É osso

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Som de ligação completada.

Você ligou para o Beach Outer Island Resort. É sempre um prazer atendê-lo. Para falar com Vendas, disque 1. Financeiro, 2. Reservas, 3. Ou aguarde.

Ele tecla 3.

Você não escolheu uma opção válida. Para falar com Vendas, disque 1. Financeiro, 2. Reservas, 3. Ou aguarde.

Eu teclei 3, Eu teclei 3… Ele reclama, bravo com o próprio aparelho. E tecla 3. Novamente.

Você teclou 1. Nosso horário de atendimento é das nove às vinte e duas horas, de segunda a sexta. Um momento e iremos atendê-lo. Para falar com um de nossos consultores, disque 9. Ou 0, para voltar ao menu anterior.

Tecla 0.

Você ligou para o bazar. Pra adquirir camisetas, disque 1. Roupa de praia, 2. Bolsas térmicas, 3. Ou 0, para voltar ao menu anterior.

Eu teclei 0, Eu teclei 0!!!  Não só espuma como morde o próprio aparelho. E tecla 0. Mais uma vez. Alguém atende.

_Pois não!

_Senhora, eu fiz uma reserva e …

_Que bom, senhor!

_Não. Não é bom, senhora, acontece que …

_Que pena, senhor!

_Senhora, pode me deixar terminar, por favor?

_Como preferir, senhor!

_Então. Eu fiz uma reserva e …

_Parabéns, senhor. Seja bem-vindo ao nosso complexo. Temos quatro hotéis, com dezoito piscinas. Sendo cinco aquecidas e duas jacuzzis!

_Minha senhora, me escute, preciso checar a minha reserva…

_Certamente, senhor. Qual o seu número de reserva?

_É 1000345.

_001345!

_Não. É 1000345.

_Perfeitamente: 6723145!

_Preste atenção, minha filhinha! É 1-0-0-0-3-4-5.

_Afirmativo, senhor! Acho que gostaria de saber que o senhor tem conosco uma reserva sob o número 1000345!

_É o que venho tentando lhe dizer… Acontece que preciso remarcar essa reserva porque …

_Desmarcar, senhor?

_Remarcar!

_Sem problemas, senhor! Sua reserva acaba de ser desmarcada com sucesso!

_Não é isso! Não é NADA disso!

_O que é então, senhor?

_Quero REMARCAR!

_Remarcar o quê, senhor?

_A reserva que tenho com vocês!

_Sinto informar, senhor. O senhor não tem nenhuma reserva conosco.

_Mas eu tinha! Até a senhora me atender…

_Claro, senhor! O senhor se importa em permanecer na linha e qualificar o meu atendimento? O Beach Outer Island Resort agradece a sua…

_Não desligue! Por favor, não desligue!

_Pois não, senhor. Temos ofertas para alta e baixa temporada. Gostaria de conhecer nossos valores?

_Escute aqui, mocinha…

_Ao adquirir qualquer um dos nossos pacotes o senhor ganha uma linda camiseta de sócio campista. Com mais R$9,95 o senhor ainda ajuda a causa dos macacos-pregos da Costa Amalfitana.

_Mas que abuso!

_Não gosta de camiseta, senhor?

_Não é isso…

_É contra os macacos-pregos, senhor?

_Só quero fazer uma reserva…

_Que ótimo, senhor. Um momentinho que irei redirecioná-lo!

_Espera! Espera…

Você ligou para o Beach Outer Island Resort. É sempre um prazer atendê-lo. Para falar com Vendas, disque 1. Financeiro, 2. Reservas, 3. Ou aguarde.

Fantasias

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Estão os dois ali. Na cama. E na maior animação. Bem quando ele diz:

_Venha, minha sereia. Venha com o seu Aquaman…

_Qual delas?

_Oi?

_Em qual sereia você está pensando?

_Sei lá. Qualquer uma – e arrochou o abraço. Mas foi empurrado. Pra longe dela. Que completou.

_Se for a Ariel, estou fora!

_Hã? Quem é Ariel?

_Aquela. Da cabeleira cor de fogo. Amiga de um siri falante.

_Dane-se a lagosta falante. Venha cá que…

_É siri! E pode parar, que eu travei.

_Como assim, travou?

_É que sou cismada, lembra? E se souber que você esticou o olho pra alguma baranguete ruiva por aí, eu te mato, Pedro Henrique. Juro que te mato…

_Tá. Tá. Esqueça a sereia. Foque no Aquaman e pronto.

_Também não vai dar.

_Por que não?

_Porque ele é loiro e você, moreno. O que vai me deixar um pouco tensa. Confusa. Sabe como é? Enfim.  Melhor, não.

