Banho de Assento

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Sou homem. E homem é assim: odeia esperar.

Por isso fugi. Deixando minha irmã sozinha, enquanto experimentava todo o estoque da loja de sapatos. E fui zanzar por aí.

Na verdade, nem fui longe. Entrei na primeira portinhola que vi. Uma farmácia. Onde estacionei ao lado de uma prateleira qualquer. À toa. Olhando pro mais completo e absoluto nada.

_Entocort…

_Oi?

_Remédio pra colite. Acertei? – e explicou _Parado aqui, fica fácil: ou é colite ou hemorroidas. Mas a tomar pela sua estampa, aposto, mesmo, que é colite. Crônica. E daquelas ouriçadas…

Pisquei. Duas vezes. Seria esse o fim de Clark Kent e sua tacanha visão de raios X? Iria o mundo finalmente se curvar aos superpoderes da atendente-mediúnica e sua percepção de tomógrafo pós-contraste? Mas antes que pudesse responder, ela retomou a consulta.

_Quantas caixas?

Comecei a duvidar de minha sanidade física e mental.

_Deixe comigo. Que efeito colateral todos têm. De monte. Mas pra isso também tem remédio. Quer ver só? – sumiu comigo. De corredor em corredor. Catando drágea disso e caixa daquilo. E a cestinha só enchendo.

_Esse você leva pra insônia. O outro, pras crises. Dos nervos. Se a coisa apertar, dobre a dose. Não tem erro. Vá por mim.

_Sei. É que…

_E as câimbras?

_Que câimbras?

_Pras câimbras o melhor mesmo é banana. Se não passar, tente um Sinvatrox. Mas se a vista enturvar, volte, ok? Correndo!

E a nêga matraqueava. Mais que o homem da feira.

_O negócio é um só: banho de assento. Com vinagre branco e amoníaco. Se resolve, eu não sei. Pelo menos, refresca. E tira a urucubaca.  Que doença é olho gordo. Já tentou mandar benzer?

Hemograma? Cintilografia? Ressonância Magnética? Pra quê, me diga? Esqueça tudo e chame um pai de santo. Mais barato que plano de saúde coletivo. E ainda vem com batuque.

Catei minha cestinha e dei no pé. Direto pro caixa. Pensam que ela parou? Qual nada.

_Mostraram pro senhor as nossas promoções?

_Escute aqui, minha filha…

_Iodo. O senhor tem iodo em casa?

_Na verdade, não. Mas…

_Nãoooooo? – o susto foi tanto que peguei logo cinco. Litros. E ela, sem perder o ritmo, emendou _ As ataduras baixaram. Não dá nem vinte centavos o metro…

Bom. Se é assim, me dê dez metros. Melhor, doze. Trinta. Levo tudo se me deixar ir embora.

_Escova infantil?

Tentei explicar que não tenho filhos. Não houve acordo. Acabou que levei duas. Uma rosa e uma azul. Pra não dizer que sou tendencioso.

E assim comprei um higienizador de dentaduras. Três pacotes de fraldas geriátricas. Paracetamol. Uma lata de Mucilon. E um barbeador elétrico. Ultrassônico. Que apara pelos do nariz e ainda ilumina a garganta.

Depois de tudo, a rua. Onde minha irmã esperava. E pasmou, Mas que tanto de sacola é esse?

Enquanto isso, a fulana, lá do fundo da loja, seguia tagarelando _Gente, que simpatia esse homem. Doentinho, coitado. Mas uma simpatia –  e gritou, num gesto final de comiseração _ Não esqueça o banho de assento, viu? Não esqueça o banho de assento!!!!

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