O Mala

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Com certeza, não foi uma boa ideia. Mas era tarde. Fazer o que, se já estavam lá.

Fileira C. Poltronas doze e treze, respectivamente. Ela, de longo. Ele, de tênis. Sentados e assistindo. Bom. Ao menos, ela. Sem perder um agudo que fosse. Enquanto que ele não parava um só minuto. Num mexe e remexe daqueles. Incomodando meio mundo.

_Que comichão é esse? – ralhou ela.

_Tô procurando o controle? Queria dar uma zapeada

_Tá doido, é? Por acaso acha que está onde? Isso é um teatro, homem! Eu, hein…

_É que não gostando muito dessa programação. Achei fraquinha…

_Fraquinha estou eu. E é da cabeça! Que não sei onde estava quando fui inventar de trazer você aqui…

_ E o som ruim demais! Não dá pra entender uma palavra do que dizem.

_Desde quando você fala italiano?

_Chame alguém, ande! Mande mexer no áudio. Ou pôr legenda. Que está me dando uma agonia daquelas.  E por falar em agonia, lá vêm eles cantando de novo…

Pareceu ter quietado. Por três longos minutos. Foi quando começou a assobiar.

A reação dela foi imediata. Num cutucão fenomenal. Praticamente um semicoice.

_Credo! – reclamou ele, que inventou de perguntar _ Será que cai?

_Quem?

_O Vasco, ué? Que horas são? Se perder hoje, já era. Matematicamente rebaixado. Sem choro nem vela…  

O shhhhhhhhhh veio de trás. Fileiras D, E ou F. Difícil precisar a fonte.

Ela encolheu. Virou tatu-bolinha. Ele nem fez conta. Seguia aborrecido e perturbando. Mais que nunca. Tamborilava alto. Estalando os beiços. Chacoalhava o corpo e a poltrona ia com ele. Fazendo o contraponto.

Novos olhares. Ela choraminga.

_Dá pra sossegar? Você é impossível!

_E você é uma lindinha! – retrucou o sonso _ Agora, aproveite o elogio e busque uma cervejinha pro papai.  Tô precisando muito molhar o bico, viu?

_ Isso aqui não é boteco, não! É lugar fino, criatura…

_Já vi tudo! Não tem breja na budega

_Jesuisssss…

_ Bom pra aprender. Da próxima vez trago de casa. Um isopor cheinho assim…

Outro shhhhhhhhhh. E esse tinha nome, sobrenome e bico torto. Sem falar que vinha de todos os lados. 

_Viu, só? Tá feliz?

_ Se ao menos cantassem mais baixo. Ainda se fosse um pagodinho… 

_Desisto de você!

Debandou pro lado dela. Cheio de dedos e de graça _ Desiste não, pintinha

_ Você não tem jeito…

_Prometo que volto bonzinho.

_Volta? De onde?

_Do banheiro. Que tô aperreado. Fale pra galera dar um pause – bem quando tocou o telefone _ Carlão? E aí, meu brother!

O desconforto foi geral.

E ele tentou explicar _ Gente, é o Carlão…

_Mas será o Benedito? – insurgiu-se ela.

Quando começaram a acreditar numa trégua humanitária, surgiu ele de novo.

_ vendo algum garçom por aí? 

_Hein???

_Esquente não, que vou buscar. Que prefere? Fritas? Linguicinha? Ih… Que cara é essa? Se queria pastel, era só falar…

_ Quer saber? Cansei. Pra mim, chega!

E catou sua bolsinha, decidida a partir.

Foi a vez dele interpor recurso.

_Peraí. Peraí. Que essa eu conheço – e soltou a voz no mundo _ Funiculí, Funiculá. Funiculí, Funiculáaaaaaa…

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