A manicure

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Dos clientes da dona Abrilina, como o seu Dalvimar, não haviam dois. De certo.

Ela, manicure. Num modesto salão de bairro. Ele, juiz. Bem resenhado. Temido pelos seus e por todos. Conhecido pelo “cabra” seco que era. Rude. Tacanho. Incontestável de pai e mãe.

Acesso a ele, só mesmo a dona Abrilina. Com quem mantinha sagrados encontros semanais, a portas fechadas. Muito se especulava sobre o tempo que passavam juntos. Trancafiados. Em silêncio quase absoluto.

_Já disse. Faço-lhe as unhas. E pronto. Ô, gente curiosa, credo! – fingia desconforto e seguia. Lixando e cutucando. Como se a fama repentina não lhe fizesse agrado algum.

Se bem que, depois de quase ano e meio atendendo ao magistrado, o que de início parecia interessante, acabou por tornar-se um caroço.

_Olhe lá, hein, dona Abrilina? Só cutícula. Sem apelação. E nada de deixar fundinho. Nem pintar, lixar ou esfoliar. Isso é coisa pra moça. Ou nêgo chacoalhado das ideias. Eu, não! Sou macho. Nunca se esqueça disso – era como seu Dalvimar costumava abrir os serviços.

Depois, já mais acostumado, começou a baixar guarda. Logo esmaltava até os pés. Devidamente hidratados. Massageados de cabo a rabo. Fio a pavio. Até o dia em que chegou mais cedo. Entre arisco e ouriçado. Olhar angustiado, como quem vê sem enxergar. Bastou fechar a porta para abrir o coração.

_Ô, dona Abrilina, preciso que me pele!

_Ãh?

_As orelhas. Preciso muito!  – disse apontando uns tufinhos ouriçados que espetavam lóbulo acima _ Não bastassem os processos e destituições, agora isso! Quero tudo fora! E quero já!

_Veja bem, seu Dalvimar, sou só manicure. Mas sei de uma mocinha, que com certeza poderá ajudar.

_Nem me venha com conversa mole, que não aceito outra que não a senhora. Vamos! Que mal pode haver? Quem não sabe, aprende. Afinal, sou figura pública. E minha reputação, onde fica? Então, ande! Cuide disso. Tenho pressa e muito ainda a despachar.

Dona Abrilina, sem outra saída, cedeu. Depois acostumou.

Eis que não demora e surge ele. Outra vez. Daquele jeito. Mexido e esquisito até a alma. Com um olhar que ela já conhecia, “Ai, ai, ai, ai. Lá vem, meu santinho. Lá vem…

Não deu outra.

_Ô, dona Abrilina, preciso que me pele! – e, antes que ela pudesse pensar, ou reagir, ele seguiu explicando _ É meu pescoço…

_Mas, seu Dalvimar…

_Melhor encurtar de vez o falatório. Se peço, é porque preciso. Então, ande! Que já nem posso com as togas. Dito isso, demando pronto atendimento. E que seja breve!

Lá se foi ela. Novamente. Contrariada que só.

Logo depilava orelhas, pescoço, ombros e peito. Quase chegando à barriga. Até voltar à carga. A plenos vapores. E com cara de novidade.

_Então, Abrilina, preciso de uma mãozinha. Coisa pouca e sem maiores implicações.

_Sei…

_É meu cabelo, Abrilina. Não sei não. Acho que não condiz com minha estampa. Não compõe mais como costumava. Está ralo. Opaco. Murchinho. Infirmus

Como ela não disse nada, ele continuou _ A priori, pensei numas mechas. Talvez uns reflexos acobreados…

_Ô, seu Dalvimar, quantas vezes vou ter que repetir: sou só manicure! Não bastou ter aprendido a depilar? Cabelo não dá. Nenhuma chance. Não levo o menor jeito. Pede outra coisa.

_Se é assim. Tudo bem. Quero fazer a pélvis. Frente e verso. Cavada rente e desenho de pimentinha. Pode ser?

A senhorinha engasgou. Perdeu o chão e a espátula. Mas antes que o magistrado retomasse o discurso, já se encontrava em pé. Ao seu lado. Examinando atentamente as madeixas agrisalhadas.

_Então, vejamos… Como o senhor prefere o reflexo? Mais largo nas pontas ou na raiz?

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