Quer namorar comigo?

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Terminou num beijo. Ou começou. Depende do referencial. O ponto é que algo surgiu entre eles. Com paixão e intensidade.

Ela nem piscava. Era puro sorriso. Rasgado. De orelha a orelha. Sonhava acordada. Com ele. Que retesou o corpo enquanto procurava. Remexeu aqui e ali. Revirou os bolsos. Não sossegou até encontrar.

_Arrá! Aqui está – repousando uma cadernetinha surrada sobre a mesa.

_Que é isso? – perguntou, curiosa.

_ Bom, agora que está tudo certo entre nós, melhor deixar claro umas coisinhas. É como minha mãe costuma falar: o combinado não é caro. Então, vou fazer umas perguntinhas. Bobagens. Nem esquente. Aí, é só calibrar. E seguir. Felizes para todo o sempre. Tudo bem pra você?

_Mande!

_Vejamos… Você cozinha?

_Não muito bem, mas…

_Como assim “não muito bem?” O trivial básico você garante, né? Não ganho pra comer fora todo dia, não! Sem falar na minha gastrite. Na alergia a conservantes. E na intolerância a cloreto de sódio. Dá azia, sabe? Uma azia tão grande. Uma queimação…

_Hein?

_E lavar e passar? Você sabe, não sabe? Engomar, minha mãe ensina. Só não pergunta demais. Ela odeia quem fica perguntando. De resto é fácil. Com exceção das camisas. Que essas prefiro à mão. Bom que vai acostumando. Caleja pra quando vierem as crianças. Roupa de criança é terrível. Encolhe e rasga só de olhar. Digo isso porque tenho duas. Meninas. Uma do primeiro, outra do segundo casamento…

_Segundo?

_Por falar em crianças, já pensou em conversão?

_Oi?

_É que sou judeu. Ortodoxo. E minha mãe não admitiria um filho de ventre não-hebreu. Imagine quatro.

_Quatro?

_Cinco? Prefere cinco? Por mim, até seis. Amo família grande. Barulhenta, não! Mas, grande! E que guarde os sábados. Jejue. Uma beleza. Vai por mim. Vai por mim…

Agora é ela quem se mexe. E remexe. Numa agonia da gota. Quase pula.

_Que foi, minha chickabiddy? Algum problema?

_Está ouvindo isso? Meu celular. Acho que está tocando…

_Por falar nisso, aproveite e cancele o facebook. Temos uma única inscrição para a família. Melhor assim, não acha? Imagine só, quanta bobagem! Instagram. Candy Crush. Whatsapp…

_Noooossa. É ele mesmo. E está gritando meu nome. Lá longe. No banheiro…

_Aonde você vai?

__Ao banheiro. Já disse.

_Bexiga baixa. Adivinhei? Tenho uma tia assim, pobrezinha. O final nunca é bom: infecção ou incontinência. Daí, pra controlar, só mesmo no fraldão. Pra você, melhor G. Quase nem vaza. Uma beleza. Embalagem com oito ou doze unidades…

Ela nem ouviu a metade. Já que corria. Muito. Dobrava quase cinco quadras e ainda achava pouco. Sumiu. Nunca mais foi vista. Ao menos não por ele. Que coisa, né, gente? Casal tão bonito…

6 comentários sobre “Quer namorar comigo?

  1. Oioioi Lu, muito bom. Sabes que me divirto muito lendo teus textos. Já comentei que imagino alunos os interpretando, teatralizando..bjs bjs fica bem…

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  2. Olá, sou aluna da professora Lia de Videira. Gostaria de saber o significado da palavra ” chickabiddy ” . Soubemos que você estará autografando seu livro em Videira. Gostaríamos de desejar boa sorte e uma ótima estada em nossa cidade.

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  3. Olá meu nome é Rita de Cássia sou aluna da professora Lia e fomos convidados a visitar e a ler seu site só queria disser que adorei os seus textos são muito criativos e adoráveis de ler e também queria te desejar boas vindas a Videira e boa sorte um grande beijo a voce.

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