Elas não merecem ser estupradas

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Big Brother, pode. Minissaia, não. Eis o seu retrato, país tosco.

Terra do samba. Do facebook. Da exposição exagerada e dos encoxadores.

Quem precisa de divas, se elas não dão Ibope? Brasileiro, assim como o americano, gosta mesmo é das celebridades. Daquelas. Estúpidas e meteóricas.

Só que lá tem segurança. E o bicho pega. Já aqui, na terra da Copa, a banda toca em um ritmo um pouco diferente.

E prepara, que, agora, é a hora do show das poderosas, só não conte a elas que na TV, pode. Na rádio, pode. No carnaval então, é um luxo só. Incentivado e recomendado. Mas no metrô, não. Nem no trem. Nem nas ruas. Nem na vida.

E, se insistir, vou dizer que a culpa é toda sua. E não discuta comigo, que aqui mulher não manda nada. Agora, ande. Vá malhar esses glúteos, para ver se vira alguém na vida.

Estudar filosofia, pra quê? Me diz? Então, esqueça essa história de discutir Simone de Beauvoir. Ah, tá.Você nunca ouviu falar em Simone de Beauvoir, né? Quer saber? Melhor! Ficou mais fácil. É só turbinar o resto. Que o futuro está aí: entre o quadril e a comissão de frente. E estamos conversadas!

Quem quer ser professora? Viver de salário mínimo e meio e ainda ser alvo de peixeira e cyberbullying ?

Eu quero é aparecer pelada na Playboy, embolsar dez milhões e mudar pra Miami. Onde é seguro ser peituda. Lá estupro é crime e dá cadeia, sabia? Pois é, menina. Difícil acreditar, não?

Aqui dá n’água. Vira currículo. Se bobear o fulano ainda se elege. Deputado. E com sorte, chega a prefeito.

O problema é que nada disso é novidade. Nem é de hoje. É secular. E pouco tem a ver com o microshort delas. Veio nas Caravelas. Institucionalizado pelo meu bom e velho amigo Cabral. E, enquanto enxergarmos nossas meninas como índias, tudo seguirá exatamente igual. Paleoliticamente correto.

Chega de falar mal da vida alheia pela janela. Já passou da hora de assumir que essas filhas são nossas. E que devemos lutar por elas.

São meninas, pelo amor de Deus! Só meninas. E com todo o direito a escolher quem terá, e principalmente, quem não terá acesso ao seu corpo. Simples assim.

E, não. Definitivamente, não. Elas não merecem ser estupradas.

Beija muito!

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Quem diz que adolescente tem problemas, é que nunca viu um casalzinho amarrotado. Em pé. Aos beijos. Em plena rua.

Mas, eu vi. Dia desses. E juro que fiquei impressionada.

Eles são ousados. Escatológicos. Antropofágicos. Riem do beijo técnico e não respeitam normas regulamentadoras de segurança. Nenhuma.

Acreditaria se eu dissesse que seus aparelhos com borrachinhas coloridas morfaram em um único bracket? Pois é. Parecia.

O farol fechou. Abriu. E os dois lá.

Podia até cair o mundo. Passar a banda. Ou chover dinheiro. Desde que não esbarrassem neles, tudo bem. Seguiriam imóveis. Atracados de vida e morte. Sem a menor chance de desgrudar.

Tentei lembrar se já beijara, assim, antes. E tive saudades. Desse tempo que não se tem carro. Nem grana. E lugar nenhum aonde ir depois. Quando beijar é a única possibilidade. E já que é assim…

Não deviam ter nem quinze. Nem juízo. E não faço a menor ideia de quem eram. Só sei que não eram casados. Disso tenho a mais absoluta certeza.

O casamento está pro beijo saca-rolha, assim como a água pro petróleo. Ou, como costumava dizer minha vozinha, Não adianta insistir, que dois bicudos não se beijam. Não assim. Sem mais. Nem com toda essa intensidade. 

Tudo bem. Tudo bem. Talvez esteja exagerando. Afinal, os casados também amam. E quando querem, capricham. Eriçando as penas e retorcendo os beicinhos, no maior assanhamento. É que como tudo na vida, ganha-se de um lado e perde-se de outro. E se tem algo que perdemos, mal trocamos de dedo as alianças, é o velho e bom beijo de namorado. Ou, em termos técnicos, o beijaço triplo-mortal-carpado-frontal-de-língua-inteira.

E experimente lançar um desses, para ver o que acontece. Certamente, ele vai berrar e querer saber quem é o outro. Também pode achar que você bateu o carro. Estourou o cartão de crédito dele. Ou fez algo que realmente não devia. Pior, mesmo, se desconfiar que você planeja ampliar o número de rebentos da família. Aí o ataque é inevitável. Cardíaco. E fulminante.

