Nem Morta!

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Abriu a porta e deparou com ele. Um anjo. Pior, veio levá-la.

Injuriou-se _ Isso lá são horas? E que papinho baixo astral, hein, colega? Até parece a Odete. A futriqueira do 62. Se tem alguém que não presta nesse prédio é ela. Conhece? Mora nos fundos, peituda, encurvada, feia…

E a bronca continuou. Com ele, ali, parado feito dois de paus _ Tem certeza que é comigo? Justo eu, que sou tão boa. Tão UNICEF… Ainda se fosse com a imbecil da Odete. Vai que errou de porta…

Checaram tudo. E confere. Minhas condolências, foi o que ouviu ele dizer.

Fungou, ressentida _E o que vai ser? Fígado, pâncreas, diabetes, enfisema – e levando a mão ao peito, advertiu _Tá ouvindo? Chiado feio, né, rapaz?  Bronquite crônica. Sempre tive. Se quiser, podemos deixar evoluir. Que tal? Nuns três anos você volta, e aí…

O outro não se movia.

_Tem mais. Eu enjoo. Viagem longa, então – puxou de novo a papeleta que o enviado tinha em mãos _ Corredor? Nem pensar. Só vou se for janela. Cês não tem assento conforto, não?  E o lanche, o que é que servem? O lugar, como é que é? Ah… Será que não tem nada mais animadinho aí, nesse seu cardápio? Sei lá. Achei meio paradão. Quem ia adorar era a Odete…

Sem acordos. Ela suspirou e ele ofereceu o braço. Fez que ia, mas voltou.

_Vou nada, menino, que ainda nem fiz mala! Justo eu, que gripo à toa… Chove muito? Venta? Então vou levar biquíni. Não pode? Credo! Tô falando. É a cara da Odete…

E constatou, horrorizada _ Minhas unhas! Todas roídas, olha? Sempre assim. Se não faço, quebra! Pra hoje? Esqueça que não tem hora. Semana que vem, quem sabe… Não fosse isso, eu ia. Juro! Quando for assim, tem que avisar uns dias antes. Que é pra marcar banho de lua, hidratação, depilação frente e verso. Quem disse que não vou usar? E desde quando anjo entende dessas coisas? Aliás, conte aqui para gente: vocês são hermafroditas ou põem na conta do livre arbítrio? Porque bonito, bonito no duro, nem é, viu? Mas do jeito que as coisas andam por aqui… Tem irmão? Vizinho? Turma de biriba?

Não calava mais. Um só minuto que fosse. Se fazendo íntima, apalpava com curiosidade o apêndice penoso do emissário – Coçam muito, é? Tem que esperar brotar ou vendem como aplique? Jura? Passa fácil por faisão, sabia? Só trocava o branquinho pálido por um cítrico degradê. Talvez umas pedrarias. Lâmpadas de led. Fico até imaginando, nós dois, em fevereiro: mestre sala e porta bandeira, levantando a Sapucaí…

Repensou _ Quer saber, acho que nem assim, viu? Tenho tantos projetos. Tanto ainda por realizar. Uma infância difícil. Adolescência conturbada. E tudo isso, pra quê? Se nem crismei minha filha! Cheque de novo, benzinho, faz favor. Deve ter alguma coisa errada nessa sua tabuleta…. Os céus jamais negariam a dádiva de um sacramento a uma mãe abnegada, negariam?

E chorava. Apoiada no anjo e aos prantos derramados. Até que o iluminado arrefeceu.

_Falta muito pra crismar a sua filha?

_Nada (o que são quinze ou vinte anos pra quem tem a vida eterna, não é mesmo) …E nem se preocupe! Tenho tudo amarrado – e completou_ Já estou de olho num fulano. aqui a foto, ó! Testão, né? Italiano. Conheci no facebook. Ele ainda não aceitou ser meu amigo. Mas continuo mandando recados. Lindo, né? Ah, vai… Que custa! Deixe eu casar primeiro. Embucho fácil, vai ver! Se não, faço inseminação e embarrigo logo de uns quatro. Aí é só voltar no batizado e ceifar de balaiada. Tios, primos, concunhados. Vai ser uma partida emblemática. Uma festa! Prometo…

Dessa vez não esperou resposta. E despachou o serafim porta afora.  

