Philipo Justo

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Terceira vez que parava na mesma esquina. Babando na vitrine que nem cão de padaria. Nem percebeu que era observada.

_Olho bom que você tem, hein? Grande. Potente. Um estradeiro e tanto pra se ter nas mãos. Mas quer saber? Não é pra você.

_Não?

E olhou, curiosa, o tagarela estacionado ao lado. Sorridente. Cartão em riste. Um vendedor nato. Se apresentando.

_ Philipo Justo, seu criado. Honesto até no nome – curvado em reverência _ E vem comigo – Saiu, arrastando a moça. Que quando viu, já ia longe. Até chegar lá sabe onde. Num arremedo de loja. Mais pra cafofo. Um multimarcas abarrotado. E procedência duvidosa.

Só sabe que entraram. Os dois. Numa banheirona velha. Bem cuidada, até. Ainda assim uma charanga. Em pé por conta de reza. E bota reza nisso.

_Tcharam – disse ele, faceiro.

_Mas o que é isso? – assustou ela.

_Isso é aventura, baby – deslizando sobre ela. Que arregalou os olhos pra fora das órbitas. E quis sumir. Ou correr. Quinhentas jardas. E assim teria feito. Não fosse a trinca emperrada. E o carro que chacoalhava e tossia. Amarfanhando os dois. Um no outro.

_Confia em mim? – quis saber ele. Do nada. Pousando aquela mão enorme sobre as coxas dela. O que a fez ruborizar.    

_Confio – foi o que ela respondeu, sem acreditar no que dizia. Mas ele era tão lindo.

_Ande. Experimente. Acelere até o fim – sua voz era quente. Impositiva. Familiar. E ela pisou. Fundo. Gostando de tudo o que sentia. Até do carro. Do cheiro de óleo velho. Queimado. E do escapamento aberto. Pipocando alto e emporcalhando tudo. Argh…

_Você quer mais, não quer? – ele quase atravessando ela _Abre o vidro. Isso. É. Na maçaneta, mesmo. O botãozinho não funciona…Viu só? Vida é isso. E sentir o chão aqui: no volante e na munheca.

Ela tremia. Todinha. Dos pés ao último fio desgrenhado de cabelo. Tomada num estupor. Quando ele lhe catou os ombros e trouxe pra mais perto.

_E agora – ele diz.

_E agora – ela boqueja. Molinha. Tomada pelo absurdo de toda aquela situação. Completamente entregue. Enlouquecida de paixão súbita por ele.

_Sabe o que vem agora? – ele pergunta.

Ela nem fala. Mal escuta. Só fecha os olhos e se dá. De graça. A ele. Que solta a moça. A qual despenca, de cara no banco.

E ele procura, que procura e que procura. Não sossega até encontrar uma pasta velha com documentos. E se volta satisfeito. Satisfeitíssimo _ É só assinar aqui. Ó. No X. Crédito pré-aprovado, gata! Em três vezes. Sem juros. Diz aí, o Philipo é demais!

_É isso? – insistiu ela, devolvendo o pescoço à posição original, já que a dignidade tinha ido pras cucuias.

_Já que mencionou – veio ele, novamente _ Tá vendo aquela salinha ali. Então. É a administração. Se não estiver com muita pressa, passa lá. É só dizer que foi atendida pelo Philipo Justo, de usados. E se puder, faz um carinho. Um elogio. Uma caixinha…

Ela cuspia faíscas. Tresloucada. Bateu a porta e os cascos. Ao que ele reclamou. Indignado.

_Faz isso não, dona! Pode arranhar a pintura. E se amassar sou eu que pago. Credo! Tá maluca, é?

Ela xingava. Cuspia. Desconjurava. Enquanto marchava pra bem longe.

_Louco! Tarado!

Ele, emburrado, retrucava.

_ Achou caro? Era só falar. Fazia em quatro. Sua pobre!

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