Sendo assim, dois vivas as bitoquinhas e aos selinhos comportados. São eles que garantem e prolongam nossa felicidade conjugal.

Mas não desanime. Beijo é beijo. E beijo sempre é bom. Sem falar que queima calorias. Média de doze, a cada dez segundos de efetiva atividade. Achou pouco? Não sei você, mas prefiro mil vezes a uma sessão 5×5 de supino inclinado.

Enfim. Sigamos beijando. Sem abrir mão da dieta de proteínas e do suco-argh-verde. Afinal, estar em forma, ajuda. E, quem sabe, não garanta ao menos um beijinho meio-lábio-inferior-com-mordida-deslizante-superior, hein? Hein? Não chega a ser um triplo-carpado. Mas seria um bom começo.

Banho de Assento

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Sou homem. E homem é assim: odeia esperar.

Por isso fugi. Deixando minha irmã sozinha, enquanto experimentava todo o estoque da loja de sapatos. E fui zanzar por aí.

Na verdade, nem fui longe. Entrei na primeira portinhola que vi. Uma farmácia. Onde estacionei ao lado de uma prateleira qualquer. À toa. Olhando pro mais completo e absoluto nada.

_Entocort…

_Oi?

_Remédio pra colite. Acertei? – e explicou _Parado aqui, fica fácil: ou é colite ou hemorroidas. Mas a tomar pela sua estampa, aposto, mesmo, que é colite. Crônica. E daquelas ouriçadas…

Pisquei. Duas vezes. Seria esse o fim de Clark Kent e sua tacanha visão de raios X? Iria o mundo finalmente se curvar aos superpoderes da atendente-mediúnica e sua percepção de tomógrafo pós-contraste? Mas antes que pudesse responder, ela retomou a consulta.

_Quantas caixas?

Comecei a duvidar de minha sanidade física e mental.

_Deixe comigo. Que efeito colateral todos têm. De monte. Mas pra isso também tem remédio. Quer ver só? – sumiu comigo. De corredor em corredor. Catando drágea disso e caixa daquilo. E a cestinha só enchendo.

_Esse você leva pra insônia. O outro, pras crises. Dos nervos. Se a coisa apertar, dobre a dose. Não tem erro. Vá por mim.

_Sei. É que…

_E as câimbras?

_Que câimbras?

_Pras câimbras o melhor mesmo é banana. Se não passar, tente um Sinvatrox. Mas se a vista enturvar, volte, ok? Correndo!

E a nêga matraqueava. Mais que o homem da feira.

_O negócio é um só: banho de assento. Com vinagre branco e amoníaco. Se resolve, eu não sei. Pelo menos, refresca. E tira a urucubaca.  Que doença é olho gordo. Já tentou mandar benzer?

Hemograma? Cintilografia? Ressonância Magnética? Pra quê, me diga? Esqueça tudo e chame um pai de santo. Mais barato que plano de saúde coletivo. E ainda vem com batuque.

Catei minha cestinha e dei no pé. Direto pro caixa. Pensam que ela parou? Qual nada.

_Mostraram pro senhor as nossas promoções?

_Escute aqui, minha filha…

_Iodo. O senhor tem iodo em casa?

_Na verdade, não. Mas…

_Nãoooooo? – o susto foi tanto que peguei logo cinco. Litros. E ela, sem perder o ritmo, emendou _ As ataduras baixaram. Não dá nem vinte centavos o metro…

Bom. Se é assim, me dê dez metros. Melhor, doze. Trinta. Levo tudo se me deixar ir embora.

_Escova infantil?

Tentei explicar que não tenho filhos. Não houve acordo. Acabou que levei duas. Uma rosa e uma azul. Pra não dizer que sou tendencioso.

E assim comprei um higienizador de dentaduras. Três pacotes de fraldas geriátricas. Paracetamol. Uma lata de Mucilon. E um barbeador elétrico. Ultrassônico. Que apara pelos do nariz e ainda ilumina a garganta.

Depois de tudo, a rua. Onde minha irmã esperava. E pasmou, Mas que tanto de sacola é esse?

Enquanto isso, a fulana, lá do fundo da loja, seguia tagarelando _Gente, que simpatia esse homem. Doentinho, coitado. Mas uma simpatia –  e gritou, num gesto final de comiseração _ Não esqueça o banho de assento, viu? Não esqueça o banho de assento!!!!