_Agora, some! Que é pra não se atrasar…Vai em paz, viu? Elevador? quebrado. Melhor escada. Vinte e oito andares. Esquente, não. Pra descer todo santo ajuda. Isso…

O outro prometeu voltar. Em quinze dias. Sem choro, nem vela.

Melhor que nada. Mal ele sumiu, catou o gato, duas calcinhas, meia dúzia de apetrechos e pernas pra que te quero. No caminho encontrou a Odete, que estranhou a pressa toda.

_Sabático, menina! Última moda.  Três meses aqui, seis acolá. Nunca tinha ouvido falar, não? Uma beleza, vai por mim.  Tô em dúvida entre o Iêmen, o Congo e a Ucrânia. Mas quando souber direitinho, eu aviso, claro! – e num abraço apertado, sugeriu_ Troque, boba!  Moro de frente. Um quarto a mais. Além do que bate sol o dia todo. vai amar! Fiadora, eu? E precisava perguntar? Amore

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É Hoje…

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Mais ouriçados que eles, ninguém. Também, pudera. Havia décadas que não faziam. Como, o quê? Sexo, é claro.

Vontade até que tinham. Faltava tempo, sossego e oportunidade. Mas, eis que o improvável aconteceu. Com as crianças dormindo cedo e pesado. Deixando os dois ali. Faceiros. Num resfolego da moléstia.

Foi um tal de, Vai! Vai! Vai!, e, Vem! Vem! Vem!, com, Mais pra lá! Passou! Distorça tudo e volte, que quem ouvia jurava que estacionavam uma cegonheira, numa vaga para monociclos.

E olhe que começaram pelo básico. Em um dois pra lá, três pra cá, impossível de errar. Bem por isso, ela reclamou. Queria mais. Rojões, morteiros coloridos e sininhos tilintando.

Recorreram aos áureos tempos de namoro. Onde nada escapa, tudo pode e quanto maior o cheiro de encrenca, melhor. Se bem que não dispunham mais daquela elasticidade toda. Nem da forma. Ou destreza. Enfim. O que daria errado em uma noite auspiciosa como aquela?

_Que cara é essa? – estranhou ela.

_Qual era, mesmo, o nome daquela posição que você adorava? – respondeu ele, mal-intencionado até o caroço.

Ela riu _ Qual? A Viga Inclinada ou a Ponte Suspensa. Será que a gente ainda lembra?

_Moleza! É só pôr o seu pé direito no chão, sua perna esquerda pra cima, meus dois braços espalmados por baixo e as cabeças pendendo inclinadas…

_Não! Essa é o Caranguejo Reverso Rastejante! Falava daquela onde a sua perna vai por baixo, minha barriga por cima, seu tronco virado pra trás, enquanto prendo seu pescoço com meus pés, assim, ó…

Ao que ele deu o alarme _ Nãaaaaaaaaaaaaaaao!

_Credo! Que foi?

__Meu deltoide! Tá pinçando o meu deltoide!

__Se tentarmos outra? Você bem que gostava da Mula Manca Sentada, hein? E tinha aquela, também: a Misteriosa Flor de Lotus Dourada na Tromba Torta do Elefante Africano

E antes que ele assentisse, ela já distribuía funções _Vamos lá! Eu ajoelho, aqui. Você fica de lado, ali, apoiando seu cotovelo esquerdo bem no meio do meu plexo solar, assim! Enquanto centro a base da minha coluna no hemisfério posterior da sua…

_Aiiiiiiiiii…

_Mas será o Benedito?

_Meu bíceps! Travei meu bíceps! Ou será que foi o tríceps?

Relevou pra não perder o marido, nem a noite de regalos e fantasias. Outra assim, só em mil anos. Ou se o Flamengo for campeão. Vai saber, né?

Ele, preocupado, resolveu acelerar _Não tem algo mais simplinho que dê pra gente fazer, não?  Tipo arroz com feijão de panela de barro. Bem temperadinho…

_Algum problema com o meu arroz com feijão?

