Programão de pai

4 Comentários

Lar. O merecido pouso do guerreiro.

Foi uma semana cheia. Dessas em que os dias duram meses. E os problemas brotam. Assim, à toa. Um mais cabeludo que o outro. Mas quem se importa? Logo estaria em casa. São e salvo.

 Cansado. Mas feliz. Sensação plena de dever cumprido. Melhor entrar.

Tudo nos conformes. Não tivesse ele se esquecido do cachorro. Um até bem grande. Capaz de converter o mais inofensivo quintal em campo hostil. Minado. Agravado pela a chuva de ainda há pouco. Ontem, até conseguiu desviar. Mas hoje, quando viu, já era tarde.

O mais novo foi quem deu o sinal _Manhê, o papai foi abatido – ao que a mulher emendou _ De novo? Direto pro tanque. E vê lá, hein? Se sujar o chão, cê que limpe. Tá me ouvindo?

Quase em casa. Quase no banho. Quase mudando de ideia e voltando correndo pro trabalho. Não estivesse ele com dois moleques pinçados. Um em cada perna. E com um pé de sapato imundo. Por lavar. Lá nos fundos. Numa pia que mal cabia o cotovelo.

Fez lambança. Molhou tudo. Deitou sabão no olho do mais velho. Deu mal jeito nas costas e ainda ouviu reprimenda.  

Melhor beber. Se tivesse como. Mas no dia em que nada ajuda, nem a geladeira alivia. E olhe que vasculhou. E vasculhou com fé. Latinha? Só na despensa. Quente. A mulher veio com gelo. De que adianta, me diz? Ainda se fosse uísque. Mas era cerveja. Melhor deixar pra lá.

Passou a seco. Sem um belisco, nem cigarro. Pra piorar, só mesmo a filha, mais duas pencas de amiguinhas, aboletadas no sofá e assistindo Chiquititas (bem na hora do jornal e na maior zona). Quis transferir as ferinhas. Nada feito. Dalí não arredavam. Nenhuma chance.

Tentou o escritório. A cozinha. A TV preto e branco da lavanderia. Todas ocupadas. É. Não deu, resignou-se. Foi ter com a patroa. Sabem como é. Bater um papo, em nome dos velhos tempos _ Nem vem que não tem – esquivou-se ela_ Tô dizendo…

E não parou por aí. Teve também o fatídico, Paiê, ele me chutou!, seguido pelo esperado, Foi ele quem começou! Eu juro!, e o já famoso, Seu Cleber, o chuveiro queimou. Dá pra trocar?, somado ao não menos importante, Benheeeê, o cachorro tá com berne. Faz compressa de bacon nele pra mim?

Situações extremas pedem medidas drásticas. Foi o que fez, escondendo-se sob as cobertas. Quietinho. Quase sem respirar. Até que sentiu a ponta da camisa repuxando (a sua frente, um homem aranha todo sujo. Que cutucava o nariz e o fitava. Ambos com a mesma intensidade e insistência).

_Paiê, brinca comigo?

_Amanhã.

_Hoje é amanhã?

_Não. Hoje é hoje.

_Demora pro hoje virar amanhã?

_Um bocado.

_Um bocado de quanto?

Resolveu apelar pra autoridade (se é que ainda tinha alguma).

_Vai dormir, moleque!

_Bem que eu queria. Mas não posso.

_Por quê?

_Tô de plantão. Não percebeu? – pra cochichar, em seguida _É a casa, pai. Anda virada. Tipo do avesso, sabe?

Eu que o diga, meu filho. Eu que o diga…Catou o espirro de herói e com ele rolou até cansar. O barulho atraiu a tropa toda (perdia quem caísse primeiro da cama. Só não valia morder. Nem arregar). Um bololô só: mistureba suada de mão de pai, com pé de filho. Colados num mega-abraço-urso. Sobrando joelho lanhado pra cá, e boca banguela pra lá. Tudo melado e encardido. Do jeitinho que tem que ser. Em um TE-AMO-PAI de carne e osso. De fazer perfeito o dia. O ano. E a vida. 

Quem dormiu primeiro, ninguém viu. Nem a mãe. Que desligou o fogo e veio ter com eles.  Toda assanhada. Afinal, programa assim, a gente não perde, nem troca. Por nadinha nesse mundo.

4 comentários sobre “Programão de pai

  1. Muito gostoso de ler seu texto! Fiquei curiosa para saber como você cria suas crônicas. Por exemplo, você viu isso acontecer, vivenciou a história, inventou, ou misturou um pouco de tudo isso?
    bj

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    • Oi, Valéria! Essa foi cem por cento inventada. Mas o bom da crônica é que pode vir de qualquer canto. O que permite criar, contar ou enfeitar. Assim, ficamos conectados à realidade, mas sem a menor obrigatoriedade de retratá-la. Uma liberdade incrível, não acha? Escrever é bom demais, né?

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