Embrulhadas Natalinas

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Outro dia fui ao shopping e descobri que o mês já era. Que o ano já era. E que o Natal estava às portas. Com suas guirlandas. Toneladas de piscas. Trânsito que ninguém merece. E a tão característica montoeira de gente. Fervilhando.

Como se todos que se ignoraram o ano inteiro, de repente fizessem as pazes. E questão absoluta de presentear. Incluindo concunhados, primos de décimo-terceiro grau e seus suplentes. Sem ter compulsão que chegue. Nem loja que dê pro gasto. Todas lotadas e contratando. 

No elevador, prensada entre duas senhoras atulhadas de sacolas, ouvi uma conversa sobre os efeitos tardios da Black Friday. Será que esticaram os descontos e só eu não vi? Melhor rever minha caixa de spam. Limbo privado e virtual, onde cai de tudo: festas imperdíveis, promoções fora de hora, batizados e velórios. Que a diacha, se serve, é pra isso. Reter o que interessa. Já que e-mail encardido (aqueles brabos, mesmo) ela não para, nem trisca. Os clique-aqui-se-for-Mané seguem livres. Perfilados e aos montes. Doidinhos pra entrar em ação. Varrendo tudo com eles. Saldos. Senhas. E o restinho da minha dignidade.

Mas voltemos à análise da histeria natalina e suas fontes. Teóricos defendem a hipótese de uma epidemia de muito-dinheiro-no-bolso, que assola o continente. Transmitida por um mosquito (macho), infectado por uma rena (de sexualidade pouco definida), que sai jingle belling por aí, contaminando meio mundo. Em altíssimo grau. Menos eu, é claro.

É quando me pergunto, seria este o último domingo antes do fim de mundo?  Pois foi exatamente como me senti. Uma sardinha escabeche em final do The Voice. Com nêgo disputando vaga à bala. Teve até risca faca por conta de um provador.   

O pior foi salvar minha filhinha. Pleiteada por um grupo afoito de donas de casa. Que gritavam e abanavam encartes. Cobrando o desconto à vista. Insistindo que o Carrefour fazia por menos. E ainda cobria qualquer oferta. Foi quando saquei minha Uzi e gritei _Larga! Que essa é minha e ninguém tasca!

Mal-entendido desfeito, hora de voltar para casa. E que visão: crianças chilicadas. Esperneando os milhões de presentes que não iriam ganhar. Lembrancinhas singelas. De três dígitos cada. Enquanto os pais, desalentados, choravam. Copiosamente.

E os Papais Noéis, então? São tantos que confesso que tive certa dificuldade em reconhecer alguns. Magrelos demais. Calvos demais. Vesgos. Tatuados até a espinha e com a barba despencando.

O que importa é a intenção, diria um deles em sua própria defesa.  Nem sempre, meu caro, Nicolau. Nem sempre. Outro dia encontrei com um, que fumava maconha e entregava cupons. Foi-se o tempo das balas. Sorrisos e cartinhas ao pé da árvore. Isso sem falar nos votos. De uma noite pra lá de feliz.

Hoje, se Papai Noel convidar pra sentar em seu colinho, desconfie. Olhe bem nos olhos do gaiato e confirme suas reais intenções. Papai Noel suburbano abandou até o trenó. Se vem, é de lotação. Chacoalhando. Num cata osso daqueles. É… A coisa anda feia pros lados do bom velhinho.

Mas estou reclamando de quê? Afinal, depois do Natal vêm às férias! E estamos falando em um mil, cento e vinte e oito horas de criança à toa e em casa. Quicando desordenadamente. De parede em parede.

Soou exagerado pra você? Imagine pra mim que trabalho fora. Com dois empregos e cinco filhos pra criar. Uma escadinha abençoada de dois, quatro, sete, nove e quinze aninhos.  E não me venha perguntar se tenho TV em casa. Isso irrita. Além de tudo, não agrega. Sendo assim, dê licença que já se passaram quatro mil e trezentos segundos das férias deles. E acabei de receber uma ligação. Da vizinha. Contando, esbaforida, que o menor já quebrou as costelas. Em dois lugares diferentes. Que o do meio fraturou o quadril. E a mais velha inflamou a canela, num bafafá qualquer de rua. Parece, também, que quebraram meu computador. Desmontaram a lava louças. E engastalharam papel na cafeteira.

Telefonei pra casa e passei o maior pito na tropa. Avisei que desse jeito ninguém entra na lista dos bonzinhos do Papai Noel. E acha que alguém ligou? Qual nada!

Pois é. Avacalharam o Natal e o Noel ficou com a conta. Mas ele se recupera. Cedo ou tarde. Enquanto isso, descabelo. E apelo ao coelhinho. Aquele. Da páscoa. Tem ainda a fada do dente. E o monstro caolho do Lago Ness.