Lascou-se.

_Se tiver, fale. Não me venha com indiretinhas gastronômicas…

Alerta vermelho! Alerta vermelho! Ele que não era bobo, nem nada, preferiu não arriscar.

_É o melhor feijão do mundo. Refeição pra mais de dez talheres. E venha cá que eu…

_Venha cá, uma ova! Ontem, mesmo, peguei você separando. Comeu arroz puro. E eu vi!

Vixi…

_Exagerou no louro. Pronto. Falei – pontuou o tinhoso.

_Arrá! Se fosse na sua mãe, aposto que lambia a panela.

_Lá vem você implicando com a minha mãe…

_Meu feijão tem louro demais? Onde já se viu! Pois fique sabendo, que o feijão da sua mãe tem mais folhas que minha salada completa. E você reclama? Nãaaaaao!

O esfrega teria seguido noite adentro, não fosse a movimentação extra vinda do quarto dos meninos. O barulho fez com que voltassem a vida e a ordem: Escute aqui, que tal abandonarmos essa história de Elefante Com Trombose e ir logo ao que interessa?

Papai e mamãe? Fechado! Além do mais, combate os radicais livres. Melhora o tônus muscular, o humor e não engorda.  Perfeito. Não fossem pelos passinhos arrastados e a vozinha inconfundível, Ô, manhê!

Congelaram. Depois foi um tal de cobre, ajeita e esconde que, por pouco, não caíram da cama.

_Cadê o lençol?

_Que lençol?

_Aquele que você arremessou jardas além no meio da sua bendita Ponte Levadiça…

_Era Ponte Suspensa! E se alguém perdeu o lençol, foi você com seu Boitatá de Cócoras…

_Mula Manca Sentada! Mula Manca Sentada!

Como a ordem dos fatores não altera o produto, continuaram sem um mísero paninho para encobrir. Nem um lencinho umedecido pra chamar de seu.

A mãe apelou pro berro a distância_ Já pro seu quarto! E ligue a TV. Bem alto!

Acho que sossegou. E aí, vamos? Opa! É agora ou nunca…

E bem na hora do quase, ao invés do OOOOOOOOHHHHHH, veio um UUUUUUUUIIIIIIIIII.

 _ Meu supino! Estirei meu supino!

_O que eu faço? Paro?

_Nunca! Jamais! Só chegue um pouquinho mais pra lá… – e ela obedeceu, prontamente. Sem saber que era a vez do menor acordar, Manhêeeeeeeee…

Ignore-o, ordenou ele.

_Mamãezinha!

Continue ignorando, implorou, em completo desalento.

_Fiz xixi na cama. Todinha. Cocô, também…

E abriu o maior berreiro. Altíssimo. Em si bemol sustenido e estourado. Que só parou depois do banho. Quando deitaram os quatro juntos. Com os moleques no meio. E o casal se olhando. Cada qual numa pontinha. Imaginando quão longo um milênio poderia ser. E o Flamengo? A quantas andaria no campeonato, hein? Alguém sabe? O que vier primeiro, atende. Alguém? Qualquer um…Imagem

Brasilianadas

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Oi, seu gringo!

Está chegando o grande dia, né? Eu? Prontíssima! Os aeroportos é que não. Nem a infraestrutura no entorno dos estádios. É um ajuste aqui, um telão que falta ali, e meia dúzia de cadeiras pra instalar acolá.  Mas de resto, botei água no feijão e roupa de missa. Então, se é um desses que ainda não desistiu, venha!

Mas venha com fé. Em paz e com a carteirinha de vacinação em dia, por favor. Como disse o grande filósofo (ou foi um mc funkeiro qualquer, eu agora não me lembro), cada um no seu quadrado. Ou, pondo em miúdos, fique com sua vaca louca pra lá, que mantenho minha febre tifoide pra cá. Só não esqueça as figurinhas, que o álbum eu já comprei. O que não comprei ainda, foi essa história toda de copa. Mas passa, viu? E a gente engole. Depois torce. Que o coração é brasileiro, tadinho. Desses que adoram samba e sofrem com a situação do jeito que está.

