encrespou-se toda, até onde não via mais _ Cê que vá tchanananar lá pras bandas das suas negas! E quer mais? Aqui, nem morta! E deixe o padre saber disso…
_Padre? Que padre? Tá doida, Ibraina?
_Isso é safadeza, Paulo Roberto! E das grossas…
Desceu o bico, encerrando a conversa. Na mesma tarde botou fora o tal remedinho milagroso. Pra tristeza do outro, que nada pode. E ainda teve que aguentar, Na rua, a gente até entende. Mas, dentro de casa e com a própria esposa? Onde já se viu, Paulo Roberto! Sou uma senhora de bem, está me ouvindo? Uma senhora de bem…

Uma senhora de bem

O homem que morava com a mãe

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Conhece alguém que fala demais? Pois é. Como o Androvaldo, ninguém.

Já ouviu falar em papas na língua? Ele, não. Falava pelos cotovelos. O que não devia, geralmente. Arrumando encrenca. Uma atrás da outra.

Foi assim na escola.

_Ô, meu querido, não precisava – derreteu-se a professora ao receber a maçã das mãos do aluno.

_Na verdade, era minha. Pena que caiu ao chão. Tentei pegar, mas alguém chutou e foi quicando até um ninho de pombos. Catei para colocar no lixo, mas já que a senhora apareceu…

E não emendou mais.

_É uma pena, mas terei que adverti-lo. É a segunda vez que é pego flauteando pelos corredores – avisou a diretora.

_Não estava flauteando, não. Era tocaia, no duro, em frente ao banheiro feminino.

_E acha isso bonito?

_Depende. Ontem, por exemplo, dei sorte e assisti ao banho da equipe de animadoras de torcida. Mas dia desses peguei a senhora trocando de roupas, aí, foi dureza…

Suspensão. A primeira de várias. Até ser expulso.

Mas sobreviveu. E pasmem, formou-se. Chegou a trabalhar em uma clínica de ultrassonografia obstétrica. Disseram que tinha olho e tino pra coisa, o que atrapalhava, adivinhem, era a boca.

_E aí doutor, menino ou menina?

_Anatomicamente falando, o bebê é dotado de um membro. Daí, a afirmar que será um Hooligans, há uma tremenda diferença…

Quando fazia piada, então…

_Diga, doutor! O que é?

_E isso importa quando nasce morto?

_…

_Brincadeirinha!

Pior, mesmo, foi a vez da mãe desenganada.

_O que faço, doutor?

_Se fosse filho de outra, diria que é caso perdido. Mas vindo de quem vem, melhor dar um desconto. Afinal, se a senhora conseguiu, ele consegue. Eu acho…

_Como assim?

_Veja bem, a senhora é couro e osso, além de feia que só a morte e totalmente fora de esquadro. Nem por isso teus pais te abandonaram. Pelo contrário. Cresceu do jeito que dava. Até casou, não casou? Poderia muito bem ter parado por aí. Mas, não. Tinha que inventar de copular! Agora, sobrou pra mim, cuidar do ovo choco. E quer saber? Se vingou, é porque o bicho é ruim. E se é ruim, não morre. Ou demora um pouco. No meu turno é que não há de ser, disso eu tenho certeza…

Despedido. É claro.

Mulher? Não parava uma. Também, pudera. Não que fosse de botar fora, mas, de novo, culpa da bendita tramela.

_Moro com minha mãe, sim. Mas, fique à vontade. Ela não está em casa. Só não podemos demorar, pois tenho certeza que não vai gostar de você nem um tiquitiquinho. E quem gosta, fale a verdade? Apertando bem, nem eu gosto. Se bem que meu caso é diferente, que sou macho. E macho-que-é-macho, ficou sem ver mulher, pega qualquer coisa. Aí, já viu, né…

Até deparar com a Efraina. Essa tinha paciência. Jesuisssss. Como naquele dia que lhe felicitaram pela bela acompanhante.

_Que nada! Bonita é a sua, ancuda pra mais de metro! Benzadeus… Já a Efraina é a Efraina. O que se há de fazer? Nem peito tem. Nasceu sem graça, coitada. E a traseira ainda é frouxa. Meio murcha. Meio mole. Reta, sabe como é? Preste atenção quando ela anda…

Efraina ria. Achava graça de tudo, até dele. Do Androvaldo. Ainda bem, que esse não se corrigia. Nunca.

_Apaixonado, eu? Qualé… É que a gente acostuma. Só isso. E vai embarrigando, pra ver onde vai dar…

E não é que deu certo? Ao menos, parecia. Com ela de branco, ali, buquê em mãos e prontinha pra casar.

Durou pouco. Bastou o padre iniciar as bênçãos para ele vir com tudo. Morro abaixo. Como sempre.