Philipo Justo

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Terceira vez que parava na mesma esquina. Babando na vitrine que nem cão de padaria. Nem percebeu que era observada.

_Olho bom que você tem, hein? Grande. Potente. Um estradeiro e tanto pra se ter nas mãos. Mas quer saber? Não é pra você.

_Não?

E olhou, curiosa, o tagarela estacionado ao lado. Sorridente. Cartão em riste. Um vendedor nato. Se apresentando.

_ Philipo Justo, seu criado. Honesto até no nome – curvado em reverência _ E vem comigo – Saiu, arrastando a moça. Que quando viu, já ia longe. Até chegar lá sabe onde. Num arremedo de loja. Mais pra cafofo. Um multimarcas abarrotado. E procedência duvidosa.

Só sabe que entraram. Os dois. Numa banheirona velha. Bem cuidada, até. Ainda assim uma charanga. Em pé por conta de reza. E bota reza nisso.

_Tcharam – disse ele, faceiro.

_Mas o que é isso? – assustou ela.

_Isso é aventura, baby – deslizando sobre ela. Que arregalou os olhos pra fora das órbitas. E quis sumir. Ou correr. Quinhentas jardas. E assim teria feito. Não fosse a trinca emperrada. E o carro que chacoalhava e tossia. Amarfanhando os dois. Um no outro.

_Confia em mim? – quis saber ele. Do nada. Pousando aquela mão enorme sobre as coxas dela. O que a fez ruborizar.    

_Confio – foi o que ela respondeu, sem acreditar no que dizia. Mas ele era tão lindo.

_Ande. Experimente. Acelere até o fim – sua voz era quente. Impositiva. Familiar. E ela pisou. Fundo. Gostando de tudo o que sentia. Até do carro. Do cheiro de óleo velho. Queimado. E do escapamento aberto. Pipocando alto e emporcalhando tudo. Argh…

_Você quer mais, não quer? – ele quase atravessando ela _Abre o vidro. Isso. É. Na maçaneta, mesmo. O botãozinho não funciona…Viu só? Vida é isso. E sentir o chão aqui: no volante e na munheca.

Ela tremia. Todinha. Dos pés ao último fio desgrenhado de cabelo. Tomada num estupor. Quando ele lhe catou os ombros e trouxe pra mais perto.

_E agora – ele diz.

_E agora – ela boqueja. Molinha. Tomada pelo absurdo de toda aquela situação. Completamente entregue. Enlouquecida de paixão súbita por ele.

_Sabe o que vem agora? – ele pergunta.

Ela nem fala. Mal escuta. Só fecha os olhos e se dá. De graça. A ele. Que solta a moça. A qual despenca, de cara no banco.

E ele procura, que procura e que procura. Não sossega até encontrar uma pasta velha com documentos. E se volta satisfeito. Satisfeitíssimo _ É só assinar aqui. Ó. No X. Crédito pré-aprovado, gata! Em três vezes. Sem juros. Diz aí, o Philipo é demais!

_É isso? – insistiu ela, devolvendo o pescoço à posição original, já que a dignidade tinha ido pras cucuias.

_Já que mencionou – veio ele, novamente _ Tá vendo aquela salinha ali. Então. É a administração. Se não estiver com muita pressa, passa lá. É só dizer que foi atendida pelo Philipo Justo, de usados. E se puder, faz um carinho. Um elogio. Uma caixinha…

Ela cuspia faíscas. Tresloucada. Bateu a porta e os cascos. Ao que ele reclamou. Indignado.

_Faz isso não, dona! Pode arranhar a pintura. E se amassar sou eu que pago. Credo! Tá maluca, é?

Ela xingava. Cuspia. Desconjurava. Enquanto marchava pra bem longe.

_Louco! Tarado!

Ele, emburrado, retrucava.

_ Achou caro? Era só falar. Fazia em quatro. Sua pobre!

A mãe da Chiquita Bacana

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Carnaval é festa de solteiro. Folia dos que ainda não desenvolveram matilha.

Mulher com barriga e penca, nem em banho da Dorotéia faz sucesso. Melhor é periguete, mesmo. Para os outras existe o desfile na televisão. Ou as afamadas matines. E não adianta espernear. Carnaval é Carnaval. Matinê é invenção de genitora. Não sabia, não? Ô, dó…

E as diferenças são muitas. Claras como o dia. Que é inclusive uma das mais marcantes adaptações. Tchau, quatro noites de Momo e Oi, duas tardes da Mama.

Pronto. É o que temos. Um cordão de mães ensandecidas. Desesperadas por um punhadinho de confete que seja. Loucas pra se jogar ao primeiro acorde de Mamãe-eu-quero. Mas Ilarilarilariê também serve. E Justin Bieber? Tá em ritmo de repique? Opa. Vale, também.

