Gato preto

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Em um outubro qualquer. Reunião secreta do grupo de feministas. Terceiro encontro.

_Ontem queimei meu sutiã.

_E eu me recusei a fazer sexo com meu marido. Pela sexta noite consecutiva…

Ouve-se alguém bocejar. Tilintar de copos. A líder se impacienta. Pede a palavra e passa o sabão.

_Minhas irmãs e companheiras, até quando choraremos as mesmas migalhas? Chega de agir como se só de forno e o fogão conhecêssemos! É hora de um basta. Somos mais que alcoviteiras. Mais que serventes ou amantes. Precisamos de um novo modelo. Uma voz dissonante que nos represente. Capaz de livrar dos grilhões do patriarcado, de uma vez por todas!

Silêncio. Ninguém nem pisca. Em pé, só a velha faxineira. Que cruza o salão arrastando alto as chinelas.

_Dias atrás, catei o desinfeliz do pai das minhas filhas bulindo com meus engradados de aguardente – pausa pra cuspir e limpar no verso da mão _ Sabem o que eu fiz? Capei o fio duma quenga.

Bastou pra mulherada endoidar. Não só gritam, como também aplaudem. Ovacionando a justiceira de ocasião. Que segue descrevendo, em riqueza de detalhes, o jeito que dera no marido abelhudo.

A líder volta à carga _ Ouviram só? Era disso que eu falava. Uma mulher sem amarras. Que troca o discurso simbólico pela ação efetiva! Uma de nós. Capaz de mostrar a esses chauvinistas onde é o seu lugar! Não vão mais nos dizer como andar, quando comer ou o se podemos, ou não, beber! É, minhas caras senhoras. Dessa humilde camarada que nos vem o exemplo. Uma mulher simples. Fantástica. Uma militante que não foge à luta. Uma verdadeira revolucionária…

Descontrole geral. Histeria coletiva. Choro convulsivo e partilhado. A faxineira nem se impressiona. Cata o que é seu e some. Manquejando rua afora. Ao lado de uma das caçulas, pra lá de contrariada. Depois de muito andar, a filha desencanta _Ô, mãe, diz só uma coisa…

_Hein?

_Você escangalhou o pai por causa dessas bigodudas, foi?

_Quem? Elas? Nunca! Põe na conta do Feliciano.

_ O gato? Aquele preto sarnento que mora atrás dos vasilhames emborcados?

_Morava! Até seu pai mexer com ele, pobrezinho – e completou_ Quero ver judiar de um bichano agora… Mas, ande. Me conte. Do que foi que as donas me chamaram mesmo?

_Fantástica. Militante e… Teve mais um… Lembrei! Revolucionária.

_Ah, foi é? _ e seguiu. Rebolante. Vingada. Feliz que só ela.

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