_Foi muito bom o senhor ter perguntado, que vontade de casar, vontade doida, eu não tenho e nunca tive. Mas fica o povo todo em cima, pressionando, e quando a gente vê…

Chegou pra ela. Que sumiu nesse mundão de Deus, nosso senhor.

Quanto ao Androvaldo, voltou para a casa da mãe. Ou seja, sobrou pra santa. Menos mal. Quem sabe, sossega.

_Minha mãe? Uma chata. E velha, ainda por cima. Já viu coisa pior? Meio surda, quase cega e totalmente gasta das ideias. Um cancro, essa mulher. Juro por Deus!

E bote cancro nisso… Aff!

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Assim, não caso

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Era só mais um casamento na Catedral da Imaculada Conceição, onde tudo corria nos conformes.

Bem quando o padre, tomado de repentino entusiasmo, dirigiu-se aos noivos nos seguintes termos_ Por isso eu vos pergunto: é de livre e espontânea vontade que viestes aqui para unir-vos em sagrado matrimônio? – assentiram, felizes da vida.

_Estais pois dispostos a receber com amor e tolerância todos os filhos que Deus assim vos confiar? – assentiram novamente. Mais felizes ainda.

_Gostaria de perguntar-te, João, na presença de tua mulher e de toda essa comunidade: tens recursos pra alimentar, vestir, educar, paramentar e custear cada um de seus rebentos sempre que estes vierem a precisar? – João confirmou

_ Sei –  retrucou o padre _E aplicado onde? CDB? Renda fixa? Se for poupança, esqueça! Não dá nem para as custas da fimose…

João tossiu e engasgou, enquanto a noiva, contrariadíssima em suas vontades, foi advertida pelo pároco _ Quantas vezes já casou? Nenhuma? Eu também não. Mas conduzi mais de quinhentos casais pelas vielas sinuosas do sacramento. Então, quietinha! Que do riscado entendo “eu” – e de volta ao noivo _Como ficamos quanto aos dobrados? Tens ou não tens?

-Tenho…

_Quanto? Que encher panela de arroz e feijão não serve! Precisa ter para as férias na Disney, para os cruzeiros no Queen Victoria e pros gondoleiros em Veneza!

_Em Veneza?

_Ué? E onde mais tem gondoleiro? Cubatão? – suspirou, desenganado _ E tu? Es homem de verdade? Desses garranchados com “H”?

_Hein?

_Ele é sempre lerdo, assim? – perguntou a Maria

_Padre! – rosnou ela _ O senhor vai ou não vai me casar?

_Credo! Que gastura, menina! Tá embuchada, é? Não? Então, sossegue! Pra que tanta pressa? Tem alguém encomendado na família? Só pode – e procurando um moribundo entre os presentes, acrescentou _Aposto cinco contra um na madrinha de vermelho. Se for o caso, já encaminho, depois fica o bônus, para quando a velha for pras cucuias

Bastou para Maria, que surtada do alto de suas tamancas brancas, decretou _Pois fique o senhor sabendo que meu João não só é macho, como é lindo, cheiroso e ganha bem, viu?

_Salário pula brejo – retrucou vossa eminência.

_E eu não dou a mínima!

_Não liga, hoje! De escovinha feita e barriguinha cheia. Quero ver quando minguar. Aí, sai da frente, que é banguela morro abaixo! – ainda fez que escorregava.

Ela desafiou_ Vivo de amor, se for preciso!

_Melhor duas latas de mucilon e um pote jumbo de colágeno…

_Meu João é diferente!

_Todos são, minha filha, todos são! Até que se inicie a primeira rodada do brasileirão

Foi a vez da parentada acudir, tomando a nave da igreja. Quem derrubou o padre, ninguém viu. Mas missionário do Sudão, não se abate facilmente.

_Depois não venha chorar ao padre, que o imprestável do seu marido mesquinhou, que deu pra cortar as unhas do pé na sala, que molha o banheiro inteiro sem ter Cristo que o faça acertar meio jato na privada, que não levanta um dedo pra… – maldição inconclusa pega? Sei não. Só sei que amordaçaram a santidade e largaram para trás. Foi descoberto mais tarde, dias depois, quando deram falta dele em uma cerimônia de batismo.

Quanto a João e Maria, houve quem contasse que foram parar numa bodega de esquina. Com a pobre debulhada em lágrimas. Num pranto lavado, de fazer transbordar o sistema do Cantareira. Enquanto isso, marido e padrinhos festavam. Mandando ver num churrasquinho de gato preto.  Desses malpassados e que a luz do dia ninguém encara, mas atoladinho numa farofa caseira, hum… Nem cachorro come…

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