Pé de Valsa

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_Ah, vai… Não pode ser tão ruim assim – insistiu ela.

Mas era. Pior. Muito pior. Imagine só: trocar os amigos, uma final de campeonato e todo o chope que pudesse beber, por uma aula estúpida de dança de salão. Só ele pra cair na conversa mole dela. Raios…

Preferia estar morto, fulminado, que ali. Repetindo e voltando a repetir: abre, fecha, dois pra cá, dois pra lá e puxa e gira. Ou seria fecha, puxa, dois pra cá, um pra lá e gira e volta? Peraí! Melhor um pra cada lado e gira e pronto. Quer saber? Esqueça tudo e gire. Vá girando. Quem sabe ela enjoa e desiste.

_Ai! Meu pé – reclamou ela.

_Hein?

_Está pisando no meu pé!

_Sabia que não ia dar certo! Melhor parar por aqui…

_De jeito nenhum – rebateu _Tudo bem. Respire fundo e tentamos de novo. Assim… Bem melhor… Bem melhor, mesmo… Ei! Ei! Meu braço! Está torcendo o meu braço…

Ele bufava e arrastava as pernas. Manquitolando de propósito. Na maior má vontade. Não que isso fizesse muita diferença, pois estava para o requebrado, como o Leandro Hassum, para o salto em alturas.

Ela posava de sonsa. Defendia com unhas e dentes que o casal que dança unido, vive unido e coisa e tal. Ele podia coicear à vontade, que ela nem ligava.

_Vou ensinar uma coisa – segredou _ Quando tenho dificuldades com uma sequência, penso que meu pé direito é um lindo batom cor-de-rosa e o esquerdo, um batom vermelho. Aí, é só alternar os passinhos: rosa, vermelho, rosa, vermelho – e seguia ensinando e dançando, didaticamente_ Que batom vou querer hoje? Rosa, vermelho, rosa, vermelho…

Ao que ele rosnou, sem a menor paciência _Cê veio aqui dançar, ou vender Avon, hein?

_Sabe o que te falta? Bom humor. Mas não esquente! Matriculo a gente em um intensivão de Zumba. Quatro semanas que passarão voando…

O quê? E o society, onde fica? Poria um fim aquilo tudo. De uma vez por toda. Sendo assim, foi magistral.

_Aiiiiiii…

_Que foi?

_Meu ombro!

_Que tem o seu ombro?

_E eu que sei? Não sou ortopedista, ora bolas! – e fingindo mais dor ainda _ Ai! Ai! Que peso, Deus do céu…

_Peso?

_É… Um peso que se alastra, sabe como é? Não dá nem para mexer…

_Tadinho! – murchou ela, sentindo-se culpada _Melhor sentar, benzinho…

_De jeito nenhum! E deixar você sem par? Nunca!

_Tudo bem. Danço sozinha…

_Tem certeza?

_Claro!

Sentou. Quietinho. Mas por dentro gritava, Goooooooooooool!

Só que foi contra. Mas ele ainda não sabia. Percebeu quando botou os olhos no professor de dança. Um moreno cor do pecado. Que se contorcia como um capeta, enquanto a mulherada parecia derreter. Piscando e gemendo. Suplicando por um tiquinho a mais de contato. Todas. Umas bestas! Babando por um pé de valsa suburbano e qualquer. Que não negava fogo. Catracando e esfregando com fome e fé. De sirigaita em sirigaita. E já era quase a vez da mulher dele…

Não teve dúvidas. Arrancou a pobre dos braços do vida mansa e saiu. Coxeando pelo salão.

_Ué? Melhorou? – estranhou a outra.

_Pois é.

_Assim? Do nada?

_Que coisa, né, menina? Milagre. Só pode… Aleluia!

_E o peso nos ombros?

_Melhor nos ombros que na testa. Agora feche a matraca que preciso me concentrar: batom rosa, batom vermelho, batom rosa, batom vermelho, rosa…

E foi que foi. Trombando em meio mundo. Num samba desarranjando do crioulo doido, que dava gosto de ver…

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