Geralmente, os primeiros cinco minutos vão bem. Até demais. Bem quando o menorzinho pede colo. Ou xixi. Ou cocô. Enquanto o amiguinho, aquele primo-vizinho-da-mesma-classe, chora com medo da música alta (que mãe que é mãe, é assim: não basta levar os seus, tem que arrastar mais uns cinquenta com ela).

Resumindo, criança não falta. Em corpo presente. Pois a alma ficou em casa. No computador. Jogando DS. Xbox. Wii. E Essa tralha toda que a gente nem sabe como é que funciona. Mas que eles adoram. Muito mais que bailinho de carnaval.

A banda é um show a parte. Já que o gogó de ouro não aparece. Nem pro grand finale. Está repousando. Pra entreter a turma da noite. Os afortunados. Que saem depois das onze. E vão que vão. Até o dia clarear.

Matinê é osso. É Gaza. Terra de ninguém. Onde manda quem pode e obedece quem é casado. Afinal, eles também estão lá. Os maridos. Contritos e em bloco. Fantasiados de homem-poste ou de vai-ver-se-estou-lá-na-esquina. E pulando. Miudinho. Atrás de uma cerveja gelada. Há sempre aquele um ou outro que se pode ver carregando o rebento no cocuruto. Vai saber o que esse aprontou. Cada família uma sentença. Com apostrofe. E regras gramaticais as mais diversas possíveis.

Voltemos, então, as crianças. Aquelas. Socadas em fantasias que brilham. Coçam. E pinicam. Arrastadas pelo salão entulhado e barulhento. Que deixam o rígido controle de higiene de suas casas, pra catar serpentina do chão melado. Se acabando em espuminha.

É, meus amores. O melhor de tudo isso é que um dia vocês crescem. E se vingam. Se forem meninos. Ou se juntam a folia. Se forem meninas.

Quanto a mim, preciso correr. Que amanhã é sábado. E vai ter bailinho de garagem na casa de uma chegada. Quem sabe dá até tempo para um trenzinho. Antes que a minha pequena comece, Mamãe, vamô imbora. Quero ir. Anda. Vamô. Manhêêêêê

Foi num carnaval que passou…

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_Melhor não _ disse ela empurrando o moço longe.

_Vem pro seu Allah-la-ô _ grudou ele. De novo. Cheio de dedos e intenções.

_Diz isso pra todas _ recuou aborrecida.

_Deixe disso, princesa _ as mãos esquadrinhando tudo. Tim-tim por tim-tim. No maior ziriguidum.

_Comigo já são quantas? Cinco? Vinte? O baile todo? Nem demora e já começam as comparações. A mais bonita. A fogueteira. A poposuda. A periguete. E pra mim, sobra o quê?

_Que tal eu? E por falar nisso, bitoquinha que é bom, nada, né?

_Você diz isso agora. Que tá de fogo. Quero ver com a cara limpa. Dez anos mais velho e cheio de contas pra pagar. E se eu mudar? Descambar numa gordona sem tamanho. Daquelas inseguras. Controladoras. E der pra vigiar facebook. Proibir futebol . Happy hour...

_Relaxa, minha pretinha. Afinal, é carnaval…

_ Não me venha com essa. E qual será a próxima desculpa? Não, não fale. Deixe que eu adivinhe: o trabalho? As viagens? O ciático? E quando vai ter tempo pra mim? Pras crianças?

_Que crianças?

_Pronto! Estava demorando pra entrar na fase da negação. Era só o que me faltava. Tantos planos. Sonhos. E eu, aqui, um universo em desencanto . . .

_Mas, docinho…

_Justo eu! Tão madura. Tão blindada _ e continuou _ O que vou dizer aos nossos amigos? Pros meus pais? Ande, me fale? Depois de tudo que passamos juntos. . .

_Cuméquié? Tá doida, mulher? Foi só uma marchinha. Rima pobre e sem estrofe…

_Pra você! Seu cafajeste! Pegadorzinho de terceira!

_Eu, hein?! _ desvencilhou-se ele, abrindo uma distância segura da tal dona louca-insana.

_Vai mesmo! Cachorro! Desqualificado! E não volte, viu? Está me ouvindo? Nunca mais!

E ele foi.

Um pierrô a menos na ciranda. Mais cabreiro que apaixonado. Deixando ela pra lá. A colombina descalibrada. Que maldizia. Falando alto. Para todo mundo ouvir _Comigo, não, violão! Comigo, não!