_Faz assim: apague tudo.

_Já apaguei.

_Vamos recomeçar. Tudo bem?

_Uhum.

_Então venha cá, minha gostosa, que o papai aqui vai entrar de biga e tudo em cima de…

_Biga?

_É. Biga. Aquela carroça que os caras na Roma antiga costumavam usar. Puxada por uns cavalinhos…

_Quantos cavalos?

_Hein?

_Ô, Pedro Henrique, você está de sacanagem? O lance agora é me ofender, é isso?

_Mas, florzinha…

_Porque se falar em dois ou três cavalos, você estará me insultando. Com certeza a sua Ex, aquela pilantra, devia estacionar, fácil, uns 20 alazões.

_Ai, meu Deus…

_Espere aí! Não mude o personagem, não. O papo não era Rússia antiga?

_Roma…

_Que seja. Estava pensando em quantos cavalos?

_Uns… Uns… Cinquenta… Tá bom assim?

_Cinquenta? Cinquenta cavalos você vá estacionar na garagem da sua mãe, Pedro Henrique!

Ele tentou ficar quietinho. Fazer em silêncio. Como a maioria dos casais.

Não aguentou. Mas, dessa vez, escolheu direitinho.

_Plonto. Meu amolzinho. Quelo você toda pla mim, Moniquinha…

_Moniquinha? Tá doido é? Quem é Moniquinha, Pedro Henrique?

Ao que ele responde, mansinho _ Sossegue. Nunca leu Gibi, não? Você é a Monica. E eu, o Cebolinha…

_Tá me chamando de baixinha, é isso? Não me diz que é de gorducha…

Mas ele estava resguardado _ Calma. Tudo bem. A gente troca. Prefere a Magali? Eu posso ser o Cascão. Que tal?

_Cascão é aquele fedidinho, né?

Ele assentiu. E partiu pra cima. Feliz da vida. Mas foi empurrado longe. Outra vez.

_Ô, Pedro Henrique…

_Fala…

_E o tal de Aquaman? Tá difícil chamar de volta?

O amor é um bichinho que rói, rói, rói…

4 Comentários

O amor é um bichinho esquisito. Que já rendeu prosa. Verso. Churumelas dramáticas e até samba.

Cada qual ao seu modo. Dependendo do referencial.

Tem quem diz que o danado é manso. Cara e fuça do dono.

Outros, que é arisco. Pelo grosso e que pinica. Bonzinho só no começo. Depois, morde. Arranca pedaço. Nacos inteiros de coração. Dilacerados. Lanhando corpo e alma. E o que mais vier com eles.

Sei de quem tomou raiva. Até medo. Numa paúra da moléstia. Triste de ver e mais ainda de contar.

Difícil mesmo é fechar a conta. Quem provou da vida o seu bocado, sabe bem do estou falando. Conta de amor não zera. Nunca. Se insistir, vira dízima. E fica pra trás. Aquele quebradinho de nada. Incomodando e arrastando. Pelos séculos dos séculos. Amém.

Quer saber? Não tem receita. Nem conserto. Se é amor, é assim. Nem branco. Nem preto. Um Prêt-à-porter. E pronto.

Amor é protótipo de molde avariado. Filho único. Com a vantagem que pode dar certo. Dar cano. Ou dar n’água. Ô, dó…

Quando isso acontecer. Vale a regra do “chacoalha a cabeleira e entra na roda, vem dançar”. De novo. E de novo. E de novo. Se cansar, descanse uma. Depois volte. Enjoou, foi? Acontece. Nas melhores famílias.

Se nenhum amor sobrar, cultive o seu. Aquele tal de amor-próprio. Ouviu falar? Não tem contraindicação e vai bem com quase tudo.

Ficou sozinha? Grande coisa. Mas que cara é essa, menina?  Solidão não é o fim. Nem o começo. É só uma chance de ser feliz de outro jeito. Sem meias palavras. Nem meias medidas. Tem coisa melhor? Tem. Mas se não deu…

Então, solidão também é bicho. Assim como o outro. Mesmo planeta. Só que mais calado. Um olho no gato, outro no rato.

Conheço quem abraçou a ideia. E não é pouca gente, não. Quer saber? Partilho e incentivo. Ao menos é seguro. E com o que tem de bicho feio esparramado por aí…

O pior é a mulherada. Que grita. Depois sai, desembestada. Correndo atrás. Num que-te-pego-que-te-agarro descomunal. Como se, sem ele, fosse trincar. Quebrar. Morrer…

E não adianta avisar que é refugo. Que o traste é ruim. Desses que não presta nem pra esquentar banco. Pensa que ouve? Imagine. São dois choros. Um escandaloso, pra entrar. E um sofrido demais da conta, pra sair.