O chupa-cabra, eu guardo na manga. Para as horas que mais precisar. No seu lugar fazia o mesmo. E escalava uns anjos da guarda pro banco de reservas. Com férias de verão, só assim. A gente nunca sabe quando, ou de quem, vai precisar…

 

 

 

 

O Maior Amor Do Mundo

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Ainda ontem, me peguei te olhando.

Lembro bem quando você entrou na minha vida. Como se fosse hoje.

Uma coisinha tão “pituca” que às vezes mal se via. Mas se sobrava, era nas roupas. Pois ao colo se ajustava como a uma luva. Como se anterior a bailarina, ao bombeiro, ou professor, existisse um pai e uma mãe. Alguém nascido com o propósito de amar esse menino. Sem nem mesmo conhecê-lo. Antes de tudo. E dali em diante.

E como você chorava. Também mamava um bocado. Pra chorar tudo de novo. Com que força e dramaticidade. O cardápio variado incluía febre, garganta e barriguinha. Sempre as madrugadas. Feriados e finais de semana.

Tinha ainda o carrinho que pinicava. Os dias que acordava do avesso e não topava ninguém. Se sossegava, era comigo. E olhe lá, que tantas vezes te venci foi no cansaço. Com dia encavalando noite. Onde o sono que te faltava, fiz questão de resgatar. E acumular todinho.  Pra depois arrastar casa afora. Cansada. E feliz. Como nunca em toda minha vida.

Agora, que virou criança, fazemos quase tudo juntos. E percebi que ainda sei brincar. Mas se acontecer da brincadeira desandar, aí, melhor rever o rumo dessa prosa. Antes que a manha vire birra. Encorpada e bochechuda. Vinte quilos bem pesados de independência precoce e da mais pura teimosia.

E quem disse que ensinar não é amar? Dizer não, também faz parte. Tão vital e necessário quanto encher de beijos e sair pra passear. Sendo assim, sirvo-me de fartas porções de combinados, conversas francas e pitos merecido. Mesmo que não goste. E nem me entenda.

 Dizem que espichou. Ganhou corpo. E virou moço. Pra mim, a carinha ainda é a mesma. Mas sei que anda mexido. Mudaram as passadas. O volume das lições. E a tônica das perguntas.

Você vai me testar. Responder às avessas. Sair correndo, quando preferia que ficasse. Numa ausência anunciada de tudo aquilo que já não volta mais. Como se uma botoeira mágica fosse surgir de repente. Enorme. Vermelha. Onde se lê, em letras garrafais, Em caso de crescimento acelerado, quebre o vidro. Imediatamente. 

Virão outros aniversários. Formaturas. E com elas os estágios. Empregos. O primeiro porre. E o primeiro amor.

Até chegar o dia que não vou mais te buscar. Hoje, é você quem dá carona. Quem aconselha. E, às vezes, ri de mim. Que ainda sou a mesma. Aquela. Meio fora de moda. Que não dorme, nem sossega, esperando você chegar. Com a cama pronta e o leite no jeitinho. Vai que precise de algo. Ou mesmo se não precisar. Sei que ainda não me entende.  E vai dizer que exagero. Que não vi que virou homem. Mas eu vi, meu querido.  Ô, se vi…

Já faz tempo que a gente não se fala. É natural. Acontece com quem mora longe. É. Meu grande amor, virou visita.  E vivo assim, intercalando presença com saudade. E se não vem, reclamo. Que sinto falta. Que vi suas fotos outro dia e deu uma vontade louca de chorar…

Eis que um dia, você vem acompanhado. E de umas vou gostar mais que de outras. Mas a escolha e sua. E sei que vai se ajeitar. Do meu lado, faço votos. E me desdobro. Fiel na torcida. De butuca e de pertinho. Sem deixar de acreditar. 

Soube por outros que vai viajar. Mudar. Errar. Acertar. Desgarrar de vez. Voltar. Lombar mundo e até casar.

 Logo virão os netos. E aí, sim. Vou te pegar me olhando. Como quem finalmente entendeu tudo. Bastou pôr os olhos naquela criança. Pois é…

Então, aproveite! Que vai passar voando. E nunca será suficiente. Vai por mim. Que de saudades, eu entendo. E conheço como ninguém.

Piradinha

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Há tempos não vendiam pacote assim. Coisa fina. Pra casamento de madame. Como o nome dela ninguém conhecia, sobrou pra ele, o noivo, ser o dono da dinheirama toda.

Das duas, uma: atacante basco ou filho de bicheiro do morro. E as apostas não paravam por aí: diplomata. Mensaleiro. Capo da Cosa Nostra…

Gulosa é o que ela era. E queria mais. Cobertura completa. Tomadas de rua e ensaios de estúdio. Ela pedia, eles precificavam. Assim a banda seguia. Apurada. Morro acima.

