Pão de Banha

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Acuados. Completamente. Sem ter onde se apegar. É a primeira vez que uma mulher, à frente do departamento de projetos, fecha um contrato desse tamanho. Falta pouco. Questão de jeito. E arrocho. O segredo: não dar brecha. Nem tempo pros gringos se recuperarem.

É isso. Um embate histórico: só eu e o sucesso.

Bom. Eu. O sucesso. E o cabeção de um estagiário, doido o suficiente para interromper o meeting do século, e avisar _ Seu celular…

Sinto a veia pulsando sob os olhos _ Não falei que…

_Seu marido. Vida ou morte…

Penso nas crianças. Na escola sitiada. Atiradores de elite pendurados em árvores, enquanto caças da FAB rastreiam o perímetro _ Oi?

Dou outro lado, nenhuma sirene. Nem sinal dos cães farejadores_ Tô aqui, no mercado, e como não entendi os garranchos da Neca, resolvi te ligar. Biscoito de chocolate du-ci, que raios poderia ser du-ci?

_Doce – quase grito. Quase morro. Quase engulo o celular (e a cabeça do estagiário. Tudo junto).

_Ah, tá! Faz todo o sentido. BISCOITO DE CHOCOLATE DOCE! Mais uma coisinha: quadrado ou redondo?

Ai.Ai.Ai! Começo a derreter. Eu. O negócio de milhões. E a sala. Num saco só. Como arte de Dali.

Ele segue, animado _ Tem redondo, quadrado e com cara de bichinho. Qual cê acha?

_Quadrado – os gringos se aproveitam da parada providencial pra confabular.

_É que está escrito, aqui, ó: BISCOITO DE CHOCOLATE DOCE TRAQUINAS, e BISCOITO DE CHOCOLATE DOCE TRAQUINAS só tem REDONDO! Tudo bem?

O chefe dos gringos consulta o relógio. Pela segunda vez _ Tchau. Preciso muito…

_Eu! Eu! Eu! Tudo é você nessa vida? Nananinanão, mocinha! E eu? E as crianças? – é. Ferrou-se. Marido desempregado é osso. Com enxerto de titânio. E rebite duplo na carenagem superior.

Desligo. Celular e estagiário fora da sala e de alcance. Assim como a proposta milionária. Mas, perdido por perdido, emendo um novo round, logo depois do almoço.

Preciso de um fato novo. Um gancho. Um milagre. Então, foco. Compenetradíssima. Até que o marido volta a incorporar_ Tô montando o lanche da Clara. Como é que faz?

Respondo. Virada no capeta _ A Neca faz!

_Esqueça a Neca! Eu faço! – pra completar, na sequência __ Só não sei como. Ensina?

Virgem santa da aorta dilatada!  É hoje que eu enfarto... E tentei. Novamente _ A Neca…

_A Neca troca a roupa. A Neca põe na cama. A Neca leva e traz da escola. Que mais a Neca faz? Conhece os sogros e circuncisa os netos? Não mesmo, viu, madame? Que a Clara, se não tem mãe, tem pai! E esse aqui, vai fazer o lanche hoje!

Tem horas que nada adianta.  Então, toco. Que nem doida. Pra cruzar meia São Paulo num tapa. Assassinar um marido. E voltar. A tempo de não ser descoberta. Nem despedida.

Em casa, o cenário é de ópera. Bufa! A começar pela Neca. Contrariada. Batendo boca e vassoura (coitadinhos dos meus rodapés) _ Olhe bem, Dona Plumba, com seu Vincenti em casa num dá!  Mas, num dá, Mesmo!  – e eu não sei, Neca? E eu não sei?

A outra continuou _ Retemperô meu frango, Dona Plumba! Pode isso? Disse que fartava estragão e cumilho! Estragão tá é o faro do seu Vincenti… – e sai. Reclamando. Escada acima.

Na cozinha, uma Clara quietinha. Mãozinhas lotadas de sacolas de mercado e tranqueiras.

_Cadê a lancheira? – perguntei.

­_Precisa? – ele respondeu

O melhor guardou pro fim. No conteúdo dos pacotes. Quer saber? Jura? Lá vai: amendoim picante, provolone chips e anéis de cebola. Mencionei a garrafa pet de litro e meio de Coca? Pois é…

Métodos efetivos de morte lenta. Elencados um a um. Mas, devido ao pouco tempo que sobra, prefiro centrar no essencial. No caso, a lancheira. Da Rapunzel. Que ainda aguarda por algum recheio substancioso e livre de gordura trans.

_A bisnaguinha e o requeijão, cadê? – palma estendida e nenhuma paciência.

_Que bisnaguinha? Que requeijão?

_Você não comprou?

_ Por que não disse que ela estava de castigo?

_Não é castigo. É alimentação saudável.

_Dá no mesmo, não dá?  – e pra piorar _ Tem pão de banha. Serve? Recheie com sardela…

Desisti. O que veio na sequência, conto mais tarde. Assim que acabar de despachar uns currículos. Dele. É claro! Ah! Incluí você na lista. Salário e benefícios? Desapegamos desses luxos. Do jeito que a coisa anda, o que vier primeiro, atende! Marketing. Produção. Topografia. Adestramento de animais. Transporte ilegal de armas. Bingo. Portaria de muquifo. Enfim…

Propostas envolvendo plataformas petrolíferas, ou salinas insalubres e distantes, também são aceitas. E avaliadas com carinho, viu?

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