Ah! Traga capote, que em junho chove. Sempre. A cântaros, ou privadas. Fenômeno que nossa rede de estações meteorológicas tem ainda certa dificuldade em prever, já que o evento parece interligado a áreas restritas do Recife. Mais especificamente nas cercanias do Estádio do Arruda.  Vai à Arena Pernambuco? Tudo bem. Fica longe. Mas prefira áreas cobertas. Na dúvida, já sabe: um olho no jogo, outro no céu. E adquirindo hoje, mesmo, seus ingressos, você leva para casa um lindo par de capacetes. E ainda recebe a novíssima Guinsu Fifa 2014. Suas lâminas com duplo serrilhado cortam balas, pregos e descascam fios elétricos, além de enfrentar torcedores de uniformizada com precisão e habilidade. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. O boleto é falso, isso você já sabe. Não perca mais tempo. Oferta limitada, enquanto durarem os estoques dos cambistas.

Vai pra São Paulo? Rio? Com a falta d’água, aqui o problema é outro. Numa estiagem da moléstia. Mas não ficamos atrás quando o assunto é emoção. Procurando adrenalina? Veio ao lugar certo! Sua família vai tremer da cabeça aos pés. Temos arrastões de todos os tamanhos. E nem precisa fastpass. Mas não se preocupe, que só atiram em quem reage. Outra coisa, antes de sair de casa, não custa nada uma sapiada na net. Só pra garantir. Vai que acordou com cara de bandido procurado, justo hoje! Culpa sua, tanta gente de bem pra se parecer… Que somos hospitaleiros, você sabe e todo o mundo, também. O que não temos é segurança. E cansados de tanto apanhar, um belo dia, começamos, também, a bater. Se for de carro, atropelamos. Se for na mão, o linchamento é quase certo. Perdeu? Não deu nem para dizer, Benfeito? Esquenta, não. Mais tarde eles passam na TV. Facebook. Whatsapp. Enfim…

Hein? Será que dava pra falar mais devagar? É que meu inglês não anda lá essas coisas. Mas soube de umas putas que até falam direitinho. Com curso pago e todo o mais. Onde aprenderam a dizer o quanto cobram e as diferenças básicas entre o kiss e o fuck. E que o primeiro é barato. Negócio de mãe pra filho. Já o segundo é velho conhecido da casa. E acomete a todo trabalhador honesto brasileiro. Mas esse é much. Much more expensive.

E desculpe se encerro o papo assim, na correria. É que com tanto feriado encavalando em dia santo, anda meio difícil para o ano engrenar. Experimente juntar copa, carnaval, natal e eleição, para ver o que é que sobra. Abandono de emprego institucionalizado subscreve justa causa? Vai saber…Perdeu foi a graça. Ouvi contar de sindicato articulando greve nas férias, só pra manter o costume. E tem ainda os dias de licença, que esses são clássicos. Ou hemorrágicos. Com doença pra escolher e repetir, já que mosquito a gente tem de sobra. O que falta é tempo, médico e hospital. Então, se me dá licença, vou correr, que hoje é dia útil. Pena que é meio expediente. É… Ordens do PCC. Medo? Eu? Imagine. Eles só depredam ônibus e quase sempre dá tempo de descer. Mas com carro blindado eles não mexem. Por falar nisso, onde está o seu? Ah… Não tem, não, né? Sei… Acreditou no BRT, foi? Xi…Imagem

Confraria do Leite Azedo

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Branca. Preta. Alta. Baixa. Nasceu, bastou: virou filha de Maria.

Mas o tempo passa. A fila anda. E, um belo dia, quem era filha vira mãe. Sem muito floreio ou tempo para adaptações. Só sabe quem migrou. E virou sócia benemérita desse clã tão afamado.