No final, vai ficar brava. Culpar os outros. A vida. E o amor, é claro. Que é bicho muito esquisito.

Vai entender, né?

Repensando as divindades

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Ipanema. Lotada e meia. Com um primeiro de janeiro prestes a estourar. A contagem regressiva começa. Quatro. Três. Dois…

Eis que no mar se vê um clarão. Com ondas quebrando e dobrando em todas as direções. Fazendo a multidão recuar.

O empurra-empurra é tremendo. Todos correm. Menos elas. As amigas. Um grupo de seis vindo lá de Madureira. Com os cambitos devidamente submersos em aguas claras fluminenses.

E de lá não arredam. Não sem antes saltar sete ondas. De jeito nenhum.  Nananinanão. Fincam de vez o pé na areia. E esperam. Abraçadas. Torcendo pelo melhor.

E é ali. No epicentro do olho de peixe marinho, que surge ela. Iemanjá. Plena em bruma e glória. E montada num jet ski Kawasaki Ultra 300X. Rosa. Chiclete.

As meninas enlouquecem. E vão chegando. Mais pra perto da entidade.

_Mãezinha, mãezinha – grita uma delas.

_Mãe uma ova, que nem parecer contigo eu pareço! Ainda se fosse sua irmã mais nova. Ou uma prima rica e distante. Mas, mãe? Tenha a santa paciência…

Essa murcha e outra toma o seu lugar _ Iemanjá – ela grita_ Sou eu! A Aninha!

_E por acaso te conheço? Aninha, é? Deixe-me pensar um instante – batuca a fronte lisinha _Não. Nenhuma chance. Pegou senha? Ah, que pena. Final da fila. Passar bem – e acena em direção à praia _ Próximo!!!

_Mas…

_Ainda aqui? Escute só, meu bem: eu sou uma divindade, está me entendendo? Um ser de luz. Preferência nacional. Percebe? Então, se mande. Se quiser, volte depois. Na maré baixa. Aí, a gente conversa… Próximo!!!

Entreolham-se. Abismadas. Mas é Iemanjá. Talvez um pouco descompassada. Meio azeda. Mas ainda é Iemanjá. E não dá pra desperdiçar uma oportunidade como essa.

Por isso se cutucam. Até alguém tomar coragem.

_ Eu vim aqui para pedir…

_Pedir! Pedir! Pedir! Não dá pra mudar um pouco o disco, não? E aquele papinho de oferenda, como é que fica?

_Mas eu te trouxe algo – ela tenta continuar.

_Jura? O quê? Não é esse espelhinho furreco que traz na mão, não, né? Escute aqui, nêga: sou uma orixá, não a Pocahontas! Aliás, nem índio topa mais essa tranqueirada de R$1,99. “Vê se cresce”, garota. Na próxima, tente um Dior. Ou um Chanel…

A mocinha ao lado é quem responde _ Eu te trouxe um batom…

_É da MAC?

_Hein?

_ Taí. Gostei da cor. Sabe se é à prova d’água? Lá onde moro é muito úmido. Um bolor só, menina, nem te conto. É só imergir pra borrar a cara toda. Ninguém merece…

_Que tal flores? – elas insistem.

_ A não, gente! Rosa branca, de novo? Ninguém aqui ouviu falar em orquídea? Girassol? Lírio amarelo? É, amarelo, sim. Por quê? Algum problema? Combate a icterícia e ajuda na memorização. Muito indicado pra escritórios, quartos e áreas pequenas de trabalho forçado…

Assombro geral.

_ E você? Que tá escondendo aí? – ela segue perturbando _ Sou vesga por acaso? Tô olhando na direção de quem? Você, mesma, minha filha. Nossa! Como hoje está difícil…

A pobre abre as mãozinhas e apresenta seu presente.

_ Um bolinho, é? Cê que fez? Só pode. Se tá ruim por fora, imagine por dentro. Olhe lá, hein? Se eu morrer de congestão, quero ver pra quem vão apelar. Faz o seguinte, minha flor: ofereça pra alguém mais simplinho. Quem? Sei lá…Tente as almas.  Ou o Cosme e o Damião. A Iara, mãe d’água. O Saci. O Boitatá. A Mili, das Chiquititas…

Outra se apresenta. Sem coragem de começar.

_Que cê quer? Fale logo, que hoje não tô benta…

_Quero um namorado – disse a feia. Muito feia. Mas feia, mesmo.

