Comia ou não comia?

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No primeiro dia Deus criou a terra. No segundo, céus e águas. E assim foi, no maior rebuliço, até o sétimo, quando descansou. Mas espere só um momento! Como assim? E o que veio depois? Recesso? Aposentadoria proporcional por tempo de contribuição?

Qual nada! Ouvi dizer que voltou à carga. Fez melhorias. Reestruturou. Reviu custos e prazos. Até que lá pelo vigésimo quinto dia, superando toda e qualquer expectativa, criou as amigas. E não pensem que foi fácil, não. Tem até quem diga que Ele demorou. Tivesse pensado nisso antes e nossa história seria diferente. A começar pela Eva, pobrezinha…

Se tivesse amigas, aposto cem contra um que o tal fruto proibido ainda estaria lá. Intacto da Silva. Mas deixaram a moça sozinha. Cercada de bichinhos sonsos (ainda se fossem aqueles, figurantes da Disney, que cantam, dançam e limpam a casa todinha. Mas, não) e tendo como única companhia esse tal de Adão. Que a tomar por relatos próximos, era um estrepe.

Moreno, virtuoso, peitoral no jeito. Mas um jeca. Que vivia escorado e achava pecado em tudo. Não entendia de moda, ou de etiqueta. Odiava cinema e só falava em futebol. Nunca trabalhou. Não levava a mulher ao shopping, nem liberava um dinheirinho para o salão. Dizem que passava seus dias rezando. Contando as costelas e dando falta de uma. Pode? Deu no que deu. Cá entre nós, acho até que demorou.

É claro que ela comeu a maçã! Depressão dá fome, sabia? No fundo, talvez nem fizesse questão. Mas, estava ela, ali, à toa. Nada melhor para pensar ou para fazer. E a maçã suculenta requebrando-se toda, a ordinária. Fale a verdade, contando assim, qualquer um comia. Diga aí. Mas com sinceridade. Comia ou não comia?

Claro que comia. Até o Adão comeu. Só que depois, quando não tinha mais ninguém olhando. Que o diacho do homem, além de tudo, era dissimulado.

Deus, a princípio, ficou ressentido. Não comam, Ele disse. Mas, sabem como é Deus. Coração maior do mundo e incapaz de guardar ressentimentos. Achou por bem conceder-lhes três presentes.

Eva pensou e pensou e pensou. Depois, certa do que queria, pediu que derramasse sobre eles sabedoria, parcimônia e diligência sem fim.

Adão, agradeceu. E mandou embrulhar tudo de volta. No lugar, pediu dois barris de Heineken, umas ceroulas de folhas de parreira extra large e uma assinatura eterna da ESPN. Pronto! Pazes feitas e o espírito renovado.

Para Eva, Adão sugeriu um tanquinho, uma tábua de passar roupa e uma panela de pressão de quatro litros e meio. Sabedoria? Pra quê? Quase foi morto. A dentadas. E antes que o caldo entornasse feio, Deus talhou mais alguma delas.

A identificação foi instantânea e absoluta. Unidas para todo o sempre. Amém. Uma precisando da outra e vice-versa ao contrário. Numa faladeira dos infernos!

Deu tão certo que Deus providenciou mais uns deles. E sumiu. Deixando uma carta onde dizia que deviam reproduzir e povoar o mundo. Mas com certo comedimento. Ou Ele voltaria. E estariam encrencados. Sem TV e Ipad, por no mínimo uma semana. Isso só para começar…

Agora sim, pensou Ele, Missão cumprida. E saiu de férias. Num sabático ad infinitum, com destinos e roteiros nunca dantes revelados. Mas angelicus paparazzis teimam em afirmar que foi visto pros lados do Paradisum Plennum. Ali, ó. Coladinho em Vegas. Loucura. Loucura. Loucura…

Voltemos a elas e aos primeiros ajuntamentos femininos. Que deram tão certo e evoluíram tanto que, hoje, tudo virou motivo e pede a mulherada toda em volta. Pra isso existem as tardes malemolentes de bolo e fofoca. E as noitadas boas, regadas a risada frouxa e copo cheio. Ou a seco e sem nada. Em pé na porta da escola. No banheiro do clube. E na fila do açougue.

Pouco importa o lugar. O que vale é o vuco-vuco. Que amiga é assim: é tudo. É prime. É luxo. Glamour. E muito, muito mais.

É comer pastel de feira na rua. De pretinho básico e bolsinha púrpura cintilante. É salto quinze, na ida. E chinelinho de dedo, na volta. É conforto. Para o corpo e para a alma. Sempre a mão. E de acionamento automático. Com sensor de presença, que apita, sempre que precisamos delas.

Mas, como tudo na vida, tem que cuidar para não azedar. E regrinhas básicas devem ser observadas. Como aquela que diz, mais ou menos assim, Sinceridade é bom, até que baste (e isso envolve o novo corte de cabelo da sua melhor amiga, sim) Ou aquela, O que é bom não se divide. Que, no frigir dos ovos, significa que amigas racham contas, sapatos e até apartamento. E ponto. Macho, não. Vai por mim. Às vezes nem é culpa da amiga, coitadinha. Culpe a tentação, ou a carne, que nunca são proporcionais. E sendo a depressão o mal do século, melhor não dar ideia. Lembra da Eva? Pois é. Querer ela nem queria. É que tem horas que bate uma fominha…

 

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