Nem adianta pleitear, que isso é coisa de eleita. De pelega arretada. Que bufa, mas não entrega. Arrastando o barrigão de um lado ao outro e achando graça de tudo. Do pé que virou pãozinho. Dos enjoos. Da papada extra e até das câimbras (pior que isso, só a vontade insana de comer feijão frito com geleia de jaca. De pote. De noite. E bem na hora que cai a chuva, é claro…)

Somos mais que uma irmandade. Uma rede indissolúvel de entrega e amor sem estribeiras. E como em toda entidade moderna, aqui também não se usam uniformes. Então, pela milésima vez, não! Não usamos anel da Barbie por opção. Sabemos que bolsinha pink-groselha não combina com vestido sequinho na altura do joelho. E que, não por acaso, salto agulha e capa de super-herói são itens vendidos separadamente. Mas não se preocupem, mãe é assim mesmo. Com traços e manchas comuns a estipe.

Façamos um teste. Quer saber quem sou? Fácil. É só procurar: provavelmente estarei com a mesma blusa de ontem. Descabelada ou de rabinho. Num ombro, mochilas e mochiletes pisca-piscando. No outro, um pivete a tiracolo. Sempre. Agora olhe para baixo. Isso. Com mais dois, pendurados e rebocando. Um pra cada canela. Viu só, que beleza? Assim equilibra. E no final, ninguém se perde. Prático, não?

Igual a mim, milhares. Mais pra coesas, que pra elegantes. Zanzando soltas por aí. Enlouquecidas. Em todos os sentidos e direções. Sempre dois segundos à frente. A tempo de evitar que eles aprontem. Que se machuquem. Que atravessem a rua sem olhar. Ou comam aquilo que caiu ao chão (a não ser, é claro, que seja inevitável. Aí, minha cara, assopre bem e entregue a Deus. Vai por mim, que ele cuida…)

 E creia ou não, somos lindas. Mesmo que um pouco fora de forma. Ou de medida. Mas, ainda assim, lindas. E assoberbadas. Sempre correndo. Sempre cuidando. Sempre com pressa. Sempre cansadas. Sempre com culpa. Sempre queridas. Sempre prontas para abrir mão do que quer que seja por qualquer um deles.

Nessa confraria, pouco importa o que perdemos. Se somos as últimas, ou quantas vezes ficamos para trás. Quem liga? Me diz? Eu? Esqueça. Que não entendo de arte, mas admiro um bom bigode de suco.  Sou toda fresca, mas dou a vida em troca de um beijo melado do moleque mais fedido. Sem falar nos montes de papéis borrados que penduro pela casa e onde ninguém lê mamãe- te- amo. Só eu…

Sei também que não tem volta. E vem com pacote completo. Cólicas, fraldas, festinhas em buffets e o fim dos cochilinhos aos domingos.  E quer saber? Até que gosto das minhas olheiras. Deram um certo ar nouveau a essa pessoa que vos fala…

Temos filhos, oras bolas. E eles são marrentos. Dengosos. Birrentos. E amados além de qualquer proporção, métrica de tempo e distância. Enquanto houver sangue, vida, paciência. Ou até calejar o coração.

Dizem que amor de mãe resiste a tudo. Saudade, ausência, maresia e radiação. E que não morre. Volta ao início. Ao dia em que alisei de leve aquela barriga. Perdidamente em ti aconchegada. Pra não voltar a ser quem era. Nunca mais. Por pura e simples opção.

Quem é mãe, sabe. Que ganhou a vida. Que ganhou na loto. Que acertou em cheio. E não sei quanto a vocês, mas pra mim, parece ótimo. Melhor que tudo que podia imaginar.

Mãe. É o que sou. E sou feliz assim. Por mim, por eles e independente deles. E mesmo se doer. Já que não é dom, nem sina. E não tem jeito, nem conserto.

E tudo que sei na vida é amar esse menino. Hoje e sempre e tanto e muito. Com que orgulho. E com que felicidade…Imagem

Alguém pra indicar?

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De um lado, ela. Empregada doméstica, com mais tempo de carteira do que tenho de história. Do outro, a fina. Sem ninguém há mês e meio (e uma pilha sobre-humana de roupas pra passar). Em uma entrevista que seguia bem, até a madame dar com a língua nos dentes.