Marcaram de encontrar. Prosecco. Whisky. Helicóptero de plantão, caso a moça quisesse visitar algumas locações interessantes. E sigilo. Sigilo absoluto.

Veio a pé. Estranharam eles. Mais de trinta e quatro assistentes de butuca. Pencas de cineastas. Maquiadores. Fotógrafos e conterrâneos. Até um roteirista foi chamado às pressas. Para agregar e dar certa dramaticidade.

Nova técnica antissequestro, conjecturaram. Seu carro, uma Bentley Mulsanne, de trezentos milhões de dólares, devia estar por ali. Camuflada. Por lasers. Que tocariam em Hong-Kong. Acionando o sogro. O FBI. E o Mossad. Que acudiriam num instante.

Sua estampa era comum. Comum demais, eu diria. Meio fora dos padrões mulher-rica-prestes-a-casar-como-princesa. Uma hippie, por assim dizer. Umazinha sem eira nem beira. De colete molenga e trançado colorido. Além da saia longa. Acochambrada. Estilão home-made-nas-coxas. Diretamente do “Hair” para o encontro com os produtores. Outro truque. Só podia. Uma sósia, eis o que era. Enviada para checar se a barra estava limpa. E assim, quando a situação toda se revelasse, ela uivaria três vezes, e uma nova e esfuziante mulher surgiria. Loira. Linda. E podre de chique.

Mas ao invés de uivar, ela, com sua cara de pobre, arrastou as chinelas pelo longo tapete vermelho e sentou. Faceira. Ao lado dele. Um português. Danado de esperto e renomado promotor de eventos. Que já computava os milhares de euros da cerimônia, mesmo antes da festa começar.

É. Rico que é rico não ostenta. Pensou ele. Tentando conter a bílis e a aflição que lhe constipavam as tripas. E começou a desfiar. Mostrando o que há de mais moderno em som e imagem. Com flashes ao vivo e show pirotécnico multimídia para o encerramento.

Ela amou tudinho. Era exatamente o que procurava. Sem mudar vírgula. Nem centavo. Ponto para o “portuga”. Preocupado em como evadir aquela bolada toda pra Suíça. Sem chamar muito a atenção.

Está tudo muito bom, disse o empresário, preocupado com as data para depósito. E quando vai ser esse acontecimento, quis saber o velhote. Acompanhado de perto por sua tesoureira e advogados. Nem imagino, foi a resposta que obteve. Hein? Melhor apertar essa moça…

_Como assim, meu benzinho? Onde vai se dar a recepção aos convidados? O brinde de boas-vindas?

_Não sei, não.

_Mas a catedral, com certeza, já foi escolhida…

_Não.

Sentiu fisgar seu ciático. Melhor apelar ao futuro esposo.

_E o felizardo? Quando iremos conhecê-lo?

_Nenhuma ideia. Nem pista. Mas assim que encontrar alguém à altura, serão os primeiros a saber. Quanto a isso, fiquem sossegados…

_Quer dizer que não tem noivo?

_Não.

_Namorado?

_Também não – e emendou – Mas um dia vou ter um. Sei que vou. Sinto isso aqui ó…

A tesoureira precisou de forças, e da ajuda dos advogados, para conter o ataque do outro. Que espumava. De ódio e desespero. Ao lembrar o quanto custava a seus bolsos manter toda aquela misancene. Preparou-se para arregaçar a doida ao meio. A dentadas. Bem quando a sonsa, sem se atentar ao perigo que corria, adiantou.

_Pra que tanta pergunta? Escolhi vocês, não escolhi? O resto pouco importa. Quero muito tudo isso. Deixo pago e reservado. Os detalhes, depois a gente conversa. Que tal assim?

Era o que o homem precisava para voltar à vida. E ser feliz de novo.

_Vai fechar? Mesmo? – perguntou ele, debilmente.

A cara amarrada da tesoureira denunciava a existência de um bom coração. Era fácil perceber que o caso da moça estava mais pra interdição que pra casamento.  Mas pra ele, tanto fez, como tanto faz. Afinal, dinheiro é dinheiro. E ela que arrumasse mais algum para se tratar, que o dele estaria guardado. E rendendo. Bem longe dali.

_ Vai pagar como?

_Cartão.

Finalmente estamos conversando, pensou ele.

_Débito ou crédito? – acrescentou, salivando.

_Sei não. Mas te aviso. Assim que abrir conta. Num banco, sabe? Desses bem grandões. Abarrotado de moedinhas – e completou _É que um dia vou ter um. Sei que vou. Sinto isso aqui ó…