Piradinha

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Há tempos não vendiam pacote assim. Coisa fina. Pra casamento de madame. Como o nome dela ninguém conhecia, sobrou pra ele, o noivo, ser o dono da dinheirama toda.

Das duas, uma: atacante basco ou filho de bicheiro do morro. E as apostas não paravam por aí: diplomata. Mensaleiro. Capo da Cosa Nostra…

Gulosa é o que ela era. E queria mais. Cobertura completa. Tomadas de rua e ensaios de estúdio. Ela pedia, eles precificavam. Assim a banda seguia. Apurada. Morro acima.

Marcaram de encontrar. Prosecco. Whisky. Helicóptero de plantão, caso a moça quisesse visitar algumas locações interessantes. E sigilo. Sigilo absoluto.

Veio a pé. Estranharam eles. Mais de trinta e quatro assistentes de butuca. Pencas de cineastas. Maquiadores. Fotógrafos e conterrâneos. Até um roteirista foi chamado às pressas. Para agregar e dar certa dramaticidade.

Nova técnica antissequestro, conjecturaram. Seu carro, uma Bentley Mulsanne, de trezentos milhões de dólares, devia estar por ali. Camuflada. Por lasers. Que tocariam em Hong-Kong. Acionando o sogro. O FBI. E o Mossad. Que acudiriam num instante.

Sua estampa era comum. Comum demais, eu diria. Meio fora dos padrões mulher-rica-prestes-a-casar-como-princesa. Uma hippie, por assim dizer. Umazinha sem eira nem beira. De colete molenga e trançado colorido. Além da saia longa. Acochambrada. Estilão home-made-nas-coxas. Diretamente do “Hair” para o encontro com os produtores. Outro truque. Só podia. Uma sósia, eis o que era. Enviada para checar se a barra estava limpa. E assim, quando a situação toda se revelasse, ela uivaria três vezes, e uma nova e esfuziante mulher surgiria. Loira. Linda. E podre de chique.

Mas ao invés de uivar, ela, com sua cara de pobre, arrastou as chinelas pelo longo tapete vermelho e sentou. Faceira. Ao lado dele. Um português. Danado de esperto e renomado promotor de eventos. Que já computava os milhares de euros da cerimônia, mesmo antes da festa começar.

É. Rico que é rico não ostenta. Pensou ele. Tentando conter a bílis e a aflição que lhe constipavam as tripas. E começou a desfiar. Mostrando o que há de mais moderno em som e imagem. Com flashes ao vivo e show pirotécnico multimídia para o encerramento.

Ela amou tudinho. Era exatamente o que procurava. Sem mudar vírgula. Nem centavo. Ponto para o “portuga”. Preocupado em como evadir aquela bolada toda pra Suíça. Sem chamar muito a atenção.

Está tudo muito bom, disse o empresário, preocupado com as data para depósito. E quando vai ser esse acontecimento, quis saber o velhote. Acompanhado de perto por sua tesoureira e advogados. Nem imagino, foi a resposta que obteve. Hein? Melhor apertar essa moça…

_Como assim, meu benzinho? Onde vai se dar a recepção aos convidados? O brinde de boas-vindas?

_Não sei, não.

_Mas a catedral, com certeza, já foi escolhida…

_Não.

Sentiu fisgar seu ciático. Melhor apelar ao futuro esposo.

_E o felizardo? Quando iremos conhecê-lo?

_Nenhuma ideia. Nem pista. Mas assim que encontrar alguém à altura, serão os primeiros a saber. Quanto a isso, fiquem sossegados…

_Quer dizer que não tem noivo?

_Não.

_Namorado?

_Também não – e emendou – Mas um dia vou ter um. Sei que vou. Sinto isso aqui ó…

A tesoureira precisou de forças, e da ajuda dos advogados, para conter o ataque do outro. Que espumava. De ódio e desespero. Ao lembrar o quanto custava a seus bolsos manter toda aquela misancene. Preparou-se para arregaçar a doida ao meio. A dentadas. Bem quando a sonsa, sem se atentar ao perigo que corria, adiantou.

_Pra que tanta pergunta? Escolhi vocês, não escolhi? O resto pouco importa. Quero muito tudo isso. Deixo pago e reservado. Os detalhes, depois a gente conversa. Que tal assim?

Era o que o homem precisava para voltar à vida. E ser feliz de novo.

_Vai fechar? Mesmo? – perguntou ele, debilmente.

A cara amarrada da tesoureira denunciava a existência de um bom coração. Era fácil perceber que o caso da moça estava mais pra interdição que pra casamento.  Mas pra ele, tanto fez, como tanto faz. Afinal, dinheiro é dinheiro. E ela que arrumasse mais algum para se tratar, que o dele estaria guardado. E rendendo. Bem longe dali.

_ Vai pagar como?

_Cartão.

Finalmente estamos conversando, pensou ele.

_Débito ou crédito? – acrescentou, salivando.

_Sei não. Mas te aviso. Assim que abrir conta. Num banco, sabe? Desses bem grandões. Abarrotado de moedinhas – e completou _É que um dia vou ter um. Sei que vou. Sinto isso aqui ó…

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