_Sempre tive empregadas. Muitas…

_Empregadas? Sei…

_Secretárias! – corrigiu prontamente _ Inclusive a última era tão talentosa que registrei como assistente administrativa sênior! Uma beleza…

Ao que a outra cuspiu de volta _ Isso é o que vamos ver. Prossiga…

_Não tem quem não goste lá de casa – e seguiu marketeando _ De dia, sou só eu. E não sou dessas que pegam no pé, viu? Longe de mim ficar palpitando, nem me metendo. Eu, hein…

_E o marido?

_Esse chega tarde, coitadinho. Isso quando vem. De qualquer modo, é desses que não reclamam de nada. Que comem qualquer coisa e não ligam pra roupa muito bem lavada, não. É como sempre digo ao meu filho…

_Filho?

_Mas já fez quatro. É praticamente um moço, que se vira sozinho e não dá um pingo de trabalho…

A resposta veio. Direta e reta _ Eu não gosto de crianças. Até cuido, mas os honorários são outros. Os benefícios, também. E criança doente é bandeira dois. Fora os adicionais: por insalubridade, periculosidade, licença prêmio e previdência dois por um.  Em caso de virose, trabalho seis e folgo quarenta e oito. Fui suficientemente clara com você? – e emendou _A que horas é o café?

_Gentileza sua, mas nem se preocupe com isso…

_Não, minha filha. O café é pra mim.  Aliás, não tolero manteiga. Só cream cheese. E no pão preto integral. Passado na chapa, bem de levinho. Por falar nisso, e o almoço? Como costumam fazer?

_Deixo legumes e verduras separados de véspera. É só cortar e refogar…

_Eu não cozinho!

_Não?

_Olhe, acho que está havendo uma inversão de papéis por aqui: a cozinha é por conta da madame. No mínimo, um cardápio leve e equilibrado, a base de tomates frescos, filés de anchova e queijo de cabra em conserva de azeite. Hummm… E se lambuzar a pia, limpe! Que é pra largar mão de ser lambona – e entrou de sola _Não lavo banheiro!

_Hein?

_Fui eu que sujei?

_Não. Mas eu pensei que a senhora…

_Senhora está no céu. Eu sou dona. E essa dona aqui, toda sexta-feira, sai às quatro. Em ponto!

_Mas é que justo às sextas-feiras eu…

_Não tem mais, nem menos. O combinado não é caro. Por falar nisso, qual a sua religião?

Pensou três vezes antes de responder_ Somos católicos. Do tipo discreto. Ecumênico…

_Bom saber. Sou messiânica-quimbandista e gosto de deixar minhas oferendas espalhadas pela casa. Até que enfeitam, viu? E ainda desanuviam a aura…

_Dá-se um jeito. E prometo que o cachorro não chega nem perto…

_Cachorro?

_É. Tenho um. Branquinho…

_Tinha.

_Como assim?

_Não trabalho em casa com animal. Pena, né? Estávamos indo tão bem…

_ Deve haver alguma forma de resolver essa situação – implorou, desesperada.

_Claro. Torce!

_O quê?

_O pescoço.

_Como?

_Simples. Com as duas mãos. Com uma você esgana. Com a outra, estala. Pronto. Estalou, morreu. A propósito, você fuma? Não? Ótimo! Eu fumo. Mas odeio cheiro de cigarro nos outros, engraçado, né?

E a entrevista chegou ao fim _Trouxe seus comprovantes de renda? Antecedentes criminais? Ótimo. E as referências, cadê? Certo. Vou ler com calma e fazer meus apontamentos. A segunda fase é uma dinâmica de grupo. Agora, se me der licença… – e despachou a pomposa. Que foi. Coração entre os dentes e torcendo.

Enquanto a outra, perdida num mundaréu de fichas, reclamava, Gente! Como pode? É uma pior que a outra. Qualificação? Nenhuma! Patroa boa, hoje em dia, só com indicação. Mesmo assim, tem que fazer vista grossa. Ou trazer da roça e pôr no jeito. E tem quem diga que o difícil é arrumar marido. Tá. Vai nessa… Eitâ, crise braba, sô!

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