Inveja Mata

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_Não. Nem México, nem Estados Unidos. Fica na República Dominicana.

Informou a mocinha, polida e educada, ao marrudo detrás do balcão.

A coisa era até bem simples. De um lado, ela. Passaporte na mão e viagem marcada. Precisando desesperadamente de um roaming. Do outro, ele. Plantonista frustrado dobrando turno. Há mais de cinco anos sem saber o que eram férias. E nem um pouco a fim de ajudar.  

Simbiose manca que logo virou raiva. De Deus. Do chefe. E, principalmente, dela. E seu sorrisinho estúpido. Quer saber? Vire-se! Foi declarada a greve. Resolvido a não mover um dedo. Uma palha que fosse.

_Sinto muito, dona. sem sistema. E quando isso acontece, costuma demorar. Faz o seguinte: Tenta semana que vem. Quem sabe a senhora dá mais sorte…

_Mas eu viajo amanhã…

_Que coisa, né? Queria tanto ajudar. Se houvesse algo que pudesse fazer… – e vence o time da casa. Mil a zero, torcida brasileira.

Pena não ter tempo nem pra saborear. Culpa do Chicão. O cara da baia ao lado. Sempre se metendo onde não era chamado. E dessa vez não foi diferente _ Voltou. Não viu?

_Hein? – quiseram saber os dois.

_O sistema. veloz como nunca. Tenta aí – insistiu ele, pescoçando a vingança alheia _ Página de ajustes. Transferência de dados. Tudo funcionando. Uma beleza… Ela vai pra onde?

Pô, vai achar cueca para lavar, Chicão!

_Punta Cana. Dez dias – replicou, solícita.

_Então, vejamos, dona – retomou o zoiudo. Mais contrariado que nunca. Disposto a melar tudo. De uma vez por todas. Sendo assim, deixou os planos correrem em sua tela. Milhares de opções. Baratas. Perfeitas. Justinho o que ela precisava.

_Xi… Na região que a senhora quer, nossa cobertura não cobre, não…

_Cobre, sim! – adivinhem quem vinha ao resgate? Caracas, Chicão! Arrume outro pra azucrinar.  Tem que ser prestativo justo aqui, agora, e no meu guichê?

Não satisfeito em palpitar, meteu meio corpo para dentro da baia apertada _ Aqui. Viu? Sinal perfeito. Mais cristalino impossível. A senhora vai aproveitar tudinho, dona. É só fechar o pacote…

Tá. Tá. Tá. Pode deixar que eu termino, Chicão. Valeu. Enxerido…

Continuou rolando a tela escura. Onde se viam novas e melhores soluções. Várias. Mas ele, maldoso, retomou.

_ vendo aqui. Mas tá tudo caro. Dez dia, né? Nem vale a pena. De mil a três mil reais. Só se a dona estiver montada no dinheiro…

_Tá doido, rapaz? – ai. Ai. Ai… Outra vez, não, Chicão _ Trinta reais dá e sobra. Só tem que desabilitar na volta. Não esquece…

Ela era só sorrisos. A tonta. Pediu o contrato. Assinou. E foi embora. Não sem antes agradecer ao Chicão. E bastou ela sair pro linguarudo se arreganhar todo.

_Imagina só. Dez dias. Na maior mordomia: marzão. Praião. Caribão…

_Caribão, o quê! Deixa de ser trouxa que a moça tá entrando na maior roubada…

_E desde quando Caribe é roubada?

_Caribe que nada! Aquilo ali é quintal de férias pra venezuelano. Não tem infra. Não tem nada.

_Como assim?

_Quer ver só – e foi zanzar na internet.

Viu as praias de areia branca e o mar turquesa protegido por corais, mas falou no desemprego e na crise elétrica que assola a capital. Encontrou hotéis maravilhosos, imersos em mimos e luxos, mas citou o país pobre e suas discrepâncias sociais. A fauna e flora exuberante, mas pontuou a crescente violência nos vizinhos da região.

_Nossa…Que horror…

_ falando. se empolga com tudo. Parece bobo…

_Sabe que cheguei a pensar que você tava com inveja da moça?

_Eu? Inveja? De uma viagenzinha furreca dessas… também, hein, Chicão? Tem cada uma…

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