Iemanjá olha bem a moça e baixa o facho.

_Escute aqui, meu doce. Que tal tentar outra coisa?  Um prêmio Nobel? Uma mega sena?

Nada. A moça queria um macho. Pra amar e respeitar. Até que a morte os separe. Vigi…

Iemanjá suspira e começa a explicar_ Já ouviu falar em ecumenismo? Anda muito em voga lá pros lados de onde eu venho. Pois é. O importante é o cliente satisfeito. Então, se não dou conta, não tenho constrangimento algum em indicar- e continua _ Conhece a novena das pílulas de Frei Galvão? Pois é. Tome três. Em jejum. Ou melhor, treze. Quer saber? Arredonde pra trinta. E reze. Mas reze muito. Que tá difícil, viu? – e olhando o mundaréu de gente boquiaberto na areia, ela torna a gritar _ Próximo!!!

E aí, vamos?

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Quarta-feira era puxado. Com ele operando em São Paulo, enquanto ela dava aulas na Baixada. A criançada ninguém nem via. O dia inteiro na escola. No integral. Os três. Duas de cinco e um de oito. Que a avó entregava bem tarde. Banho tomado. Barriga cheia e capotando. Só deitar e dormir.

Por isso ela estranhou a ligação. Bem no meio da tarde. E atendeu ao primeiro toque.

_Algum problema? – tratou logo de perguntar.

_Tá ocupada? – foi a resposta que obteve.

_Não. Minhas aulas foram transferidas. Devo dobrar amanhã. Por quê?

_Estou sem agenda – ele emendou _ Quanto tempo leva para descer?

Aquilo sim era novidade. De onde estaria ligando?

_E as cirurgias? – ela insistiu.

_Hoje? Nenhuma – e acrescentou, num tom pra lá de diferente _ E aí, vamos?

Será? E por que não?

_Mas as crianças… – tentou ponderar.

_ Esqueça as crianças. À noite a gente pega…

É. Na dúvida, melhor não desperdiçar

_Que bicho te mordeu? – quis saber, enquanto socava tudo na bolsa e preparava-se para sair.  

_No caminho te conto. Ande logo. Venha…

Se encontraram no carro. Em frente a saída principal.

_Estou daquele jeito – disse ele, baixando a voz.

_Quer saber? Eu também…

_Jura?

_Uhum…

A correria das festas. O vuco-vuco do final de ano. As crianças. A vida. A Síria derretendo. Ibovespa em alta e nenhum tempo no mundo para eles. Nunca.

Ela já sabia onde iam. E achou graça. Ele acelerou. E partiu. Primeiro passaram em casa. Pra pegar umas coisinhas e seguir viagem. Antes, ela deu um google. E veio a lista. Completa. Os melhores motéis da cidade. Com fotos. Hashtags e promoções.

Escolheram um. Confortável. Meio na sorte e bem no meio do caminho. Às dezessete e trinta e quatro de um tarde muito quente.

A suíte, bacanuda, até que combinava com dia. Totalmente fora do lugar comum. Com Piscina no quarto. Hidro. Cromoterapia. Pistinha. Teto solar e um milhão de canais eróticos, com sacanagem para todos os gostos e até dizer chega. É hoje, meu Deus. É hoje…

Ele afofou os travesseiros e ficou. Esperando. Por ela. Que veio na sequência. De gatinho. Até parar. Em frente ao maridão. Que sussurrou, mansinho _ Venha. Deite aqui…

_Assim?

_Não. Assim, não. Tire.

_E isso? Fica?

_Tire, também.

_Tem certeza? Quanto tempo temos?

_Preciso de quatro horas. No mínimo…

_Você tá que tá, hein? Melhor ligar para os meus pais…

_Faça isso.

Ela foi e voltou. Cara de quem vai fazer bobagem. E não vê a hora pra começar. Ele já tinha tudo ajeitado. Aí ficou fácil.

Foram encostando e desmontando. Quem dormiu primeiro, ninguém viu. Mas roncavam. E Alto. Acordaram na marra. Com o barulhinho chato do alarme do relógio dele.

_Quero mais – ele pediu, guloso.

_Jura? Cê dá conta?

_Opa! Como nos velhos tempos, lembra?

_ Ô…

_E aí? Aguenta? Então venha cá, minha gostosa…

 E enroscaram. De novo. Agora, com mais força. Bocas abertas e babando. Imersos num prazer inenarrável. Escandaloso. Por mais quatro horas ininterruptas. Pra sair desabalados porta afora. Cabelos molhados e cara de missão cumprida. Depois de duas. Seguidinhas. E sem sair de cima. Eita, delícia…