A Consulta

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_Entre. Só um minutinho, por favor_ nem levantou os olhos de suas fichas e receituários _Pronto. Me diga. O que traz o senhor aqui?

_Sabe o que é doutora, tinha acabado todo o refrigerante diet, então…

Ah, não! Outro daqueles velhinhos que vem ao consultório só para bater papo. Mil vezes a punção de um abscesso! Conhecia bem o tipo: mora sozinho, tem mais de setenta e alguns não batem lá muito bem. Mas, hoje não vai dar, não. Estava em seu enésimo paciente. Só convênio. Sem almoço. E olhe que já era praticamente hora do jantar.

_Façamos o seguinte: largue suas sacolinhas aí e tire a roupa, que já vou examiná-lo.

_É pra deixar aqui?

Santa paciência. Falo grego por acaso? Aqui. Ali. Tanto faz. Desde que acabemos logo com isso. A essa altura, tudo que a doutora queria era ir para casa. Era seu quinto plantão ininterrupto. A falta de sono, e de comida descente, estava definitivamente mexendo com ela.

_Ainda aí parado? Largue essas sacolas e tire a roupa senhor… Enzo…

_Júnior.

_Tá. Enzo Júnior. Que seja. Agora vamos ver… Está me parecendo tudo normal, seu Enzo…

_Júnior.

_Sim, sim… Agora abra bem as pernas…

Apalpou. Olhou. Nada aparente, até aqui. O velhinho estava cada vez mais sem lugar. Velhinhos… Bom, melhor que adolescentes. Nesses, melhor nem tocar, que o bichinho já responde. Uns ficam sem graça. Outros se acham o máximo. Ainda me pergunto se cardiologia não teria sido uma especialização mais acertada. Eis que vem a pior parte: a do convencimento.

_Por enquanto, tudo bem, seu Enzo Júnior. Agora preciso que o senhor vá até aquela salinha, e fique de joelhos sobre a maca. Numa posição de gatinho…

_Ah, não! Assim eu não fico…

_Seu Enzo Júnior, vamos facilitar as coisas. Tem mais gente esperando… Será que terei que chamar um enfermeiro?

_A senhora chame quem a senhora quiser. Assim eu não fico e…

Ai, meu Deus! Depois a gente manda embora sem examinar e ainda reclama. Aí vem com a conversa mole de que médico particular é outra coisa, que nem no SUS ele seria atendido assim e blá,blá,blá…

_Então, seu Enzo Júnior, me dê a sua mãozinha aqui e fique bonitinho na posição, por cinco minutos. Quando o senhor se der conta, já acabou, ok?

Ele se manteve firme. Não quero. Não preciso. Não vou. Ela que já tinha gasto todo o seu bom português, perdeu de vez a esportiva. A paciência já tinha ido, três pacientes atrás. Mandou entrar dois enfermeiros. Não demorou nem dez minutos e o seu Enzo já estava de volta à sala de atendimento, vestindo novamente as calças.

Ele, visivelmente contrariado, não parava de reclamar. Injuriado. Mesmo.

_O senhor, aparentemente, não tem nada. Vou pedir mais uns exames. Só por garantia. Alguma dúvida?

Ele olhou bem feio para ela. Aproximou-se mais ainda da mesa da doutora e retomou seu discurso. Dessa vez, sem espaço para interrupções.

_Não tinha refrigerante diet, nem normal. Então o pessoal do restaurante mandou suco. Fruta do dia. Por conta da casa. Agora nem adianta ligar reclamando que a comida tá fria. A culpa é toda da senhora _ e completou _Tô pondo na sua conta e se quiser mais alguma coisa, melhor ir buscar. Porque entrega para a doutora eu não faço nunca mais.

Saiu batendo a porta.

4 comentários sobre “A Consulta

  1. Oi, lu, que final surpreendente, não imaginei mesmo que seria este.Dei boas risadas. Seu texto fluiu fácil. Parabéns! Vou ler mais. Adoro crônicas.Bem legal conhecer uma jovem escritora.Ou escritora jovem?
    Beijo.

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