Um espírito baixou lá em casa

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Ontem um espírito baixou lá em casa. Nele. Antes fosse em mim. Assim dava de louca. Desopilava. Mas, não. Ficamos os dois. Ali. Confinados. Com ele azucrinando. Caçando encrenca. Sem parada. Nem porquê.

E olhe que dar chilique é comigo mesma. Mas cuidar do piti alheio, comadre, já é outro departamento. Ainda mais se vem barbado. Com quase dois metros de espinhela caída. E justo pro lado de quem! Desestruturei. Saí desfiando rente. Talhando beicinho à faca.

Tentei mudar de assunto. Virar o disco. Seguir em frente. Não funcionou. E o pelego só piorava. Quer saber? É trabalho. E dos bravos. Só pode. Já devo estar acumulando milhas. Para as próximas vinte encarnações.  No mínimo. Assim volto raio de luz. Vaca indiana. Ou herdeira da Madonna. Vai saber, né?

Invoco, então, as infalíveis. Aquelas que fazem a Liga da Justiça parecer a Vila dos Smurfs. São elas. As minhas vizinhas. Palpiteiras de ocasião. Com jeitinho para quase tudo. De simpatia do bucho cheio a como invadir um Wi-Fi em dez lições. Sem mestre, nem senha.

Sugestão 1: descarrego.

Recuei. Lembrei da Jovelina. Cujo marido embatumou num repente. A pobre diaba tentou tudo. Abnegação. Mimos. Atenção redobrada. Abriu mão da família. Amigos. Trabalho. Até do horário no salão. E nada. Absolutamente nada! Foi quando apelou. A um padre. Exorcista. Sétimo dan em aikido.

As visitas foram tantas, que fugiram. Ela e o sacerdote. Num fusquinha amarelo. Airbag duplo. Sensor de ré. Travas elétricas. Ótimo estado de uso. Ouvi dizer que estão tentando vender. Trocar por passagens para ir a Roma. Ver o papa. Se souberem de algum interessado…

Sugestão 2: chá de vem-cá-meu-nêgo (ou melô do “guenta”-bem-dado)

Vai nessa! Lembram da Aleluia? Quase morreu, a infeliz. O fulano, de tão entusiasmado, só pensava em encostar. Enquanto a outra, pobrezinha, mal andava. Sofria até para respirar. Fraquinha. Esquálida. Vista turva. E ele querendo mais. Da missa, o terço. Todinho. Guloso. Eu, hein? Prefiro o xarope ao unguento. Benza-Deus!

Sugestão 5.698…

Ai. Ai. Melhor parar por aqui. Se for esperto, ele que se corrija. Sozinho. Por conta e risco. Afinal, o acordo foi claro: te faço feliz e você retribui. Sempre na mesma moeda. Não era isso, não? Sei… Letras miúdas no rodapé? Tá… Não vi. Mesmo. Por falar nisso, aproveite para ver se estou lá, esperando na esquina. Quem sabe, quando voltar…

Eu? Cansei dessa vida. Resolvi sossegar. E desvirar o santo. Aquele. O Antônio. Que esqueci há uns três anos. No fundo de um armário escuro. De cabeça para baixo. Afogado num copo d’água e amarrado em silver tape.

Só pode ser revanche. Ah, meu Santinho, pegue leve com essa moça. Era brincadeira, viu? Beato mal-humorado, gente! Credo…

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